Zarlenga, da GM: líder em busca de lucro

Michele Loureiro

Há 91 anos no Brasil, a montadora General Motors ensaia uma liderança de mercado em 2016, ao vender 17,2% dos veículos do Brasil até novembro. A GM ampliou sua participação de mercado em três pontos percentuais e ultrapassou a Fiat, que há 14 anos detinha o posto de maior vendedora de carros do país. Apesar de ainda faltar um mês para bater o martelo do primeiro lugar, a GM já celebra a venda de 272 000 unidades até novembro, uma queda de 9% ante o ano passado – vantagem num ano em que as vendas de carros despencaram 20,8%.

A cereja do bolo vem com o modelo Onix, que deve se consagrar como o carro mais vendido pelo segundo ano consecutivo – há um mês da contagem final, já tem 134 mil unidades emplacadas – derrubando de vez a hegemonia do Volkswagen Gol e do estreante Hyundai HB20.

Mas nem só de boas notícias vive a GM. O executivo Carlos Zarlenga assumiu a presidência da companhia no Brasil em setembro deste ano com uma árdua missão: fazer com que a operação volte a dar lucro. Confira a entrevista exclusiva concedida a EXAME HOJE.

Qual a relevância de ser líder de mercado? Este é um objetivo de vocês?

Quando notamos uma queda do volume de vendas, já no final de 2013, iniciamos um plano de contenção para que o momento não nos atingisse de forma brusca. Elaboramos uma estratégia para rever custos, produtos, concessionárias e força da marca. Já são quase três anos trabalhando com esse novo posicionamento. Mesmo com o cenário desafiador, lançamos 12 produtos este ano. Um recorde para reforçar que acreditamos no potencial do mercado nacional. Já são 14 meses de liderança, mas não foi uma corrida pelo primeiro lugar. Acredito que é consequência do nosso trabalho.

O Onix é responsável por quase metade das vendas. É saudável ser tão dependente de um modelo?

O Onix é o carro que mais vende no segmento mais importante do mercado do Brasil. Estamos falando de um nicho de entrada que ainda responde por cerca de 60% das vendas – e temos um modelo bem colocado nele. Mas não acredito que somos dependentes dele. A S10 é líder de vendas de picapes, o Cruze briga com o Toyota Corolla e o Honda Civic entre os sedãs médios e o novo Tracker deve trazer mais participação no nicho de utilitários. Temos produtos bem colocados em todos os segmentos. O resultado do Onix reflete o tamanho do segmento onde ele está.

A participação de mercado da GM é menor no segmento de comerciais leves. Há algum plano para explorar melhor esse nicho?

Nesse momento estamos satisfeitos com os segmentos onde transitamos. Não temos planos de agregar produtos de maior porte por enquanto.

É fato que a indústria encolheu nos últimos anos. A GM já está adaptada aos novos patamares?

Ajustamos nossa capacidade produtiva de forma mais expressiva até o começo de 2015. Precisamos reduzir o número de funcionários e a rede reorganizou sua disposição. Atualmente temos cerca de 600 concessionárias, mas esse número já foi maior. Estamos adaptados para a nova realidade do mercado. Não vejo novas mudanças no médio prazo, mas se isso acontecer acredito que será para crescer.

Esta semana, a empresa anunciou a contratação de 200 funcionários para a fábrica de São José dos Campos (SP). A recuperação já chegou?

Essa é uma boa notícia que tivemos. Com as vendas da picape S10 indo muito bem, precisamos reforçar a equipe de usinagem de motores a diesel na fábrica de São José dos Campos e também na Argentina. As contratações começam em janeiro, mas ainda é uma questão pontual.

Foram 12 lançamentos este ano. O consumidor pode esperar mais novidades em 2017?

Renovamos todo nosso portfólio mesmo em um momento de crise econômica, pois acreditamos que o mercado vai voltar a crescer ainda no ano que vem e queremos estar prontos para isso. Em 2017, o destaque fica por conta da conectividade e dos nossos sistemas de informação e comunicação MyLink e OnStar. Nosso intuito é ser referência em tecnologia e cada vez mais integrar o uso do carro com o celular, desde os carros mais básicos. Mas é fato que o desenvolvimento de produtos não para e já estamos pensando nas próximas gerações de veículos.

Acumulando o cargo de CFO na América do Sul, a questão financeira deve ser uma obsessão na sua rotina. Como está a operação brasileira da GM?

Não reportamos os números do Brasil de forma isolada, mas temos os resultados da América do Sul. Em termos de volume, o Brasil responde por um pouco mais da metade das vendas da região. O fato é que não tivemos lucro no ano passado e não teremos em 2016. Mas os resultados vêm melhorando. Este ano, até agora, temos um prejuízo de 300 milhões de dólares na região, valor menor do que em 2015. Acredito que 2017 ainda não seja o ano da virada em termos financeiros, mas acho possível reduzir bem esse prejuízo, pois estamos projetando crescimento em todos os países da região.

A GM é uma das montadoras mais otimistas quando o assunto é a recuperação do mercado brasileiro. Em quais fatores é baseada essa expectativa?

Em 2015, eu projetava um ano de 2016 com 2 milhões de unidades e fui chamado de pessimista. Agora, sabemos que vamos fechar o ano perto de 2,1 milhões de unidades. Para 2017, acreditamos em de 2,4 milhões de carros vendidos, o que ainda é pouco perto do nosso potencial. É preciso analisar alguns fatores como a demanda reprimida nos últimos três anos, quando muita gente deixou de comprar um carro por receio de perder o emprego e não dar conta da dívida. Além disso, temos a sinalização do índice de confiança do consumidor, que está em ascensão desde julho. Isso sem contar os dados históricos: nas últimas sete retrações do setor dos últimos 30 anos, 80% do volume das vendas foi retomado nos 12 meses subsequentes. Só não sabemos ainda quando começa essa recuperação, mas acredito que seja até o primeiro trimestre de 2017. Um sinal é que as vendas diárias de novembro já foram 16% maiores que as de outubro. O ano que vem tem tudo para ser de superação e crescimento de dois dígitos.

Para a indústria automotiva, o ano de 2017 deve ser pautado pela expectativa de uma retomada econômica, de tentativa de aumento nas exportações e pela agenda do programa de incentivos Inovar-Auto, do Ministério da Indústria, Comércio e Serviços. Como a GM se posiciona diante dessas questões?

A agenda do setor continua em busca de previsibilidade. Não queremos subsídios do governo, nem medidas protecionistas. Queremos a possibilidade de trabalhar no longo prazo e de poder investir com tranquilidade. Por isso, a agenda passa por mais acordos de comércio, discussão da nova fase do Programa Inovar-Auto e auxílio aos fornecedores, que sentiram a crise ainda mais que as montadoras. Queremos participar da discussão de um país mais competitivo, o que passa impreterivelmente pela revisão das leis trabalhistas. Nosso foco é fazer que o custo local seja globalmente competitivo.