São Paulo - Dilma Rousseff caminhou pelo campo do Itaquerão, sede do jogo de abertura da Copa do Mundo deste ano em São Paulo, e apertou as mãos do pessoal da construção da Odebrecht, a maior construtora da América Latina.

Eles deram à presidente do Brasil um capacete de operário na cor dourada metálica e se reuniram em volta de um operário que tirou uma selfie grupal.

Um cartaz com o logo da companhia e as palavras “missão cumprida” estava pendurado na arquibancada, embora houvesse guindastes em movimento e o vento tenha arrancado as lonas que ocultavam partes onde a construção não estava terminada.

A somente semanas do começo da Copa, a Odebrecht estava se apressando para completar o estádio depois de incorrer em excessos de custos e da morte de dois de seus operários.

Do outro lado desta cidade de 19 milhões de pessoas, 1.500 manifestantes acabavam de invadir os escritórios da Odebrecht, pintando grafites nas paredes que denunciavam a transferência de dinheiro dos contribuintes para construtoras como a Odebrecht para os estádios da Copa.

“A Odebrecht ganha bilhões com o sangue de operários e o dinheiro do povo”, dizia uma das acusações.

A Odebrecht está ajudando a construir ou expandir quatro estádios da Copa do Mundo, financiados com R$ 1,5 bilhão (US$ 447 milhões) em empréstimos subsidiados do BNDES.

A empresa é uma das maiores contribuintes do Partido dos Trabalhadores de Dilma, relacionamento não ignorado pelos críticos do custo da Copa para os contribuintes.

Empreiteiras

A Odebrecht é a maior das empreiteiras do Brasil que estão aproveitando a primeira Copa disputada no País em 64 anos, financiada pelos contribuintes.

Os protestos coincidem com uma investigação da era da ditadura militar entre 1964 e 1985. Conhecida no Brasil como a Comissão da Verdade, o inquérito esclareceu os laços estreitos que o regime tinha com as construtoras do país, incluindo a Odebrecht, laços que lhes ajudaram a criar suas fortunas.

A Odebrecht, que também integra o consórcio que administra o estádio Maracanã no Rio de Janeiro, ampliou sua influência depois da ditadura cultivando relações com as maiores empresas estatais do Brasil, segundo Pedro Campos, professor de História da Universidade Federal Rural de Rio de Janeiro.

A receita bruta da Odebrecht cresceu 16 por cento no ano passado para R$ 96,9 bilhões, tornando-se a maior empresa de capital fechado na América Latina, com 175.000 funcionários e mais de US$ 30 bilhões em obras na carteira.

A companhia completou dúzias de projetos em mais 26 países, incluindo estradas em Angola e a expansão do aeroporto de Miami.

Rendimento de contribuições

No Brasil, a Odebrecht está trabalhando na maior represa do mundo em construção na Amazônia, levando depósitos de produção e descarregando torres de perfuração para a exploração de petróleo em águas profundas e, em sua última incursão, mísseis e submarinhos para as Forças Armadas.

Embora o tamanho da Odebrecht a tenha ajudado a obter contratos, pesquisas de professores de Ciência Política como Daniel Hidalgo, do MIT, mostram que as finanças de campanhas também foram um fator.

Contribuições de companhias de obras públicas, incluindo a Odebrecht, nos anos eleitorais de 2002, 2006 e 2010 mostraram que cada real doado para as campanhas dos legisladores do PT rendeu entre R$ 14 e R$ 19 em contratos em menos de três anos, conforme um relatório do qual Hidalgo é um dos autores.

O preço do Itaquerão de São Paulo, que sediará o Corinthians, subiu para quase R$ 1 bilhão durante dois anos de confronto entre o clube e a Odebrecht pelas garantias.

O BNDES liberou o empréstimo de R$ 400 milhões em março, depois que se acumularam R$ 100 milhões de juros em empréstimos-ponte.

Em novembro, a construção do estádio foi adiada em dois meses depois que um guindaste de 1.500 toneladas colapsou enquanto levantava a última peça do teto do estádio.

Dois operários morreram no acidente. Um terceiro operário que morreu em março ao cair enquanto instalava assentos temporários trabalhava para outro empreiteiro. A Odebrecht negou ter responsabilidade nas mortes.

“A Odebrecht promove suas contribuições como parte de uma visão democrática e respeitando a lei”, disse Sergio Bourroul, porta-voz da Odebrecht. “Sem adotar uma posição ou ideologia sectária”.

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