Como escolher seu sócio para empreender

Especialista em empreendedorismo afirma que um sócio deve ter um perfil capaz de complementar as deficiências do empreendedor

Coisas para pensar antes de propor uma sociedade a alguém

Escrito por Vinicius Licks, especialista em empreendedorismo

“Começar uma empresa com o meu melhor amigo? Na hora, eu soube que iria fazê-lo. Como eu poderia recusar?” Foi assim que Steve Wozniak decidiu aceitar a proposta de sociedade feita por Steve Jobs para criar a Apple, em 1976.

Capital inicial? Wozniak vendeu sua calculadora HP por 500 dólares enquanto Jobs vendeu o seu VW velho por 1,5 mil dólares. Jobs também propôs uma participação de 10% na Apple para Ron Wayne, um colega de trabalho seu na Atari. Wozniak e Jobs ficaram, cada um, com 45% da empresa.

Wozniak seria corresponsável pela engenharia elétrica junto com Jobs, que também assumiria a parte comercial, e Wayne seria responsável pela engenharia mecânica e documentação dos projetos.

Para qualquer empreendedor, fazer uma sociedade com um amigo ou colega de trabalho para começar um novo negócio é uma decisão super simples. Afinal, eles já se conhecem. Mas, como toda decisão na vida, ter ou não ter sócios traz consequências. Ao optar pela sociedade, o empreendedor terá que tomar fazer algumas escolhas importantes: quem ele convidará para ser seu sócio? Qual será o papel de cada um na sociedade? Como dividir a participação na empresa?

Foram exatamente estas as primeiras decisões que os fundadores da Apple tiveram que tomar. Todas estas escolhas estão interligadas e afetarão, no longo prazo, a estabilidade da equipe de sócios fundadores, o valor da empresa e o controle sobre os rumos do empreendimento.

Claro, o empreendedor sempre poderá adiar estas decisões se optar pelo voo solo no início. Mas esta escolha também traz os seus próprios desafios. Sozinho, o empreendedor poderá não reunir todas as competências e conhecimento do mercado, rede de contatos e recursos necessários para começar a empresa. Ou ainda, poderá sentir falta do apoio emocional e psicológico que uma sociedade poderá lhe trazer.

Para decidir se faz sentido ou não ter um sócio, o empreendedor deverá avaliar o capital humano, social e financeiro necessários para colocar o negócio em funcionamento. Em seguida, comparar com as competências, o conhecimento do mercado, os contatos e recursos de que ele já dispõe.

A partir desta autoanálise, se ele identificar que muitas peças importantes do quebra-cabeça estão faltando, então valerá a pena ter um ou mais sócios com um perfil capaz de complementar as suas deficiências. Se apesar disto, ele decidir que quer mesmo é convidar o seu melhor amigo de escola para embarcar junto no seu sonho, pelo menos a decisão terá sido bem informada.

Curiosidade: se você nunca tinha ouvido falar da participação de Ron Wayne na formação inicial da Apple, existe uma boa razão para isso: 11 dias depois de topar entrar na sociedade, ele desistiu e vendeu para Jobs e Wozniak sua participação de 10% na Apple por 800 dólares à vista e 1.500 dólares em um cheque pré-datado.

Vinicius Licks é professor de empreendedorismo na engenharia do Insper.