Segredo de 4×4 100% brasileiro está no design

Como o Stark 4WD Diesel, criado por uma empresa catarinense que inovou no processo de criação, chegou a ser comparado a modelos tradicionais como o Jeep Wrangler

São Paulo – Como um carro criado do zero, sem pretensões comerciais, no estado de Santa Catarina, consegue se tornar sucesso da crítica internacional e ser comparado a marcas tradicionais como Jeep e Land Rover? A resposta está no design.

A história descrita acima pertence ao Stark 4WD Diesel, um 4×4 off-road desenvolvido totalmente no Brasil pela empresa Tecnologia Automotiva Catarinense (TAC) em parceria com a Questto Design. Levi Girardi, sócio-diretor da Questto, explicou hoje, em palestra no evento Info@Trends, em São Paulo, como a inovação no processo de criação do produto foi fundamental para que o projeto desse tão certo.

O Stark começou a ser pensado em 2002, por iniciativa da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC). “Na verdade, a ideia era criar um projeto institucional para incentivar o setor automobilístico, de pouca tradição no estado”, contou Girardi. “Após a abertura econômica do Brasil, praticamente todos os estados brasileiros da Bahia para baixo receberam alguma montadora multinacional em seus territórios, e Santa Catarina ficou de fora. A proposta então era mostrar que havia base tecnológica, embora não houvesse uma proposta comercial em um primeiro momento”.

A Questto recebeu dos idealizadores do Stark algumas diretrizes, que diziam que o veículo seria um 4×4, off-road e de baixa produção (de cinco a dez unidades por mês); e um protótipo, baseado no Ford EX (foto abaixo), que havia sido apresentado na Detroit Motor Show 2001, nos Estados Unidos. “Nossa missão era dar um ‘tapa’ no design”, contou Girardi.

Foi aí que ocorreu o pulo do gato. O sócio-fundador da Questto classifica a forma como a indústria encara sua atividade em três modelos: o design cosmético, o design como ferramenta, e o design como estratégia. “No primeiro, o design só é pensado no final do processo produtivo, após as etapas de definição e posicionamento, especificações, projeto e protótipo”, explicou Girardi. “O design como ferramenta entra em uma etapa antes, na fase de projeto. Isso permite desenhar peças internas e estruturais dos produtos de acordo com o layout pensado, e não o contrário”, prosseguiu. “Já o design como estratégia é pensado desde o início, na fase de definição das características do produto”. Foi assim que surgiu o desenho final do Stark.

Girardi citou a Apple como uma empresa que utiliza o design como estratégia, e, para ele, seria esse o motivo dos produtos com a marca da maçã serem tão atraentes. “Vejam a nova versão do Mac mini, lançada esta semana, por exemplo. O computador é uma caixa de alumínio, mas uma simples tampa permite acesso às placas de memória para substituição. Nada disso poderia ser projetado por um designer apenas na fase final se a estrutura interna não pudesse ser mexida” (foto abaixo).

DIVULGAÇÃO/APPLE
Mac Mini

Sucesso

O design final do Stark foi tão bem aceito que o projeto foi redefinido em 2004, com a proposta de lançamento comercial do veículo. O modelo foi apresentado nos Salões do Automóvel de 2006 e 2008, e teve aprovação do design acima de 90% nas duas edições do evento. De lá para cá ainda recebeu três prêmios internacionais, entre eles o Industrial Design Excellence Awards (Idea), a maior forma de reconhecimento de atividades do setor no mundo. “A mídia passou a divulgar espontaneamente o produto”. Em 2008, a revista norte-americana BusinessWeek publicou uma matéria na qual lança a pergunta: “Uma SUV brasileiro pode tomar o lugar do Jeep Wrangler?“.

Até hoje, o Stark teve apenas 60 unidades produzidas, mas para 2011, a fabricante anunciou que deve colocar no mercado mais 800, uma média de 66 por mês.