Exame
  • Europa
  • 07/06/2012 08:00

O temor de um Lehman europeu

Abalados por uma crise de confiança, bancos gregos e espanhóis tentam evitar uma corrida bancária e espalham o medo de um novo congelamento do sistema financeiro mundial

Mariana Segala, de

São Paulo - Em meio a uma crise sem precedentes, com um novo governo assumindo o poder, o medo de que o dinheiro guardado no banco perdesse valor se espalhou na velocidade da luz. Poupadores de todo canto do país correram às agências para raspar a conta, um movimento que, em questão de meses, levou vários bancos a fechar.

O ano era 1933, época da Grande Depressão. O país, os Estados Unidos. O pânico, resultado de rumores de que Franklin Roosevelt, presidente recém-eleito, colocaria em marcha um plano para depreciar o dólar. Quase 80 anos nos separam do episódio, mas alguns de seus elementos soam muito atuais.

Hoje, é na Europa que os bancos vivem alguns de seus piores dias desde 2008, o início da atual crise, a mais profunda desde a da década de 30. É lá que circulam notícias e boatos com potencial para dar início a uma corrida bancária,  um dos eventos mais temidos por economistas e governos.

Corridas bancárias costumam jogar sistemas financeiros na lona, têm potencial para paralisar todos os outros setores e, ao fim, custam muito caro para os países afetados — tanto por causa de seus efeitos econômicos como em razão do montante necessário para capitalização das instituições.

No caso da Europa, hoje, há ainda muito mais em jogo. Não está descartada a hipótese de uma eventual quebra de bancos em série acabar com a moeda única, o euro, e espalhar o pânico pela economia mundial.

Os poupadores gregos drenaram 32 bilhões de euros de suas contas nos últimos 12 meses, levando os depósitos do sistema a encolher 16%. Um movimento semelhante se alastrou também pela Espanha, onde os bancos perderam 6% dos depósitos no mesmo período.

Por enquanto, nenhuma dessas economias fragilizadas viu sinais de uma corrida bancária no seu sentido mais clássico. Não há filas nos bancos e os depósitos ainda diminuem a taxas menores do que 5% ao mês, patamar que o Fundo Monetário Internacional caracteriza como o limiar do pânico.

Mas os prognósticos não são bons. Na Espanha, as perdas potenciais do sistema bancário com os calotes de quem tomou empréstimo e agora não consegue pagar são calculadas em 260 bilhões de euros, um quarto do PIB do país. Na Grécia, as dúvidas quanto à capacidade do país de se manter na zona do euro ganham contornos mais acentuados.


“Como analista, acho que o país não sairá do euro, mas, se tivesse dinheiro lá, certamente teria sacado”, afirma James Rickards, autor do livro Currency Wars (“Guerras cambiais”, numa tradução livre) e diretor do Tangent Capital Partners, banco de investimento com sede em Nova York. Como diz Mervyn King, presidente do Banco Central inglês, precipitar uma corrida bancária é irracional. Participar de uma, não.

O problema da Grécia, com uma dívida equivalente a 160% do PIB, tem um forte viés político. Incapaz de formar um governo nas eleições de maio, o país­ tem um novo pleito marcado para 17 de junho. A popularidade de líderes de extrema esquerda, como Alexis Tsipras, do partido Syriza, dá calafrios nos analistas financeiros.

Tsipras costuma dizer que as medidas de austeridade impostas à Grécia como condição de seu salvamento enviarão o país direto “para o inferno”. Deixar de adotá-las, no entanto, é motivo para que as autoridades da União Europeia parem de suprir os gregos com as linhas de financiamento.

Na Espanha, a questão de ordem é a inadimplência, inflada por uma bolha imobiliária em processo de estouro. Principal companhia hipotecária do país, o banco Bankia precisa de 19 bilhões de euros para sobreviver, isso depois de já ter recebido uma injeção de 4 bilhões de euros no início de maio.

O temor sobre o desenrolar da crise espanhola é tanto que, no primeiro trimestre, 100 bilhões de euros voaram para fora do país, num recorde de remessas ao exterior. “Como não há clareza de onde virão os recursos para recapitalizar os bancos, a situação do país é muito delicada”, diz Matt King, analista do banco Citi em Londres.

Uma das saídas defendidas por Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, é a criação de um fundo de garantia de depósitos bancários para toda a zona do euro. Os que existem hoje são todos nacionais. Outra opção é liberar o Mecanismo Europeu de Estabilização, fundo permanente de resgate que só pode emprestar para governos, a recapitalizar bancos diretamente.

“O sistema bancário europeu está sob mais pressão do que o americano cinco anos atrás”, afirma Alex Tsirigotis, analista do banco italiano Mediobanca. Para Tsirigotis, o que torna o caso europeu mais sensível é o fato de os governos de Grécia e Espanha não terem recursos suficientes para salvar seus bancos.

Os próprios ratings da dívida soberana desses países estão sendo revisados para baixo, e injetar mais dinheiro nos bancos aumentaria ainda mais a dívida e a inquietação dos mercados. “Se a corrida bancária acontecer, o mercado interbancário vai parar, o que nos levará de volta para os extremos após a quebra do banco Lehman Brothers em 2008”, diz Cristiano Souza, economista do Santander. É um filme que ninguém quer ver repetido.