Como o negócio desta brasileira emprega mulheres no Oriente Médio

Cristiane Cintra chamou a atenção do Egito com seu produto para cabelos em 2012. Hoje, 70% das suas vendas vão para o Oriente Médio

São Paulo – Cristiane Cintra começou no mundo da beleza assim como muitas outras empreendedoras: sendo revendedora de produtos para salões. O que ela não sabia é que esse começo acabaria em sua ideia conquistando o outro lado do mundo.

Os produtos de beleza de sua empresa própria, chama de SPHair, caíram no gosto das mulheres de países como Egito e Arábia Saudita. Tanto caíram que muitas delas viraram revendedores da marca – e Cintra ressalta o fato de as mulheres, pela primeira vez, poderem terem seu próprio dinheiro.

Hoje, 70% do faturamento da SPHair vem da exportação – em meses quentes, cerca de 10 mil produtos são vendidos. Cintra não quer parar por aí: planejar chegar a novos países e também em voltar às suas raízes, reforçando a marca em território brasileiro.

Veja também

História de negócio

Cintra já havia trabalhado como vendedora em shopping centers, mas não gostava da rotina de horários regrada e exaustiva. “Além dessa experiência em vendas, fui fazer um curso para ser cabeleireira em 2008. Minha mãe tinha essa profissão, então ela foi minha inspiração”, afirma.

Mesmo assim, Cintra também não sentia atração pela rotina de cabeleireira: queria flexibilidade nos horários, e virou representante de produtos para salões de beleza em 2010. No processo de venda, passava seu conhecimento sobre cabelos.

“Eu não tinha capital para me sustentar até as primeiras vendas acontecerem, então meu marido me ajudava com 20 reais todos os dias – eu abastecia o carro com 19 reais e comprava uma coxinha com o último real que sobrava”, conta a empreendedora.

Ela visitava cerca de dez salões por dia, com a meta de fechar negócio com três ou quatro. Com o tempo, as vendas aumentaram: ao mesmo tempo que novos salões compravam os produtos, os primeiros clientes continuavam pedindo lotes.

“O importante era entrar no salão e ganhar a confiança do profissional que trabalha lá. A partir do momento em que eu ganho essa credibilidade, ele compra qualquer novo produto que eu ofereça, de selagem à reparação dos fios.”

Com o conhecimento em cabelos e as técnicas de vendas de Cintra, em quatro meses ela já estava bem financeiramente. Criou sua própria distribuidora e contratou revendedoras para terceirizar o trabalho. Como revendedora, ganhava 20% do valor dos produtos vendidos; cuidando do estoque e da entrega dos itens, comprando diretamente na fábrica, o valor integral dos produtos se traduzia em receita.

A partir das principais dúvidas de seus clientes, Cintra também criou um blog e atingiu um público distante do seu local de atuação.

“As pessoas que moravam em outros lugares e não tinham uma representante de confiança também entravam no meu blog. Poderia atingir muito mais pessoas do que os dez salões que visitava por dia”, afirma.

Vendo o tráfego, ela resolveu montar sua própria loja virtual com produtos multimarcas. Mas, naquele mar de produtos, um item muito requisitado pelos profissionais e pelos leitores não constava: produtos orgânicos para cabelo, que fazem uma grande diferença na saúde dos fios.

“Aqui no Brasil, durante muito tempo trabalhar com progressiva significava trabalhar com formol [solução aquosa de formaldeído, possivelmente tóxico]. Os cabeleireiros tinham dificuldades em achar produtos saudáveis”, explica a empreendedora.

Cintra tomou uma grande decisão: vender sua distribuidora e investir os ganhos no desenvolvimento de uma fórmula de escova progressiva orgânica, saudável e eficiente para os cabelos. Esse é o conceito da SPHair, marca própria lançada em 2011.

Cristiane Cintra com os produtos da SPHair

Cristiane Cintra com os produtos da SPHair (SPHair///Como o negócio desta brasileira emprega mulheres no Oriente Médio/Como o negócio desta brasileira emprega mulheres no Oriente Médio/Divulgação)

Chegada ao oriente

Não demorou para que a empresa arrumasse um cliente inusitado. Em 2012, Cintra recebeu a ligação de um distribuidor de cosméticos do Cairo (Egito), chamado Ahmed Omar. Um amigo havia indicado o blog da empreendedora e ele queria trabalhar com os produtos da SPHair.

“Eu achei super interessante e vi que lá as mulheres não tinham o costume de trabalhar. Então, tive de pedir autorização aos maridos para que as mulheres revendessem os produtos nos salões femininos”, conta Cintra.

O sucesso dos produtos foi acima do esperado: segundo a empreendedora, as mulheres do país são vaidosas e investem muito em beleza. “Debaixo do hijab ou do niqab [vestimentas preconizadas em alguns países que seguem o islamismo], existe uma mulher que quer ter um cabelo bem cuidado e saudável, mesmo que ele só apareça dentro de casa.”

“Os maridos criaram um interesse na ideia, já que também têm uma personalidade comercial. Inclusive, muitos maridos largaram o emprego para trabalhar com suas mulheres, porque só elas não tinham capacidade de acompanhar a demanda. Hoje, não tenho mais que pedir autorização dos maridos e há até empresas que copiaram nosso modelo.”

A SPHair foi do Egito ao seu próximo alvo: a Arábia Saudita. O potencial é grande: o país concentra maior população e maior poder aquisitivo, além de contar com muitas distribuidoras. Porém, o país é mais fechado do que turístico Egito.

“Na Arábia Saudita, as mulheres ainda não podem nem dirigir. Tive de pedir uma autorização mais séria, e é muito legal ver que mulheres que costumam ser tão submissas conseguem sair de casa, visitar os salões, trabalhar e ter seu próprio dinheiro. Ainda estamos no começo, mas é nosso país campeão de vendas.”

A SPHair trabalha com 19 linhas de produtos: de óleos arte produtos para cauterização e hidratação, passando por BB Creams. O carro-chefe continua sendo o produto de selagem dos fios para deixar os cabelos lisos, que é a progressiva sem formol.

Hoje, 70% dos produtos da SPHair vão para exportação. Em meses bons, de 7 a 10 mil produtos são enviados; em meses mais fracos, de seis e sete mil itens. No Brasil, atualmente são vendidos mil produtos por mês.

Internacionalmente, empresa está em regiões como Arábia Saudita, Emirados Árabes (Dubai), Egito, Iraque e Qatar. Além disso possui uma distribuidora no México e acabou de fechar um acordo para se instalar no Texas (Estados Unidos).

Para Cintra, o salto de faturamento foi incrível. “Quando eu comecei a trabalhar com representação, ganhava 12 mil reais por mês. Na distribuição, saltou de 12 para 100 mil reais por mês. Agora, como fabricante, o faturamento 1,5 milhão-1,8 milhão por mês.

Reunião da marca SPHair no Oriente Médio

Reunião da marca SPHair no Oriente Médio (SPHair//Como o negócio desta brasileira emprega mulheres no Oriente Médio//Como o negócio desta brasileira emprega mulheres no Oriente Médio/Divulgação)

Planos para o futuro

Em termos de produto, a SPHair está investindo em uma linha para cabelos loiros e em uma linha masculina, focada no cuidado com a barba. Já quando se fala em estratégia de expansão, Cintra quer atacar tanto as frentes internacionais quanto nacionais.

Internacionalmente, a expectativa é aumentar as vendas internacionais entre 60 a 70% no próximo ano.

A marca participará de uma grande feira do setor em novembro, em Dubai. Além de expandir dentro do Oriente Médio, o negócio mira o mercado europeu, que também possui demanda por produtos capilares mais saudáveis, diz Cintra. “Já estamos vendo a parte de documentação para colocar o produto na Europa e estamos fechando uma parceria com uma distribuidora na Alemanha.”

No Brasil, a atuação da SPHair é menor e o investimento terá de suprir o desconhecimento do mercado. A empresa já está redesenhando suas embalagens, por exemplo.

“Acho que agora os cabeleireiros daqui estão mais conscientes da importância dos produtos saudáveis. Começaremos a marcar presença nas feiras daqui, além das internacionais. Já temos distribuidoras aqui no Brasil, mas quero investir mais na marca”, conta a empreendedora. A expectativa é que a venda nacional aumento 40% em 2018.

Até o final de 2018, a expectativa da SPHair é chegar a um faturamento médio mensal entre 2,5 e 2,8 milhões de reais – cerca de 1 milhão de reais a mais em comparação com o faturamento médio mensal atual.