São Paulo - Em uma escola de samba, muita gente passa dia e noite trabalhando com afinco durante meses em troca apenas de ter o prazer de representá-la em um desfile de carnaval. Ao estudar esse comportamento, o professor da FIA e doutor pela Universidade de Cambridge, Alfredo Behrens, percebeu que companhias que atuam no Brasil - especialmente as multinacionais - têm muito o que aprender com os foliões. 

"Empresas estrangeiras têm uma linha de pensamento muito individualista e competitiva que não é adequada para um povo que está acostumado a colaborar, como o brasileiro. Elas não estão em sintonia com a cultura nacional e, por isso,  há um alto turnover e os funcionários às vezes não rendem o quanto deveriam", diz Behrens. 

"Em muitas companhias, por exemplo, os funcionários pedem licença médica sem precisar, chegam atrasados e saem mais cedo. Nas escolas de samba, o pessoal trabalha depois do expediente, até mesmo doente, e consegue entregar um produto inigualável mundialmente", completa o professor.

Após fazer essa relação, Behrens começou a preparar um curso online, em inglês, que mostra os bastidores de escolas de samba para treinar funcionários estrangeiros que trabalham e virão trabalhar no Brasil, ou que têm brasileiros em suas equipes. Para o projeto, ele entrevistou pessoas de todas as hierarquias das escolas Mocidade Alegre, de São Paulo, e Grande Rio, do Rio de Janeiro. 

Veja três lições que gestores de empresas podem aprender com uma escola de samba:

1 Recrutar por afinidade, não por competência

O método de seleção por currículo e entrevistas, na opinião de Behrens, poderia muito bem ser substituído por testes de afinidade. Ele diz que, muito do engajamento que os foliões têm com suas escolas se deve ao fato de essas equipes serem formadas de acordo com a região geográfica e idenficação.

 

"Cinquenta por cento das pessoas que integram uma escola de samba são do morro em que ela fica localizada e os outros 50% participam porque foram convidados. Então, os valores são assegurados por afinidade, e não por competência", diz o professor. Porém, isso não quer dizer que as pessoas não sejam ou não possam se tornar competentes. "Nada impede que um brasileiro inicialmente menos competente que outro escolhido em processo seletivo se torne melhor com o tempo porque se dedica, veste a camisa". 

2 Avaliar desempenho o tempo todo

Segundo Behrens, quando o feedback é constante, as pessoas são muito mais produtivas. "Nas empresas, geralmente isso é feito de duas a três vezes por ano para mostrar ao funcionário onde é que ele errou. Mas como é esporádico, as pessoas se esquecem e perdem a dimensão da importância do erro no momento em que ele aconteceu", diz o professor. "Já nas escolas de samba, esse retorno é feito na hora e muitas vezes no grito. E niguém se ofende porque todos vestem a camiseta". 

3 Ter uma grande proximidade com a equipe

Para Behrens, a forma como agem os líderes de grande parte das empresas que atuam no país está muito distante da que os brasileiros gostariam. "Em uma escola de samba, o líder é referência para tudo. As pessoas contam com ele para resolver problemas como uma dor de dente, por exemplo", explica. "Em uma empresa multinacional, por outro lado, o gestor não tem autonomia para processos simples como trocar o ar condicionado de uma sala, por exemplo, porque tudo é muito hierarquizado. Assim, o funcionário não sente que ele oferece proteção, que é o que o brasileiro busca". 

Sobre o curso

O curso será ministrado em uma plataforma online e terá 10 módulos com vídeos de cerca de 18 minutos, acompanhados de leituras em inglês. A formação deverá custar a cada aluno cerca de 500 dólares. No site indiegogo, o professor recolhe doações para finalizar o projeto e é possível encontrar uma prévia do que será o curso. O material deve estar pronto até fevereiro do ano que vem.