São Paulo - O produto mais vendável do México, hoje, não são as praias de Cancún, as ruínas astecas ou os quadros de Frida Kahlo - é Carlos Slim Helú, o homem mais rico do mundo.

Nos últimos 12 meses, a fortuna de Slim cresceu 20,5 bilhões de dólares.  Chegou a 74 bilhões,  o que o levou ao topo do ranking dos mais ricos da revista Forbes pela segunda vez consecutiva.

Qual é a mágica de Slim?  Dono das telecomunicações no México, acionista do jornal New York Times e da loja de departamento de luxo Saks Fifth Avenue, Slim é um bilionário um tanto atípico.

Não tem avião particular, não circula com esposas - troféu ( é viúvo há 12 anos) e leva a vida com sobriedade, cercado por seis filhos e quase vinte netos, segundo seu biógrafo, José Martinez.

Não é que ele viva como um monge franciscano - nada disso.  Slim aprecia um bom charuto Cohiba, viaja para os Estados Unidos para assistir a partidas do Yankee (é um sério fã de beisebol) e gasta mais do que um punhado de pesos com sua coleçao de arte.

Mas seu traço mais marcante é outro . A vida inteira ele praticou a arte de comprar barato - principalmente empresas em situações adversas.  O controle de custo na gestão dos negócios complementa essa qualidade.

Nas últimas décadas Slim carrega também acusações de monopolista - de forçar demais para cima as tarifas da telefonia celular no México.  Seja como for, em penetração de celular o México está atrás do Brasil, da Argentina e do Chile.

Este mês, Slim mostra sua face mais generosa, com a inaguração do monumental museu Soumaya, na Cidade do México, que reúne 66 mil peças de arte e será aberto a todo mundo gratuitamente, sempre.  Soumaya era o nome de sua mulher, e é também o nome de uma de suas três filhas.

As más línguas dizem que o Soumaya é um  museu grande, mas não um grande museu - Slim teria comprado as peças quando as considerava baratas, não movido por seu valor artístico. 

Está aí um traço de personalidade que pode vir do próprio DNA de Slim, por parte de pai, um imigrante libanês que fez a vida ao adquirir muitas lojas a preços arrasadores nos tempos instáveis da Revolução Mexicana.

Os partidários do museu defendem seu acervo,  é claro, dizendo que ali estão ótimos trabalhos de mestres europeus. O Pensador, de Rodin, por exemplo, está lá.  O catálogo do Soumaya  exibe também Da Vinci, Picasso, Dali, Toulouse-Lautrec, Renoir. E claro, como não poderia deixar de ser, o muralista mexicano Diego Rivera.  

O projeto do museu é muito indicativo da maneira de operar de Slim.  Os trabalhos de Rodin, que chegam a cem, foram comprados nos anos 80, quando estavam subavaliados.  Hoje valem muito mais.

O prédio foi desenhado pelo arquiteto Fernando Romero, genro do empresário (todos os seis filhos de Slim, mais alguns sobrinhos, trabalham nos seus negócios; os três homens na gestão das empresas, as três mulheres mais concentradas em filantropia).

Para erguer o prédio foram desembolsados 70 milhões de dólares - uma quantia que faz diferença em qualquer orçamento, mas que foi gasta da maneira mais parcimoniosa possível.

O genro queria usar mármore, mas não conseguiu.  Por sugestão de Slim, as paredes foram recobertas com alumínio - vindo de suas próprias fábricas -  da mesma forma que as colunas de aço saíram delas.

O resultado é um edifício de formas arrojadas - não chega a ser um Guggenheim de Bilbao, mas se enquadra bem na arquitetura contemporânea. 

O museu fica num complexo que inclui torres de escritórios e lojas de várias marcas  de Slim, da Sanborns, uma mistura de Americanas, livraria e restaurante,  à iShop, que vende produtos da Apple.  Assim, enquanto faz o bem com arte, Slim vai faturar mais.

Nas contas da Forbes,  62% da fortuna dele vem da América Móvil, o império de telefonia celular que reúne 225 milhões de assinantes na América Latina inteira.

O ponto alto disso fica  no México, é claro, onde Slim domina cerca de 70% do mercado de celulares e aproximadamente 80% da telefonia fixa. As duas operações, antes separadas, foram reunidas sob o chapéu da América Móvil .

No Brasil, Slim é conhecido justamente como magnata das telecomunicações - nem poderia ser de outra forma, já que ele é dono da Claro e da Embratel e de uma boa fatia da NET.

Com a NET, aliás, ele consegue fazer por aqui o que não consegue no México: oferecer telefone, banda larga e TV num só pacote aos consumidores.  

No México, ele ainda não conseguiu convencer as autoridades reguladoras e os concorrentes de que um pacote assim não representa perigo à competição. Está brigando na Justiça justamente por causa disso.

Ele e dois colegas bilionários, seus principais rivais, Emilio Azcarraga, do grupo Televisa, líder em TV, e Ricardo Salinas, principal acionista da TV Azteca, com incursões em telefonia móvel, acusam-se mutuamente de monopólio ou duopólio.

Mas a fortuna de Slim não se restringe a telecom, é claro.  Ele é um empresário com braços espalhados por toda parte.  Uma das piadas correntes sobre Slim, diz o WSJ, é que ele é dono de todos os cactos no México.

Com o conglomerado Carso, Slim tem banco (Inbursa), mineradora (Mineras Frisco), atua no ramo imobiliário (Inmuebles Carso) , de serviços de perfuração (Bronco Dillings) e começa a colocar o pé em petróleo, através de participação na Tabasco Oil, empresa mexicana que explora petróleo na Colômbia. No final do ano passado, comprou uma fatia da BlackRock, a maior gestora de fundos do mundo.

Seus investimentos mais badalados e discutidos estão nos Estados Unidos - são o jornal New York Times e a rede de lojas Saks.  Do NYT,  Slim tem uma fatia de quase 7%. Ele tirou o jornal do pior aperto de sua história, no auge da crise financeira, em 2009, com um empréstimo de 250 milhões de dólares a juros de 14%. Da Saks, Slim tem perto de 16% - é o seu segundo maior investidor.

Se dependesse dele, Slim seria também um grande investidor da Telecom Italia, mas numa queda de braço com a Telefónica, levou a pior.

Aos 71 anos, Slim está longe de ser um self-made man que saiu do nada.  Mas, com  um canudo de engenheiro da Universidade Autônoma do México na mão, ele se fez um bilionário, num trabalho que começou muito cedo. Nas lendas urbanas que cercam sua figura diz-se que ele já vendia doces a amigos e parentes desde criança, e que aos 15 anos colecionava ações do Banco Nacional do México.

Nos anos 80, quando a ditadura mexicana do PRI nacionalizou bancos e espalhou uma onda de rumores e insegurança pelo país, Slim fez como o pai: comprou barato várias empresas, e começou a ganhar estatura como empresário.

Em 1990, num processo inverso, quando as telecomunicações do México foram privatizadas, Slim e seu consórcio ganharam o monopólio da telefonia no país por seis anos, pagando por isso 1,7 bilhão de dólares. Daí em diante, nada pode detê-lo.

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