Uber: bandeira branca na China

Thiago Lavado

Apertou no bolso. Depois investir 2 bilhões de dólares em dois anos na China, o gigante digital de caronas pagas Uber resolveu vender suas operações no país para a principal concorrente, a Didi Chuxing. As duas empresas competiram ferozmente durante dois anos pela liderança em um país que realiza mais de 1,5 bilhão de corridas por ano (o Uber realizou, em toda a sua história, pouco mais de 1 bilhão de corridas). A Didi é cerca de 10 vezes maior que o Uber na China, realizando cerca de 11 milhões de corridas por dia.

Em nota, a Didi informou que não vai dissolver as operações do Uber, e que vai manter os negócios e a marca independente, para garantir a estabilidade de passageiros e motoristas. A Didi informou ainda que, pela troca dos ativos do Uber, irá ceder uma parcela de 17,7% de suas operações para os americanos. A Didi também passa a ser uma acionista minoritária do Uber. A negociação dá lugar a uma companhia no valor de 35 bilhões de dólares. O Uber vale estimados 65 bilhões de dólares.

Os fundadores e presidentes das duas empresas, Travis Kalanick, do Uber, e Cheng Wei, da Didi, passam a ser membros do conselho uma da outra. Embora a China seja o mercado onde o Uber realizava mais corridas, a briga com a Didi canibalizava os rendimentos de ambas as empresas e, de acordo com pessoas próximas ao negócio, investidores do Uber insistiam em vender os ativos aos chineses.

“Didi e Uber aprenderam muito um com o outro durante os últimos dois anos. O novo acordo com os americanos vai permitir que a indústria do transporte via mobile alcance um novo patamar de crescimento, mais sustentável e de alto nível”, disse Cheng Wei, presidente da Didi, que pelo acordo também deve realizar investimento de 1 bilhão de dólares nas operações globais do Uber.

Diante de uma guerra de subsídios, com repasses para motoristas e descontos para passageiros, era esperado que as companhias perdessem, somadas, mais de 2 bilhões de dólares por ano na China. Com a parceria, o Uber dá um passo gigantesco para entrar na China de maneira pacífica, onde há mais de 600 milhões de usuários de internet e uma economia que cresce cerca de 7% ao ano.

A saída também é rentável para o Uber que, apesar de ter queimado 2 bilhões na China nos últimos 2 anos, sai com ações no valor de 7 bilhões em uma companhia que tem muito para crescer. De quebra, economiza caixa para seus investimentos em outros países. Aqui no Brasil, o Uber tem a meta de chegar a 50.000 motoristas até o fim do ano, ante 10.000 em 2015. Para isso, tem lançado novidades no país, como aceitar pagamentos em dinheiro. Em junho, o Uber ainda lançou o serviço de helicópteros no país.

A Didi Chuxing nasceu da fusão de duas antigas gigantes do mercado de transportes por aplicativo na China, a Didi e a Kuaidi, que decidiram pela fusão quando o Uber anunciou que iniciaria operações no país. A Didi Chuxing copiou o modelo de funcionamento do Uber e o adaptou para a realidade chinesa — o resultado foi uma participação de 87% do mercado na China, com ramos que vão desde corridas de táxis e veículos particulares até serviços de chofer. A Didi tem mais de 15 milhões de motoristas registrados, cerca de 300 milhões de usuários e parceria com 200 fábricas de veículos.

Em entrevista a EXAME Hoje em maio, Casper Sun, porta-voz da Didi Chuxing, afirmou que a companhia não tem planos de expandir os negócios para fora da China, mas que realiza parcerias com empresas do setor que atuam em outros países, como a firmada com a americana Lyft, que permite que usuários da Didi utilizem o aplicativo da companhia para pedir carros em mais de 200 cidades nos Estados Unidos. Novidades em parceria com o Uber também são questão de tempo.