Montadoras: a solução é o aeroporto

Não é novidade que o mercado de veículos sente na pele os efeitos da retração econômica do país. Depois de sofrer queda de 25% nas vendas em 2015, o setor acumula retração de 28% nos primeiros quatro meses de 2016. A perspectiva da chegada de um novo governo até anima o mercado, mas as boas notícias não virão do mercado interno por um bom tempo — as montadoras já dão 2016 como caso perdido. A solução é fazer as malas. As exportações cresceram 24% no quadrimestre, na comparação anual, e chegaram a 136.400 veículos.

“Os mercados mais procurados pelas fabricantes instaladas no Brasil estão no Oriente Médio e na África, uma vez que a América Latina também enfrenta dificuldades e os Estados Unidos e a Europa já possuem as próprias unidades fabris”, diz Francisco Bergamotto, da consultoria André Beer.

Maior exportadora de caminhões e ônibus do país, a Scania tem comprovado essa teoria na prática. Em 2015, a companhia com fábrica em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, exportou 7.400 ônibus e caminhões — um total de 756 milhões de dólares. Para 2016, a meta é alcançar 1 bilhão de dólares. Tradicionalmente, a montadora exporta de 40% a 60% de sua produção. Em 2016, a meta é exportar 70%.

A crise interna forçou a Scania a buscar novos países. Vinte e um mercados estão na lista da companhia, com destaque para países do Oriente Médio. “O fim das sanções ao Irã, por exemplo, abriu um grande mercado, com uma demanda reprimida que deve durar muitos anos”, diz Fábio Castello, vice-presidente de logística da montadora. Cada veículo demora, em média, 40 dias para chegar ao Irã e muitas vezes precisa ser transportado em mais de um navio. Apesar dos altos custos logísticos e da demora na entrega, o executivo garante que o negócio vale a pena. “Isso é o que tem nos ajudado a manter a capacidade ociosa em níveis aceitáveis”, diz Castello.

Além de vender para oito países latino-americanos, a unidade brasileira está exportando para destinos como Filipinas, Malásia, Austrália, Quênia e Rússia. “Temos nove fábricas no mundo e produzimos exatamente os mesmos produtos. Por isso, quando um país não vai bem, temos mobilidade para redirecionar as exportações”, afirma Castello. Para aumentar as exportações e reduzir a queda nas vendas no mercado interno, a unidade brasileira investiu para acelerar a fabricação de veículos com motor Euro 6 no Brasil, tecnologia necessária para mercados como Estados Unidos, Europa e um número crescente de países emergentes.

A Volkswagen, maior exportadora do setor, com 30% do total de embarques, também aposta nas vendas externas como alternativa ao mercado doméstico. Segundo o vice-presidente de vendas e marketing da Volkswagen do Brasil, Jorge Portugal, cerca de 30% da produção da montadora deve ultrapassar as fronteiras em 2016. “O Gol é nosso veículo mais exportado e o Up! é o que mais cresce percentualmente. Nossa estratégia é continuar reforçando as exportações para atenuar a queda nas vendas no mercado brasileiro”, diz.

Assim como as concorrentes, a companhia alemã mira mercados pouco usuais. “A Jamaica é nosso mercado conquistado mais recentemente”, diz. Porém, segundo o executivo, entraves comerciais dificultam que as exportações deslanchem. “Temos problemas como a instabilidade cambial, o alto custo logístico e as diferentes legislações de emissões e segurança nos países da América Latina”, afirma.

Esses entraves são pauta da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) há alguns anos. No ano passado, 17% da produção nacional seguiu para outros países. De acordo com a entidade, esse índice poderia facilmente chegar a 30%— o que ampliaria a capacidade produtiva do país. O problema é que, para isso, uma série de medidas precisa ser aprovada pelo governo federal para reduzir o famoso custo Brasil. “Vivemos um momento extremamente favorável em razão do câmbio e precisamos aproveitar essa oportunidade”, diz Antonio Megale, presidente da Anfavea. A corrida agora é para colocar a pauta na agenda do possível novo governo. E, claro, torcer para que o mercado interno comece a dar sinais de melhora.

(Michele Loureiro)