Investidores em bonds da maior produtora de carne do mundo estão sendo pegos de surpresa – mais uma vez.

Os bonds da JBS totalizaram perdas de US$ 345 milhões em valor de mercado desde o fechamento de segunda-feira, um dia antes de o Ministério Público Federal em São Paulo acusar Joesley Batista, presidente do conselho de administração da JBS, de crimes contra o sistema financeiro envolvendo uma série de empréstimos concedidos a empresas relacionadas ao grupo da empresa.

Em dezembro, os títulos despencaram depois de o Tribunal de Contas da União ter encontrado provas de que a JBS recebeu “tratamento especial” do BNDES e ampliou a investigação.

A JBS, sua controladora e Batista negaram qualquer irregularidade.

Na maior parte de 2015, a produtora de carne se destacou por ter um dos melhores desempenhos em um mercado de bonds que foi abalado pela investigação de corrupção na Petrobras, ao se beneficiar da desvalorização do real e ao entregar lucro recorde.

Embora a JBS não tenha sido implicada diretamente na investigação mais recente, muitos investidores temem que as investigações possam se alastrar e acabem atingindo a empresa, disse Carlos Gribel, diretor de renda fixa da Andbanc Brokerage.

“O principal temor é que as investigações possam se espalhar por todo o grupo e envolvam aspectos ainda não conhecidos”, disse ele, de Miami. “Isso já aconteceu com outros nomes locais de grande porte”.

Batista foi uma das nove pessoas acusadas de irregularidades entre empresas do conglomerado que é dono da JBS e no Banco Rural, de acordo com um comunicado do MPF-SP. Ele é um dos cinco irmãos Batista, todos com igual participação na matriz da JBS – a J&F Investimentos – e por meio da qual eles e outros membros da família controlam a produtora de carne.

O caso é centrado em R$ 80 milhões (US$ 20 milhões) em empréstimos a duas empresas controladas pela J&F e recebidos em 2011 do Banco Rural. A unidade bancária do grupo, Banco Original do Agronegócio, emprestou posteriormente o mesmo montante a uma empresa que é parte do conglomerado dono do Banco Rural, liquidado pelo Banco Central em 2013. Os promotores descreveram a prática como violação das leis que proíbem que instituições financeiras façam empréstimos a empresas que pertencem a um mesmo grupo empresarial.

Em um fato relevante de quinta-feira, assinado por Batista, a J&F disse que provará que não cometeu nenhuma irregularidade em relação aos empréstimos. A JBS disse que suas transações com o BNDES também cumpriram as normas do Banco Central e dos agentes reguladores do mercado de capitais.

O montante de US$ 1 bilhão em bonds da JBS com vencimento em 2020 perdeu 16,4 por cento desde o dia 25 de novembro, quando o tribunal de auditoria disse em documentos enviados por e-mail ter encontrado provas de que o BNDES perdeu R$ 847,7 milhões em transações para ajudar a JBS a comprar empresas nos EUA.

Em um comunicado do dia 26 de novembro, o BNDES, com sede no Rio de Janeiro, negou irregularidades e disse que seus investimentos na JBS foram lucrativos.

Esses mesmos bonds caíram para a mínima recorde de 88,45 centavos de dólar na sexta-feira às 9h58 em Nova York e fizeram com que os yields subissem para 10,93 por cento.

“A acusação que vemos agora é, em si, muito pequena, mas o problema não é só esse”, disse Klaus Spielkamp, diretor de renda fixa da corretora Bulltick, em Miami. “O temor é sobre o que poderia surgir depois. Então as pessoas estão vendendo agora”.

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