Exame
  • Energia
  • 16/05/2012 08:00

Adeus, etanol, diz Rubens Ometto

Rubens Ometto, controlador da Cosan, cansou da “montanha-russa” do setor de açúcar e álcool — e, após investir mais de 7 bilhões de reais, está criando um novo conglomerado. Nele, a cana não entra

Marcelo Onaga, de

São Paulo - Rubens Ometto cansou de ser o maior usineiro do mundo. Dono de uma fortuna estimada em 2,7 bilhões de dólares, que faz dele o 19º brasileiro mais rico, ele produz mais etanol de cana-de-açúcar que qualquer empresário na história.

Ometto passou cada um de seus 62 anos ao redor de canaviais: nasceu e cresceu dentro de uma usina de açúcar fundada por seus avós em Piracicaba, no interior de São Paulo — e, de lá para cá, viveu de tudo um pouco, na ciclotimia típica de um setor que ora está quebrado, ora está endinheirado.

Quase faliu e brigou com a família (inclusive a mãe) pelo controle da empresa. Com sangue-frio e uma enorme disposição para arriscar, foi comprando seus concorrentes enrolados até se tornar o maior, senhor absoluto de um conglomerado que esmaga 124 toneladas de cana por minuto.

Ometto é o que é hoje por causa da cana — mas, de uns tempos para cá, iniciou uma mudança de rumo espantosa: todos os seus investimentos recentes foram feitos em áreas que nada têm a ver com açúcar ou álcool. Seu último e mais ousado passo nessa direção foi dado no início de maio.

Por 3,4 bilhões de reais, acertou a compra da Comgás, maior distribuidora de gás natural do país. É a maior aquisição de sua vida. “O mercado de açúcar e álcool é uma montanha-russa”, disse Ometto a EXAME. “Estou investindo em setores mais estáveis.”

A compra da Comgás foi o ápice de um movimento iniciado há quatro anos. Foi quando Ometto gastou 1,5 bilhão de reais para comprar a rede de postos de combustíveis Esso, da americana Exxon Mobil. Menos de um ano depois, Ometto e a anglo-holandesa Shell anunciaram a fusão de suas operações no Brasil, criando a Raízen, quinta maior empresa do país, com faturamento de 50 bilhões de reais.

Entraram no negócio todas as usinas da Cosan e os postos da Esso, além dos postos da Shell. O contrato também incluiu uma dívida de 2,5 bilhões de reais da Cosan e um aporte de 1,6 bilhão da Shell. Fechado o acordo, o empresário partiu para a criação de um novo conglomerado.


Fundou uma empresa de logística, a Rumo. Criou ou comprou também empresas de alimentos, cogeração de energia, lubrificantes e gestão de terras. Em fevereiro, ofereceu 900 milhões de reais para entrar no bloco de controle da ALL, maior operadora logística independente do país.

Agora, com a aquisição da Comgás, Ometto aprofunda ainda mais sua transformação. As vendas de etanol, açúcar e energia elétrica gerada da queima do bagaço da cana, que há pouco mais de três anos representavam 100% dos negócios de Ometto, responderão por 18% da geração de caixa da Cosan em 2012. Caso todos os negócios sejam concluídos, o faturamento da Cosan chegará a 30,5 bilhões de reais e o grupo se tornará um dos 15 maiores do país. 

É uma guinada sem precedentes. Diversificar a atuação de uma companhia e, assim, reduzir seus riscos é uma decisão que vem entrando no radar de executivos e empresários do mundo inteiro. Um estudo recém-concluído da consultoria americana Boston Consulting Group mostra que os grupos que não dependem de apenas um negócio se saíram melhor durante a crise.

Natural, uma vez que negócios que vão bem podem ajudar a manter os que vão mal. O que chama a atenção no caso de Rubens Ometto é a magnitude da metamorfose por que sua empresa vem passando. De 1936, quando foi fundada, até 2008, afinal, a Cosan fazia, basicamente, uma coisa.

Comprava cana de produtores, transformava a matéria-prima em açúcar ou álcool e vendia. O sucesso da empresa e a fortuna acumulada por Ometto mostram, cabalmente, que essa simplicidade toda deu muito certo por sete décadas. Mas em míseros cinco anos, como se viu, essa realidade foi virada pelo avesso: no processo, Ometto gastou mais de 7 bilhões de reais em aquisições e investimentos.

Metamorfose 

Aliada às aquisições mais recentes, a criação da Raízen, dois anos atrás, é a maior evidência de que, para Ometto, o futuro não está na cana-de-açúcar. A assinatura do acordo separou suas empresas em duas. Sob a Raízen estão as usinas e os postos de combustíveis.


Qualquer atividade que não seja relacionada a cana ou distribuição de combustíveis é 100% de Ometto e está fora da joint venture com a Shell. O acordo entre os dois prevê que, em janeiro de 2020, a Shell terá o direito de comprar os 50% que a Cosan detém na empresa. Caso a multinacional opte por exercer seu direito, Ometto pode, por sua vez, recusar a oferta e vender apenas 25%.

Mas cinco anos depois, em qualquer cenário, a Shell terá a opção de comprar tudo e assumir 100% do negócio. Caso não exerça seu direito, a Cosan pode comprar todas as ações da Shell na Raí­zen, possibilidade considerada pouco provável. “O acordo parece muito mais uma operação de aquisição do que uma joint venture”, afirma Salim Morsy, analista da Bloomberg New Energy Finance.

O empresário diz que a Raízen continua­rá investindo em etanol e açúcar e que não tem interesse em se desfazer de suas ações. Mas afirma que não rasga contratos. “Se a Shell quiser exercer o direito de compra, vou vender.” Nesse caso, Ometto deixaria para trás sua histórica relação com as usinas, que passariam para a multinacional. 

Por trás da metamorfose da Cosan está uma constatação de Ometto — a melhor forma de proteger seu patrimônio é deixá-lo de fora do vaivém do setor de açúcar e álcool. Nos últimos 30 anos, os usineiros brasileiros passaram por três grandes crises. Em 1985, o petróleo ficou barato demais, o que derrubou os preços do etanol.

Quatro anos depois, faltou cana no país (e quem tinha carro na época se lembra das filas para abastecer veículos movidos a álcool). Em 2008, o crédito secou e se seguiu uma fase de liquidação de usinas sem precedentes. “Não faz sentido ter um negócio com anos de altos lucros e outros com prejuízos que podem afetar sua saúde financeira”, diz Ometto. “A indústria da cana é assim.”

As usinas de sua família passaram por uma experiên­cia de quase-morte nos anos 90, quando estavam endividadas demais (deviam mais que seu faturamento anual). O empresário brigou com os parentes porque defendia a união de todas as usinas sob um mesmo grupo (quem mandaria, claro, seria ele), uma forma de ganhar eficiên­cia.

Foi quando brigou com sua mãe, que era contra e levou a questão à Justiça. Ometto, o filho, acabou vencendo — e, ao fim do processo, nasceu a Cosan. Naturalmente precavido, desde então ele procura formas de diminuir o grau de risco do negócio. O primeiro passo foi ampliar a participação da cogeração de eletricidade nas usinas.


Na década passada, a empresa investiu 2 bilhões de reais nesse nicho. Com preços regulados pelo governo em contratos de longo prazo, a energia elétrica garantiu uma receita constante, que serviu como um tipo de seguro para o açúcar e o etanol em caso de quebra de safras.

As receitas da cogeração, no entanto, não atendiam às necessidades de crescimento da empresa. Foi quando Ometto percebeu que, para defender seu patrimônio, seria necessário dar um passo além.

O que aconteceu de lá para cá foi uma sequência de negócios absolutamente fiéis ao estilo Ometto, de uma agressividade notória. Ao iniciar seu plano de expansão pós-cana, ele, de cara, entrou em guerra com os acionistas minoritários da Cosan.

Para aumentar sua capacidade de investimentos sem correr ris­co de diluição caso as coisas dessem errado, Ometto criou uma empresa nas Bermudas para controlar a Cosan.

Na empresa sediada no paraíso fiscal, o brasileiro teria o controle garantido por uma classe especial de ações — o que ele não poderia fazer no Brasil, já que sua empresa é listada no Novo Mercado da Bovespa, segmento em que estão as empresas que, em tese, seguem princípios elevados de governança e transparência.

Pegou mal — aliás, muito mal —, os acionistas chiaram, mas a operação foi adiante. Esse estilo se repetiu, também, nas aquisições. A Cosan virou o que virou porque Ometto nutria um gosto descomunal por comprar empresas usando dinheiro emprestado (a concorrência logo espalhava que as dívidas eram impagáveis e ele não tardaria a quebrar).

A empresa nasceu com sete usinas. Hoje, tem 24. O empresário repetiu o processo na hora de diversificar. Sua proposta de 2 bilhões de reais pela Esso foi superior à da Petrobras, na época a favorita absoluta a vencedora do leilão.

Com as recentes ofertas pela ALL e pela Comgás, Ometto vai duplicar a dívida da Cosan, que se aproximará dos 7 bilhões de reais — as agências de classificação de risco logo ameaçaram rebaixar a nota da empresa. 

A moda passou

Ometto, como de costume, não está nem aí para o sinal amarelo que acendeu no mercado financeiro. “Se eu for tocar a empresa do jeito que o mercado quer, é melhor colocar um analista em meu lugar”, afirma. Os analistas mais céticos criticam também a falta de cone­xão entre os negócios.


O que distribuição de gás tem a ver com transporte de cargas? Para rebater as críticas, os executivos da Cosan gostam de citar o exemplo da Rumo Logística, empresa criada em 2009. Ometto investiu 1,3 bilhão de reais na compra de 72 locomotivas, 800 vagões e na duplicação de trechos de ferrovia próximas a Santos para criar a Rumo.

O investimento fez bem à produtividade dos negócios de açúcar da empresa: a operação de descarregamento de um vagão no porto de Santos, que levava 45 minutos, passou a ser feita em 40 segundos após a criação da Rumo. O empresário afirma que qualquer empresa que opere nos mercados de seu interesse estará na mira para, ao fim do pro­cesso, criar seu conglomerado de energia limpa e logística.

O estilo “vamos que vamos” de Ometto deu certo no setor de açúcar e álcool. Dará certo na nova fase? Não se sabe, mas, desta vez, ele começa com o benefício da dúvida.

Cinco anos atrás, a onda de investimentos de Rubens Ometto em qualquer coisa que não fosse ligada à cana-de-açúcar seria impensável. O Brasil vivia, afinal, o auge da euforia em torno do etanol — tratado por Brasília como a grande vocação econômica do país, destinado que estava a abastecer de energia limpa um mundo viciado em petróleo.

Três empresas do setor abriram o capital na Bolsa de Valores de São Paulo. No auge, em 2008, os investimentos na construção de novas usinas chegaram a 10 bilhões de dólares. Foi quando a promessa do etanol atraiu grandes nomes do capitalismo mundial, como o investidor George Soros e o fundador da AOL, Steve Case.

No campo, a imagem dos usineiros era lustrada por uma notável modernização, que substituiu boias-frias por máquinas, dinheiro do governo por dinheiro privado, chororô por crescimento.

A velha cana-de-açúcar, trazida ao Brasil por Martim Afonso de Souza há quase 500 anos, simbolizava um novo país, verde e moderno (o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, numa passagem famosa, que os usineiros passaram de “bandidos a heróis mundiais” e que os que criticavam o etanol tinham suas mãos “sujas de petróleo”).

Ometto esteve à frente desse processo. A abertura de capital da Cosan, em 2005, foi um marco na história do setor. Sua busca por escala levou às usinas uma eficiência sem paralelos num setor carcomido por anos de administração rudimentar. 


O oba-oba logo acabaria. É simbólico que seja justo a Cosan a empresa que, aos poucos, desfaz seus investimentos em açúcar e álcool para ganhar dinheiro em outros lugares. É reflexo de um país que teve com as energias renováveis um caso de amor ardente, mas breve.

No fim de 2008, em meio à crise financeira que abalaria as finanças das usinas brasileiras, a Petrobras iniciou a prospecção das reservas de petróleo na camada do pré-sal. Foi uma senhora ironia. O governo federal logo esqueceu o etanol. O petróleo, para repetir a metáfora de Lula, passou de “bandido a herói”.

Como o mercado de etanol é altamente regulado e dependente dos humores de Brasília, a descoberta do pré-sal acabou sendo decisiva. O governo, que estava ajudando, passou a atrapalhar. Há mais de um ano, a Petrobras mantém o preço da gasolina artificialmente baixo, uma forma de tentar conter a inflação.

Como o preço do etanol está diretamente atrelado ao da gasolina, o produtor não pode repassar o aumento de custos que teve por causa de problemas na safra. As margens de lucro, nesse cenário, desapareceram. Para piorar, o governo vem reduzindo a tributação da gasolina por meio da redução da Contribuição de Intervenção sobre o Domínio Econômico.

O tributo, que representava 15% do preço da gasolina em meados da década passada, hoje tem um peso de apenas 2%. “O Brasil vai na contramão do mundo, que dá incentivos fiscais a combustíveis limpos”, diz Marcos Jank, ex-presidente da associação dos produtores de açúcar e álcool. Para o consumidor, a consequên­cia mais visível dessa atitude é que, desde meados de 2009, abastecer com etanol deixou de valer a pena na maioria dos estados brasileiros. 

Para os usineiros, o momento para a mudança de amor do governo não poderia ser pior. Nos últimos três anos, o país viveu uma incômoda série de quebras de safra de cana. Algumas usinas, como a Santelisa Vale, do grupo francês Dreyfus, esmagaram 30% menos que sua capacidade na última safra.

O resultado é um setor altamente endividado e com produtividade em queda. A dívida da indústria canavieira brasileira subiu de 7 bilhões de dólares, em 2006, para mais de 25 bilhões de dólares, no ano passado. A produtividade dos canaviais caiu 20% nos últimos quatro anos. Instalou-se, então, uma grave crise no setor.


Grandes multinacionais, como a indiana Renuka, a espanhola Abengoa e a singapurense Noble, estão entre as que procuram compradores para seus ativos no país. E o Brasil, que prometia abastecer o mundo com seu etanol, importou em 2011 mais de 1 bilhão de litros de álcool produzido nos Estados Unidos.

Se o etanol entrou em crise tão rápido, não existe a chance de voltar à moda na mesma velocidade? A descoberta do pré-sal não mudou em nada as vantagens do etanol brasileiro. Ele continua sendo renovável. Continua muito menos poluidor que a gasolina. Continua, também, mais eficiente que o etanol produzido do milho americano.

Com o petróleo na casa dos 100 dólares, é de imaginar que a discussão em torno da viabilidade dos combustíveis renováveis voltará à tona cedo ou tarde. Para o Brasil, um mercado forte de etanol seria bem-vindo, pois o país de fato tem uma posição única em termos de produtividade.

O fato, porém, é que o soluço recente reforçou um temor antigo: não é seguro investir em etanol, porque, cedo ou tarde, uma nova crise se instalará. Se o maior usineiro do mundo está desconfiado, quem vai confiar?