A aposta da Gucci em colocar Alessandro Michele, um designer de acessórios pouco conhecido, no comando de sua reviravolta criativa rendeu-lhe elogios nas passarelas.

Mas os investidores ainda estão esperando para ver um benefício.

O foco de Michele no estilo vintage e no logotipo com o G duplo da marca foram bem recebidos pelas revistas de moda, mas as vendas da companhia avaliada em US$ 3,8 bilhões não saíram do lugar.

A Gucci é responsável por quase dois terços do lucro da companhia controladora Kering SA e praticamente não cresceu nos últimos três anos.

“Os investidores querem saber quando esse novo impulso criativo se traduzirá em resultados financeiros tangíveis”, disse Mario Ortelli, analista da Sanford C. Bernstein.

“A reviravolta da Gucci continua sendo fundamental para o cenário de investimento da Kering”.

A parisiense Kering precisa que essa reviravolta funcione, embora o momento seja extremamente desafiador. As consequências dos ataques terroristas ocorridos em Paris em novembro pioraram um ano que já vinha sendo difícil para a Gucci e outras empresas de luxo porque a demanda desacelerou em quase todas as regiões, liderada por uma queda na Ásia.

O mercado de US$ 272 bilhões nunca esteve tão instável desde 2008, de acordo com o Deutsche Bank, que reduziu no mês passado as estimativas de crescimento para o quarto trimestre e para 2016.

Evidências de como a coleção de estreia de Michele, que chegou a algumas lojas em setembro, se saiu com os consumidores se tornarão visíveis no dia 18 de fevereiro, quando a Kering informará seus lucros. No fim deste mês, Michele, 43, revelará suas últimas criações de moda masculina.

A Kering promoveu Michele a diretor criativo da Gucci em janeiro do ano passado para recuperar o crescimento da marca existente há 95 anos. Desde sua primeira coleção, com saias plissadas de couro vermelho e blusas finas com laços, até a sua perspectiva inspirada na década de 1970 para a coleção de primavera-verão de 2016, Michele conseguiu que a marca desse o que falar novamente.

Ele ganhou o prêmio internacional de melhor estilista no British Fashion Awards em novembro.

Há sinais de que suas iniciativas estejam reacendendo a demanda, pois a Kering mencionou um crescimento de dois dígitos de bolsas como a Dionysus, de US$ 2.500, e a Linea A, de US$ 1.390. Ortelli, o analista da Bernstein, espera que Michele dê um impulso nas vendas até meados de 2016.

“Estamos vendo que muitos clientes novos, muitos consumidores novos – diferentes, mais jovens, mais vanguardistas – estão comprando a coleção, mas não estamos perdendo os clientes anteriores”, disse o CEO da Gucci, Marco Bizzarri, ao site The Business of Fashion em novembro.

‘Nenhuma prova’

Por mais estimulantes que sejam os comentários de Bizzarri, “ainda não há nenhuma prova de que a reviravolta da Gucci será um sucesso”, disse Hermine de Bentzmann, analista da Raymond James. Ela projeta que as vendas da Gucci tenham subido 1,1 por cento no último trimestre e que crescerão 3 por cento neste ano, excluindo-se as oscilações cambiais.

Provavelmente será necessário esperar até o segundo semestre para saber se Michele cumpriu as expectativas, de acordo com Antoine Belge, analista do HSBC em Paris. Marcas como Louis Vuitton e Saint Laurent, esta última pertencente à Kering, levaram cerca de 18 meses para aumentar as vendas após renovações semelhantes.

A coleção completa criada por Michele só chegará às lojas no terceiro trimestre, prevê John Guy, analista do MainFirst Bank AG. A renovação da rede de mais de 500 lojas da marca – a segunda maior entre fabricantes de produtos de couro, depois da Salvatore Ferragamo SpA – vai levar até quatro anos, disse Bizzarri.

Mesmo assim, “se os números forem bons nos próximos trimestres, algumas pessoas dirão que houve uma reviravolta”, disse Belge.

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