Exame
  • 09/02/2010 09:05

As vantagens de listar ações em Nova York

Empresas brasileiras negociadas no principal pregão americano ganham em visibilidade, liquidez e valor de mercado

João Sandrini, de

Por que o Banco do Brasil possui um valor de mercado inferior ao de bancos com um volume menor de ativos, como o Itaú Unibanco, o Bradesco e o Santander? O que leva a CSN e a Gerdau a serem negociadas com um prêmio em relação à Usiminas? E qual o motivo de a Gafisa ter ações mais líquidas que concorrentes de porte parecido como a MRV e a Rossi?

Os analistas podem apresentar várias respostas para as três perguntas, mas para o chefe regional para América Latina e Caribe da Nyse Euronext, Alex Ibrahim, o fato de os bancos privados, a CSN, a Gerdau e a Gafisa terem ações negociadas na Bolsa de Nova York explica muita coisa.

 

 

Ibrahim é o responsável da bolsa americana por procurar e convencer empresas com ações em bolsas da América Latina a listar papéis também nos Estados Unidos. "Se uma empresa quer ter mais acionistas, maior diversificação e um prêmio em suas cotações, precisa estar presente no mercado americano", diz ele.

A Aracruz foi a primeira empresa brasileira a ter ADRs (recibos de ações de empresas estrangeiras negociados nos Estados Unidos) negociadas na bolsa americana. Quinze anos depois da iniciativa pioneira da fabricante de celulose, já são 30 as empresas brasileiras que possuem papéis na Nyse.

O volume de negócios gerados por essas empresas impressiona. O giro médio dessas companhias alcança 2,7 bilhões de dólares por dia - quase o mesmo montante de dinheiro que circula em toda a Bovespa num pregão. Cerca de 65% do volume de negócios gerado por essas 30 empresas vem dos EUA. A Vale e a Petrobras já figuram entre as 35 companhias com mais liquidez da Bolsa de Nova York. As companhias brasileiras só perdem para as americanas em valores movimentados no pregão nova-iorquino. (Continua)


Apesar desses números, no ano passado a única empresa brasileira que começou a negociar ações na Nyse foi a subsidiária nacional do banco Santander. Por esse motivo, Ibrahim tem procurado diversas empresas brasileiras e mostrado as vantagens de ter ações também em Nova York. O executivo não cita nomes, mas acredita que companhias do setor de construção, serviços e tecnologia teriam muito a ganhar com a listagem no mercado americano.

Até agora as duas maiores ofertas de ações previstas para este ano são do Banco do Brasil (cerca de 10 bilhões de reais) e da Petrobras (cerca de 50 bilhões de reais). Ibrahim acredita que boa parte da oferta da estatal de petróleo será absorvida por investidores nos EUA. Já o BB iniciou um programa de listagem de ADRs, mas de nível 1. Os papéis só poderão ser negociados no mercado de balcão americano, sem transações na Nyse. Como muitos fundos exigem liquidez para investir em determinadas empresas, acabam aplicando apenas nas empresas com ADRs de nível 2 e 3, negociados em bolsa.

O tamanho das empresas brasileiras não é uma barreira para a listagem em Nova York. O valor mínimo necessário para realizar uma oferta é de 60 milhões de dólares. O que afasta a maior parte das companhias é a necessidade de divulgar informações ao mercado de acordo com a lei contábil americana, a Sarbanes-Oxley. O custo para a elaboração dos balanços já chegou a ser de 2 milhões de dólares ao ano, mas, segundo Ibrahim, vem caindo rapidamente. Além disso, a empresa terá de pagar 150.000 dólares à Nyse para fazer a listagem e depois arcará com uma taxa anual de ao menos 38.000 dólares por ano.

Caso haja um grande aumento do número de empresas brasileiras nos EUA, a grande perdedora seria a BM&FBovespa. A Nyse pode ser considerada a principal concorrente da bolsa paulista, já que não há outras bolsas de ações no Brasil e a maioria das companhias nacionais que deseja ter listagem no exterior opta por ela. Se aumentam as taxas e comissões pagas por empresas brasileiras à Nyse, é provável que a BM&FBovespa esteja perdendo uma oportunidade de crescimento. (Continua)


Uma das formas de reação da BM&FBovespa foi fechar um acordo com o grande concorrente americano da Bolsa de Nova York, a Nasdaq. A ideia é permitir, já a partir deste ano, que um investidor estrangeiro possa negociar ações de empresas da bolsa brasileira pela plataforma da Nasdaq, e vice-versa. Essa mudança vai reduzir a vantagem de ter ações na Bolsa de Nova York porque a plataforma da Nasdaq é utilizada por boa parte dos investidores estrangeiros. A expectativa, portanto, é de que os papéis negociados na BM&FBovespa ganhem liquidez.

Além desse tipo de acordo operacional, a principal aposta para a expansão da BM&FBovespa são as negociações de alta frequência. A bolsa só aguarda a autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para que as corretoras possam instalar servidores dentro da BM&FBovespa e consigam concluir ordens de compra e venda em dez milésimos de segundo. Esse tipo de tecnologia é necessária para que investidores sofisticados que usam softwares para tomar decisões no mercado possam lucrar principalmente com operações conhecidas como "arbitragem".

Os softwares são capazes, por exemplo, de encontrar distorções entre o preço da ação da Petrobras negociada na BM&FBovespa e de sua respectiva ADR que circula na Bolsa de Nova York. Em milésimos de segundo, o próprio software dispara uma ordem de compra do papel onde ele estiver mais barato, transfere a custódia para o outro país e negocia a ação onde ela está mais cara. O único risco dessa operação é que ela não aconteça em uma velocidade suficiente para aproveitar a distorção de preços antes de outro investidor.

Apesar de a tecnologia necessária para esse tipo de operação já ser um problema superado, ainda há barreiras a serem vencidas. Em outubro do ano passado, uma canetada do governo praticamente inviabilizou o mercado de "arbitragem". Ao estipular a cobrança do IOF sobre as aplicações estrangeiras em bolsa, o ministro Guido Mantega (Fazenda) conseguiu reduzir a entrada de capital de curto prazo com o objetivo de evitar a queda exagerada do dólar. Mas também foi um banho de água fria para o mercado de "arbitragem". Como a medida afetou tanto a Bolsa de Nova York quanto a BM&FBovespa, as duas bolsas deixaram de lado as diferenças e passaram a defender que o governo retire o IOF para as aplicações em ações. Mais um caso de inimigos que se unem na adversidade.