São Paulo - “Todo louvor a Deus. Uma Mente. Um Amor Supremo”, ostenta a página inicial da St. John Coltrane African Orthodox Church na internet. Acredite ou não, Coltrane transcendeu sua humanidade e virou religião, ainda que os fiéis não passem necessariamente pelo templo instalado em San Francisco, nos Estados Unidos, para demonstrar sua devoção. A verdade é que antes de ser elevado a santo e ter seus temas tocados todos os domingos ao meio-dia em uma igreja pentecostal, um dos maiores jazzistas de todos os tempos, que perdeu a luta contra o câncer no fígado há exatos 45 anos, quase sucumbiu à heroína e ao álcool.
Em vida foram cerca de 50 gravações encabeçando os improvisos de gente como McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (baixo) e Elvin Jones (bateria), músicos que formaram o John Coltrane Quartet, responsável pelas maiores obras de seu voo solo. Neto de um reverendo da Igreja Metodista Africana Episcopal de Sião e de pais músicos – a mãe era cantora no coro da igreja e o pai, que Coltrane perderia aos 13 anos, tocava violino e ukelele. Ainda na escola, toma gosto pelo clarinete, mas decide partir para o sax alto após ter os ouvidos afetados pela banda do maestro Duke Ellington e pelo trabalho de Johnny Hodges.
Em 1946, entra para a King Kolax Band, possivelmente o primeiro grupo formado inteiramente por negros a tocar na rádio NBC, que contava com ninguém menos que o saxofonista Charlie Parker. Nos 14 anos seguintes faria parte dos melhores grupos da época: em 1949, aceita o convite de Dizzy Gillespie e assume o saxofone alto de sua big band; se junta ao Miles Davis Quintet em 1955 e mesmo já enfrentando problemas com as drogas – que o levaria a ser substituído por Sonny Rollins em 1957 – participa das sessões de gravação do célebre Kind Of Blue, lançado quatro anos mais tarde. Em 1960, já com o pé fora do barco de Davis, começa a gravar o álbum Giant Steps, o primeiro em que foi responsável por todas as composições.
A jornada pessoal nem sempre tem uma sequência lógica e, por vezes, as tradições se perdem por gerações dentro de uma família até retomarem o curso inicial. John Coltrane morreu no dia 17 de julho de 1967, em um hospital de Long Island (Nova York), não sem antes entregar A Love Supreme (que você ouve na íntegra abaixo) ao mundo.
O músico acreditava que a transcendência da linguagem musical aplicada aos quatro temas do disco (“Acknowledgment”, “Resolution”, “Pursuance” e “Psalm”) naquela solitária sessão de gravação na noite de 9 de dezembro de 1964 era seu presente para Deus. A graça divina teria lhe dado uma vida mais produtiva e rica, segundo o próprio músico escreveu no encarte. O interesse espiritual seguiria nos álbuns Ascension, Om e Meditations, sempre na intenção de produzir sentidos emocionais específicos por meio da música.
Perguntado de onde havia tirado forças para se recuperar do angustiante destino que as drogas lhe submeteram, o instrumentista deu pistas de que havia escutado vozes divinas. “Há muitas coisas na vida que não entendemos, mas seguimos em frente de qualquer maneira”, disse outra vez.
Em entrevista concedida no dia 9 de julho de 1966, no Tokyo Prince Hotel, no Japão, Coltrane foi questionado sobre o que gostaria de ser nos dez ou 20 anos que seguiriam. “Um santo”, respondeu, em tom de brincadeira, pouco mais de um ano antes de morrer. Nem sonhava que tinha razão.