Um banho de água fria na Gol

Para uma empresa acostumada a dar más notícias para seus investidores, a companhia aérea Gol vinha tendo um 2016 pra lá de positivo. Depois de acumular mais de 6 bilhões de reais de prejuízo nos últimos três anos, a companhia anunciou lucro de 757 milhões de reais no primeiro trimestre. Em maio, começou a renegociar mais de 1 bilhão de reais em dívidas com seus principais credores. Mas a melhor notícia era o avanço, no Congresso, de uma medida provisória que aumentaria o limite de investidores estrangeiros em empresas de aviação de 20% para até 49%.

Apesar de não confirmarem, a Gol e sua acionista Delta Air Lines esperavam o anúncio para negociar o aumento de capital e fortalecer o caixa da companhia. Atualmente, a aérea norte-americana possui 9,5% do capital total da empresa – e a Air France-KLM outros 1,2%. Em relatório enviado para clientes, o analista da Bradesco Corretora, Victor Mizusaki, afirmou que se a lei mudasse, a participação da Delta poderia subir para até 49%. Seria um injeção financeira que poderia mudar a história da Gol, que acumula 7,8 bilhões de reais de dívidas.

O problema é que, na quinta-feira 29, o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, afirmou que o presidente interino, Michel Temer, se comprometeu a vetar o trecho que aumenta a participação dos estrangeiros. De lá pra cá, as ações da Gol caíram 15%, e o 2016 da companhia passou a ser exatamente como foram os últimos anos – mergulhado na incerteza.

Em evento realizado no Centro de Treinamento da empresa, em Diadema (SP), no início deste mês, Paulo Kakinoff, presidente da companhia, disse que “desde o primeiro dia fomos a favor do livre mercado”. Procurada por EXAME Hoje, a Gol se limitou a responder que “ é favorável à emenda que não estipula limites ao aumento da participação de capital estrangeiro no setor aéreo brasileiro. A companhia acredita que a iniciativa irá impulsionar o desenvolvimento do mercado de aviação no país e ampliará as oportunidades de investimentos para as empresas aéreas nacionais, beneficiando também seus clientes.”

O plano B

Sem o capital estrangeiro, a Gol precisa mergulhar ainda mais fundo em seu plano de recuperação, que inclui até a contratação de duas assessorias financeiras para ajudar, a PJT Partners e a SkyWorks Capital. Segundo Mário Bernardes Junior, analista do BB Investimentos, em relatório, há um conjunto de ações importantes em andamento. “Entre as principais medidas destacam-se a redução da frota, avanço da venda de bilhetes da Smiles, alterações nas rotas, renegociações com fornecedores e revisão de contratos de arrendamento de aeronaves”.

Na prática, a companhia executa o plano de extinguir oito destinos, como Miami e Orlando, nos Estados Unidos, diminuir a oferta de assentos em até 18% e fazer uma redução programada de 20 aeronaves. Nesta semana, a companhia encerrou o prazo para as ofertas de permuta de bônus para reduzir sua dívida e teve uma adesão abaixo do esperado: 174,745 milhões de dólares de um total de 780 milhões dólares em negociação. Mas talvez a sorte esteja ao lado da Gol: a valorização do real contra o dólar nos últimos seis meses gerou redução de 1,4 bilhão de reais no estoque da dívida da empresa.

Outra mudança é intensificar um roteiro já em curso – se inspirar cada vez mais nas boas práticas da Delta, que é uma das empresas mais eficiente do setor. Com a injeção de capital, a Delta teria o direito de indicar mais dois conselheiros e equiparar forças com os Constantino, controladores que têm 100% das ações ordinárias e 61,3% do capital total. Sem o aporte, a ‘deltificação’ da Gol deve continuar seguindo aos poucos, sem muito alarde.

Mais uma chance

Apesar de a expansão de capital estrangeiro ter sido vetada, o presidente da Abear, entidade que congrega Azul, Tam, Avianca e Gol, afirmou que o assunto ainda não está encerrado. “Nas próximas três semanas teremos várias reuniões para tratar do assunto com todas as esferas envolvidas”, diz Eduardo Sanovickz. “Faremos o possível para que o setor tenha liberdade plena”.

O problema, porém, é que nem mesmo as empresas estão afinadas sobre o tema. Em uma reunião realizada na segunda-feira 4, os representantes das companhias não conseguiram chegar a um ponto comum. A Abear, que defendia um aumento para 49%, agora não tem mais posição definida sobre o assunto. “Cada empresa fala em um percentual e não temos mais um consenso”, diz. A Gol preferiu não se manifestar sobre o assunto.

Em Brasília, o embate coloca de um lado políticos favoráveis ao aumento de estrangeiros para 100% do capital (grupo que inclui Michel Temer), políticos que querem o limite de 49%, e outros que pretendem deixar tudo como está. Ou seja, a história pode ter novos capítulos. Enquanto isso, a Gol voa como um avião com o tanque de combustível nas últimas, e sem aeroporto à vista.

(Michele Loureiro)