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Investimentos | 23/09/2009 17:36

Quem mais investe em siderurgia no Brasil é a Vale

Mineradora possui 4 grandes projetos siderúrgicos e deve investir mais em aço que CSN, Usiminas ou Gerdau

Giseli Cabrini, EXAME

Complexo Siderúrgico do Atlântico (CSA), no Rio de Janeiro

Complexo Siderúrgico do Atlântico (CSA), no Rio de Janeiro: parceria da Vale com a alemã ThyssenKrupp

Não é exagero dizer que há quase um século o governo tenta incentivar o desenvolvimento da indústria siderúrgica brasileira. Na década de 1920, Arthur Bernardes, que comandava Minas Gerais e depois viria a se tornar presidente da República, já alertava que o "minério só dá uma safra" e que era necessário agregar valor a ele. O sonho de Bernardes se transformou em realidade entre as décadas de 1950 e 1980, quando a indústria siderúrgica brasileira se desenvolveu apoiada em investimentos estatais e na instalação de grandes montadoras no país.

Apesar de terem conseguido construir um dos polos siderúrgicos mais competitivos do mundo, as empresas brasileiras investiram muito pouco na expansão da capacidade nas últimas duas décadas. E o país ficou para trás. A China, líder mundial, produziu 500 milhões de toneladas de aço no ano passado, enquanto o Brasil, nono do ranking, colocou no mercado 33,7 milhões de toneladas - menos de um décimo do país asiático. Paralelamente, a Vale se consolidou como a maior exportadora de minério de ferro do mundo, fornecendo o produto para a China transformá-lo em aço.

Só recentemente o Brasil resolveu retomar os projetos siderúrgicos. O que chama a atenção em todo esse processo é que a empresa que lidera esse movimento não é uma siderúrgica, mas a mineradora Vale. Mesmo assim, a maior empresa privada do Brasil tem sido constantemente criticada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Primeiro por investir demais no exterior. Depois por exportar o minério de ferro para a China, "deixando os buracos" no Brasil. Então por comprar navios de estaleiros chineses, exportando empregos ao país asiático.

A irritação teria começado no final do ano passado, quando, em meio à maior crise financeira mundial das últimas décadas, a Vale demitiu cerca de 1.300 funcionários e cortou o plano de investimentos deste ano de 14 bilhões para 9 bilhões de dólares. Apesar dos rumores de que os ânimos do governo teriam se acalmado nas últimas semanas, o festival de delírios continua. Nesta semana, o ministro Edison Lobão (Minas e Energia), por exemplo, afirmou que a Vale deveria se tornar a maior exportadora de aços laminados do Brasil e concorrer com a ArcelorMittal, a maior siderúrgica do mundo.

Projetos siderúrgicos da Vale já anunciados
Projeto
Local
Sócio
Investimento
Capacidade (mi de toneladas/ano de aço)
Aços Laminados do Pará
Marabá (PA)
não há
US$ 3,3 bi
5
Companhia Siderúrgica de Pecém
São Gonçalo do Amarante (CE)
Dongkuk
US$ 4 bi
6
Companhia Siderúrgica Ubu
Anchieta (ES)
não há
 
US$ 3 bi
5
Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA)
Santa Cruz (RJ)
ThyssenKrupp
 
US$ 6,6 bi
5
Total:
 

 
US$ 16,9 bi
21
Fonte: Vale e analistas

Três fatos, no entanto, comprovam a visão míope do governo em suas críticas à Vale. O mais óbvio é que raras são as grandes empresas que não demitiram ninguém nem cancelaram investimentos em meio à crise. Além disso, a Vale pode criar um mal-estar com seus clientes produtores de aço se investir demais em siderurgia. Por último, a Vale está diretamente envolvida em quatro grandes projetos siderúrgicos no Brasil, que devem consumir investimentos totais - incluindo o de parceiros - que encostam em 17 bilhões de dólares. Em volumes, essas quatro siderúrgicas vão agregar até 21 milhões de toneladas de aço à capacidade brasileira - ou seja, 50,6% de tudo o que pode ser produzido no país hoje (41,5 milhões de toneladas).

O primeiro projeto a ser entregue pela Vale será o do Complexo Siderúrgico do Atlântico (CSA), no Rio de Janeiro. O empreendimento, que tem como sócio o alemã ThyssenKrupp, terá capacidade para produzir 5 milhões de toneladas anuais de aço e vai consumir um investimento total de 6,6 bilhões de dólares. Segundo a Vale, esse é o maior investimento industrial em construção no Brasil e a primeira siderúrgica de grande porte a ser construída no país desde meados da década de 80. A mineradora terá participação de 26,87% no projeto e, em troca, ganhou o direito de ser fornecedora exclusiva de minério de ferro para a CSA. O início da produção está previsto para o próximo ano. (Continua)

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