São Paulo/Rio de Janeiro/Nova York - Tentativas de salvar a petroleira de Eike Batista, carro-chefe do empresário e principal responsável pela derrocada de seu império industrial, têm sido prejudicadas por conflitos internos e decisões imprevisíveis do magnata brasileiro, disseram fontes com conhecimento direto da situação à Reuters.

A dificuldade de entender Eike, que há menos de 18 meses possuía a sétima maior fortuna do mundo, e sinais confusos de consultores e gerentes sobre suas empresas têm interrompido as tentativas de renegociar cerca de 5 bilhões de dólares em títulos e dívidas com bancos da OGX Petróleo e Gás Participações SA. Enquanto isso, a empresa está ficando sem dinheiro para manter suas operações em andamento.

Mesmo que novos investidores se interessem em investir em outras empresas do Grupo EBX, conglomerado de energia, mineração e logística de Eike, os conflitos e atrasos na OGX fazem com que o pedido de recuperação judicial, amplamente esperado pelos investidores, corra o risco de se tornar um caso confuso ao invés de abrir os caminhos para uma reestruturação suave, disseram as fontes.

Na pior das hipóteses, caso os atrasos continuem, a OGX pode até mesmo enfrentar uma liquidação, o que deixaria muito pouco para os credores, disse uma das fontes, embora este cenário seja considerado improvável.

Um pedido de recuperação judicial da OGX seria o maior da história de uma empresa latino-americana, segundo dados da Thomson Reuters. Ele seria não só um indicativo do tamanho da queda da estrela de Eike, mas também forneceria um duro teste à lei de falências do Brasil, criada há oito anos, sobre se ela oferece a proteção adequada aos credores.

O dramático declínio de Eike tornou-se um símbolo dos próprios problemas econômicos brasileiros após o fim de uma década de forte crescimento que tornou o Brasil uma das economias emergentes mais quentes do mundo. Caso os investidores estrangeiros não sintam que foram tratados de forma justa durante o processo de reestruturação, eles podem ficar menos dispostos a investir em outras empresas brasileiras.

Os atrasos na reestruturação deixaram a OGX sem dinheiro e correndo risco ter suas concessões de petróleo, principais ativos da empresa, revogadas pelo governo brasileiro. Embora a recuperação judicial não provoque um cancelamento automático das concessões, a OGX precisa encontrar dinheiro rapidamente para atender às exigências de gastos mínimos de capital do governo, disse a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em 17 de outubro.

O período de 30 dias que a OGX tem para depositar 44,5 milhões de dólares em pagamentos de juros aos detentores de títulos termina na quinta-feira.

A OGX vem tentando convencer os detentores de 3,6 bilhões de dólares em títulos a convertê-los em ações e a injetar mais 150 milhões na empresa para que ela não tenha que encerrar suas operações. A OGX ainda enfrentará um pagamento de 100 milhões de dólares em juros aos detentores de títulos em dezembro.

Construir um consenso entre credores, acionistas e o próprio Eike é essencial para que a OGX possa emitir um pedido de recuperação judicial, e em seguida avançar rapidamente com o processo de reestruturação pelos tribunais, evitando um calote da OGX em seus acordos contratuais com a ANP, disseram duas das fontes.

"A proteção judicial é a única opção no momento", disse uma das fontes.

Os detentores da dívida da OGX incluem a Pacific Investment Management Co, administradora do maior fundo de títulos do mundo, e a BlackRock Inc, embora não esteja claro o volume que ela detém atualmente. Ambas Pimco e Blackrock declinaram comentar.

No acumulado do ano, as ações da OGX caíram mais de 90 por cento, reflexo de uma produção menor que o esperado em seu primeiro campo marítimo, e com a empresa utilizando suas reservas de dinheiro com gastos para preparar o início da produção de petróleo em seus outros campos.

A derrocada da OGX desencadeou uma reação em cadeia entre as outras empresas listadas de Eike, forçando-o a trazer novos investidores e diluir suas próprias participações, estando incapaz de usar suas ações restantes como garantia para empréstimos necessários às empresas.

Em entrevistas com seis fontes com conhecimento sobre as discussões de reestruturação, uma chamou as negociações da OGX com os credores "um circo" e outra as descreveu como "uma bagunça". Três disseram que o estilo temperamental de Eike tornou as coisas mais difíceis para todos os envolvidos e exacerbou os conflitos entre um imbróglio de consultores.

Os conselheiros reunidos por Eike incluem custosos homens de limpeza corporativa, experientes negociadores e até o pai de Eike, de 89 anos de idade, ex-ministro de Minas e Energia e ex-presidente-executivo da Vale.

"Cada dia é uma nova aventura", disse uma das fontes. "Você não sabe o que ele está pensando", acrescentou a fonte referindo-se a Eike.

Aguentando

Eike declinou repetidamente pedidos de entrevista por meio da EBX. Seu advogado e principal assessor não respondeu a perguntas. Uma vez destaque nas páginas sociais do Brasil, o ex-piloto de barcos potentes de 56 anos de idade desapareceu dos olhos do público desde o início do desmantelamento da EBX.

Ambas OGX e OSX Brasil SA, empresa irmã, do setor de construção naval, recusaram-se a responder a uma série de perguntas enviadas por e-mail.

Algumas pessoas dizem que Eike está trabalhando duro para tentar manter suas empresas operacionais e que ele está buscando ativamente novos financiamentos.

R. Blair Thomas, presidente-executivo da EIG Global Energy Partners LLC, empresa norte-americana que concordou em agosto em investir 1,3 bilhão de reais (596 milhões dólares) na LLX Logística SA, recentemente jantou com Eike no Rio de Janeiro e disse tê-lo encontrado de bom humor.

"Embora ainda haja trabalho a ser feito, ele trouxe com sucesso investidores internacionais para três de suas empresas", disse Thomas. "Há um reconhecimento geral no mercado de que alguns dos ativos eram bastante bons." De fato, Eike, conhecido como um otimista inabalável, prometeu uma volta por cima em um editorial publicado por um jornal brasileiro em 9 de julho.

"Ao longo dos últimos meses, tenho visto o meu obituário empresarial nas páginas de blogs, jornais e revistas. Eu me vejo longe da imagem de um Eike aposentado", escreveu ele.

Embora, de acordo com duas das fontes, Eike provavelmente terá que ceder a maior parte ou até toda sua participação na OGX aos detentores de títulos, ele ainda detém 27 por cento do capital da Eneva SA, uma produtora de energia fundada por ele e anteriormente conhecida como MPX Energia SA; o controle acionário da mineradora MMX Mineração e Metálicos SA após vender suas operações portuárias; e uma participação de 21 por cento na LLX, proprietária do gigantesco complexo do Porto do Açu, no norte do Rio de Janeiro.

Executivos Demitidos

A situação da OGX também tem atrasado um plano da Petronas , petrolífera estatal da Malásia, de investir 850 milhões de dólares na empresa brasileira e complicado esforços para obter novos financiamentos de credores e bancos. A Petronas aguarda a conclusão da reestruturação da dívida da OGX para dar prosseguimento ao negócio.

Um grande exemplo das perturbações decorrentes das bruscas mudanças de direção de Eike envolve as negociações com os credores da OGX. No dia 20 de setembro, Eike abruptamente demitiu o diretor financeiro da OGX, Roberto Monteiro --principal elo de ligação entre a empresa e os credores. As negociações foram abruptamente paralisadas.

Logo após, conselheiros e o presidente-executivo da OGX, Luiz Carneiro, convenceram Eike a trazer o ex-diretor financeiro de volta --desta vez como consultor. Mas, em 15 de outubro, Eike demitiu Monteiro novamente, e em seguida também despediu o presidente-executivo e o diretor de assuntos jurídicos.

O confronto com a gestão da OGX começou quando Carneiro anunciou no início de setembro que a empresa iria exercer uma opção de venda que obrigaria Eike a comprar 1 bilhão de dólares em ações a preços acima do mercado. Eike está contestando judicialmente a medida.

Percebendo que os acionistas minoritários da empresa planejavam processar Eike e os executivos da OGX, Carneiro sentiu que não tinha escolha senão exercer a opção, forçando seus interesses a divergirem dos de Eike, disse uma das fontes. Carneiro e Monteiro não foram encontrados para comentar o assunto.

"Tudo o que Eike quer é se livrar dessa opção de venda", disse uma das fontes. "Quase todas as partes das dívidas em cada uma dessas empresas é pessoalmente garantida por ele." Duas das fontes disseram que a demissão dos executivos ocorreu após um "novo investidor" não identificado ter prometido dinheiro para a OGX caso uma nova gestão fosse contratada.

Mais Confusão

Em outro sinal de confusão, três reuniões de conselho da OSX, empresa de construção naval de Eike, foram canceladas desde a nomeação dos novos diretores, em 11 de setembro. A OSX depende da OGX para toda sua receita.

E duas das fontes disseram que a empresa de construção naval provavelmente irá entrar com um pedido de recuperação ao mesmo tempo em que a OGX, ou pouco depois.

A falta de reuniões tem impedido que o conselho revise ou oriente o trabalho do presidente-executivo da OSX, Marcelo Gomes, que foi nomeado em 23 de agosto e que desde então tem estado ocupado tentando vender os navios e outros ativos da OSX. Gomes não foi encontrado para comentar o assunto.

Um dos grandes problemas nas negociações de reestruturação tem sido o número de consultores diferentes trabalhando para Eike e suas empresas, disseram três fontes.

O Grupo BTG Pactual SA, do banqueiro de investimentos André Esteves, esteve fortemente envolvido no lado consultivo, mas suas primeiras tentativas de salvar as empresas de Eike se concentraram nas empresas MMX, LLX e ex-MPX.

O BTG Pactual, que declinou comentar, está "na fase final" de seu mandato de assessoria financeira ao Grupo EBX, disse à Reuters uma fonte com conhecimento da situação.

Com o BTG Pactual se focando em tais empresas ao invés da OGX e da OSX, Eike e seus gerentes contrataram mais três empresas de consultoria para lidar com os problemas da petroleira e da construtora naval. Mas os conselheiros nem sempre tinham os mesmos interesses, e sua incapacidade de trabalhar em sintonia contribuiu para causar os confrontos dos últimos meses, disseram as fontes.

As três consultorias financeiras são o Blackstone Group LP, a Lazard Ltd e a Angra Partners, empresa de consultoria e aquisições com sede no Rio de Janeiro. A Angra ocupou o papel mais influente na reestruturação da dívida da OGX, acrescentou uma fonte. As três empresas se recusaram a comentar.

A saída de Carneiro reforçou a influência da Angra, liderada pelo importante negociador Ricardo Knoepfelmacher, disseram duas das fontes. Knoepfelmacher, conhecido no Brasil como "Ricardo K", tentou orientar a OGX e a construtora naval OSX no sentido de uma proteção judicial a fim de salvá-las.

Entretanto, enquanto negociadores se amontoam em salas de reuniões no Rio de Janeiro e Nova York, os funcionários da OGX estão literalmente à deriva, usando o que duas das fontes disseram que era o pouco dinheiro que a empresa deixou em um último esforço para ligar o campo marítimo de Tubarão Martelo a uma plataforma da OSX, esperando que o campo possa começar a produzir dentro de semanas.

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