O que um herói de guerra tem a ensinar a homens de negócio

Ex-combatente e prisioneiro na guerra do Vietnã, o consultor Lee Ellis está no Brasil para falar a executivos sobre liderança. Veja o que ele contou a EXAME.com

São Paulo –  Desde criança, Lee Ellis queria ser piloto. Quando foi para a universidade, o jovem norte-americano graduou-se em História, mas acabou se especializando no Air Force ROTC, um treinamento oferecido em instituições de ensino dos Estados Unidos para formar líderes da Força Aérea. Ao se formar, ele recebeu uma “comission”, permissão para entrar para a aeronáutica, e logo se inscreveu para o curso de piloto.

Um ano depois “ganhou suas asas” e se alistou para defender os Estados Unidos na guerra do Vietnã. Era verão de 1967 e Ellis tinha acabado de fazer o treinamento de combate quando foi enviado para o país asiático. Sua missão era atirar bombas do alto para impedir a circulação dos tanques vietnamitas em terra. 

Após 53 missões em território inimigo, o avião de Ellis foi atingido e explodiu. Ele conseguiu se salvar graças ao paraquedas, mas aterrissou bem no meio de um campo de atiradores vietnamitas e foi capturado. Ele tinha apenas 24 anos e era um dos mais jovens soldados em combate.

Durante cinco anos e meio, o coronel da força aérea ficou preso. “Eu chamo a isso de o pior pesadelo pessoal e profissional que já existiu. Mas conhecendo a minha personalidade agora, vejo que estava predestinado a ser combatente e piloto de guerra, porque gosto de desafios e estava apaixonado por voar”, conta. 

Depois que a guerra terminou, Ellis fez carreira como piloto de companhias aéreas. Hoje, é coach e consultor de liderança, além de autor dos livros “Leading with honor” (Liderando com Honra) e “Leading talents, leading teams” (Liderando talentos, liderando times), ainda sem tradução para o português. Ele está no Brasil pela primeira vez e falará para executivos nesta terça-feira em Belo Horizonte e na quinta-feira em Recife. Por telefone, Ellis conversou com EXAME.com e contou como o que aprendeu durante a guerra pode ajudar a administrar um négocio. Veja suas lições:

1 Conhecer a si mesmo

“Você tem que se olhar no espelho e ver que a pessoa que está ali na sua frente é a mesma que está dentro da sua cabeça”. Segundo Ellis, é só conhecendo a si mesmo que alguém consegue aprofundar o seu caráter e confrontar as próprias dúvidas e medos, para conseguir ser um bom líder. “Nossos líderes eram corajosos. Eles foram torturados e continuaram a resistir. Nós queríamos voltar pra casa, mas tinha que ser com honra”, conta.


2 Assumir responsabilidades

Assim como na guerra, em uma empresa, o líder precisa fazer a coisa certa, cumprir o trabalho a que foi designado. “Você não pode dar desculpas, culpar outra pessoa. Você não pode ser uma vítima, precisa ser responsável”.

3 Ser positivo

Segundo Lee Ellis, um líder tem que ser positivo até mesmo nos momentos de crise. “Henry Ford dizia que ‘se você acredita que consegue, ou se acredita que não consegue, você provavalmente está certo”, afirma. Para Ellis, é forma como você acredita que irá te levar ao sucesso ou ao fracasso. “Mas em momentos difíceis, é preciso também confrontar a realidade e enfrentar os problemas”.

4 Saber dar a volta por cima

Tanto no mundo dos negócios quanto no campo de batalha, as pessoas erram e sofrem perdas o tempo todo. Por isso, Ellis diz que é importante que os líderes saibam dar a volta por cima. “É como golfe. Você faz uma jogada ruim, mas haverá outra em seguida. Você precisa estar com sua mente preparada para a próxima. Isso é resiliência.

5 Construir uma cultura

Não é novidade que as maiores companhias do mundo possuem uma sólida cultura empresarial. De acordo com Ellis, no campo de batalha não é diferente. “Quando você se alista para servir, tem que seguir um código de conduta. Você é orientado a voltar para casa com honra, a fazer a coisa certa, a cuidar dos parceiros e do time. Isso é uma cultura muito forte”, afirma. “É pela cultura que as pessoas sabem o que fazer quando estão trabalhando sozinhas”.


6 Comunicar-se sempre

“Aprendi, na guerra, que você precisa se comunicar mais do que acha que é preciso, mais intensamente do que acha que é preciso para que a sua mensagem seja clara e chegue aonde você quer”.

7 Desenvolver o pessoal

Empresa que não investe em desenvolvimento não se destaca. A lógica que existe para um funcionário é a mesma para um soldado. “Nos campos de batalha, mesmo sem TV, livro, revista ou jornal algum, estávamos sempre desenvolvendo nossas mentes”, afirma Ellis. “Eu aprendi vários cálculos no campo. Meu amigo graduado em matemática nos ensinava e escrevíamos com pedaços de telha no chão. Aprendi a falar francês e espanhol só com meus companheiros”. 

8 Cuidar das pessoas

Líderes precisam saber cuidar de sua equipe. O desafio, segundo Ellis, é fazer isso ao mesmo tempo em que entrega resultados, cumprir a missão. “Você também precisa completar seu trabalho, entregar sua metas. Muitas pessoas não tem talento para as duas coisas, uma é natural e a outra precisa ser aprendida”. 

9 Ser criativo

Companhias inovadoras se tornam referência e inovar exige criatividade.  “Quando estávamos em campo, não havia muitas formas de nos comunicar. Então inventamos um código de batidas: batíamos nas paredes e conseguíamos nos entender. Também inventamos um código de mãos. Só de ver as mãos de alguém, já nos comunicávamos rapidamente. Inventar e criar coisas a todo o tempo é muito importante nos negócios e em qualquer organização.