Mais que regras, é preciso ver o lado humano do compliance

Especialistas afirmam que treinamento e comunicação são essenciais para desenvolver cultura de integridade dentro das organizações

A credibilidade e a reputação de uma organização são também reflexo direto da atuação dos seus colaboradores. Mais do que ter políticas de compliance alinhadas aos objetivos estratégicos, as companhias devem centrar seus esforços no aspecto humano, já que o desenvolvimento da integridade nas práticas de negócios está mais ligado às mudanças comportamentais do que às diretrizes e orientações corporativas de ética e conformidade.

Os esforços de capacitação e comunicação podem envolver treinamentos, campanhas, fóruns, vídeos e formação de agentes multiplicadores para identificar, tratar e comunicar situações de risco. As estratégias variam de acordo com o perfil da empresa, mas os especialistas são unânimes: engajamento é essencial para uma cultura de integridade dentro das organizações.

“To comply”

João Elek e Aloisio Kukolj (Petrobras/Estúdio ABC)

O termo compliance tem origem no verbo inglês to comply, que significa agir de acordo com uma regra. Ou seja, estar em “compliance” é estar em conformidade com leis e regulamentos externos e internos. Ágatha Camargo, professora e especialista no tema, explica: “As motivações da empresa têm que ser claras. O colaborador precisa conhecê-las senão vira mera regra. Assim que a regra vira cultura, a conversa provoca reflexão e a cultura avança”.

Esse caminho de diálogo permanente é o que tem buscado a CPFL Energia para engajar seu público interno e externo nos temas de compliance. A empresa atua na prevenção e aposta em duas frentes: estratégias diversas de comunicação e formação de agentes multiplicadores. Hélio Ito, gerente de auditoria interna e riscos corporativos da CPFL, explica que a companhia faz um mapeamento das pessoas mais expostas e prepara um treinamento presencial para elas. “Todo colaborador também passa por um e-learning no momento em que entra na empresa”, esclarece.

Aloisio Kukolj, gerente de excelência empresarial e processos da CPFL, conta que outra estratégia usada pela companhia é a formação de agentes multiplicadores que, hoje, somam 30 pessoas. Eles foram batizados de Greens (Gestão de Risco e Eficiência em Negócios) e usam cores diferentes nas cordas dos crachás. “Eles recebem 70 horas de treinamento presencial e fazemos reuniões mensais”, explica. De acordo com o executivo, está nos planos da CPFL montar uma rede social para que os Greens troquem informações mais rapidamente.

Petrobras

Sede da Universidade Petrobras, no Rio de Janeiro (Petrobras/Divulgação)

A Petrobras também aposta nos agentes multiplicadores para divulgar sua política de compliance. A iniciativa conta atualmente com cerca de 150 profissionais que representam diversas áreas da empresa. De acordo com João Elek, diretor executivo de governança e conformidade, os agentes ajudam a identificar riscos e melhorias nos mecanismos de prevenção e detecção de desvios de conduta.

Cursos presenciais, palestras, videoconferências, campanhas, comunicados e publicações também fazem parte da política de comunicação de compliance na Petrobras. Ela é voltada a todos os funcionários e personalizada para aqueles que desenvolvem atividades com maior exposição ao risco de fraude, corrupção e lavagem de dinheiro. Um exemplo é o curso a distância sobre prevenção à corrupção, cujo objetivo é reforçar comportamentos e condutas adequados, apresentando situações cotidianas.

Segundo Elek, há também os treinamentos da Universidade Petrobras que incluem cursos, palestras e seminários com conhecidas instituições e consultores de mercado e alcançam todos os funcionários da companhia. Desde a implantação do programa de capacitação, mais de 1 200 profissionais já foram treinados e passaram a integrar a rede de relacionamento de governança, ambiente virtual da Universidade Petrobras cujo objetivo é facilitar o processo de comunicação, relacionamento, aprendizagem e aplicação prática entre os participantes.

Cursos, palestras e seminários fazem parte do programa de capacitação (Renata Miwa/Estúdio ABC)