LinkedIn: o grande teste de Nadella

Desde que assumiu o comando da Microsoft, em fevereiro de 2014, o indiano Satya Nadella virou um dos principais nomes do olimpo corporativo americano. Sob seu comando, a Microsoft fundada há 40 anos por Bill Gates voltou a ser uma das empresas mais admiradas — e temidas — do mundo. De quebra, virou um dos CEOs mais bem pagos do planeta. Nadella não é afeito a grandes tacadas de marketing mas, se tivesse um leva, seria algo como: “quando somos bons, nós mesmos fazemos; se não, compramos alguém que seja bom”. Só nos últimos meses, pelo menos três propostas bilionárias passaram pela mesa de Nadella em Seattle, onde fica a sede da Microsoft.

Desde a metade de 2015, fala-se da possibilidade de a companhia comprar a concorrente Salesforce, de softwares para relacionamento com clientes, por 55 bilhões de dólares. Mais recentemente, especulou-se a compra da plataforma de colaboração no trabalho Slack, por 8 bilhões de dólares. Nenhuma delas foi para frente. Na manhã desta segunda-feira, enfim, a Microsoft anunciou uma aquisição: a da rede social corporativa LinkedIn, por 26,2 bilhões de dólares em dinheiro. É a maior compra da história da empresa.

Em comum, todas as empresas que a Microsoft pensou em adquirir recentemente têm negócios baseados na nuvem, segmento no qual a criadora do Windows está tentando crescer já há anos. Internamente, a Microsoft começou a migrar seu pacote Office para o Office 365, baseado na nuvem, em 2011. A ideia é vender os softwares e as ferramentas destinados à produtividade de empresas na forma de serviço — tendência na indústria da tecnologia.

O que Nadella viu

Sob essa perspectiva, a compra do LinkedIn pode ser uma ótima jogada. Todas as investidas da Microsoft em outras companhias que trabalham com produtos na nuvem têm a ver com o momento de provação pelo qual essas empresas estão passando. O crescimento baixo da economia mundial — além de erros pontuais — tem feito com que boa parte delas venha apresentando números abaixo das expectativas criadas nos últimos anos. Resultado: está cheio de negócios baratos por aí. A Microsoft está aproveitando.

O LinkedIn, que chegou a ser cotado a 269 dólares por ação no começo de 2015, estava valendo menos da metade disso — 131. Mesmo pagando 196 dólares, a rede social acabou saindo barata para a Microsoft, na visão de analistas e consultores de tecnologia.

A lógica é mais ou menos a seguinte. A rotina do usuário corporativo é, basicamente, dividido entre o tempo que ele está nas plataformas da empresa, seja criando uma apresentação, editando uma planilha ou conversando com colegas pelo Skype, e o que está nas redes sociais. A primeira parte estava coberta pela Microsoft, que agora avança sobre a outra parte da agenda diária dos executivos.

A compra também faz com que a companhia liderada por Nadella se expanda para uma área na qual tentava colocar um pé há um bom tempo, e talvez tenha sido o principal ponto do interesse em adquirir a rede: o chamado “gráfico social”, que é o mapeamento das relações sociais entre os usuários. “Unir o pacote Office com os dados que o LinkedIn possui dos usuários é algo poderoso porque aumenta muito a possibilidade de novos produtos e modelos de negócio”, diz Marco de Mello, ex-executivo da Microsoft em Seattle e presidente da empresa de antivírus Psafe. “Isso faz do Office algo muito mais interessante do que uma plataforma de simples edição de planilhas”, diz.

É um negócio que interessa um grupo crescente de companhias. “Isso posiciona a Microsoft à frente do Google e da Salesforce na área, e é um passo a mais para marcar a posição da empresa como provedora de serviços na nuvem”, diz Donald Feinberg, vice-presidente e analista da consultoria americana de tecnologia Gartner.

Bom para ambos?

Para os acionistas do LinkedIn, a venda pode ter sido um bom negócio também. A rede social foi uma das poucas startups que empolgou os acionistas logo após a abertura de capital, em 2011, por se mostrar sustentável e até dar lucro, uma raridade no setor — o Twitter está patinando até hoje e o Facebook demorou a engrenar. Mas a maré virou. Em 2015, pela primeira vez desde que passou a ser negociada publicamente, a empresa, que faturou quase 3 bilhões de dólares, reportou prejuízo. Perdeu 151 milhões de dólares. O primeiro trimestre de 2016 trouxe uma bomba de mais 66 milhões, indicando que o ano pode ser pior do que o que passou.

Essa estatística é ruim, mas existem outras piores. “Para o LinkedIn, pior do que os prejuízos é o fato de o número de novos usuários ter parado de crescer”, diz Donald Feinberg, do Gartner. São 433 milhões de pessoas cadastradas, das quais 106 milhões, em média, acessam a rede mensalmente, 9% a mais que no mesmo período do ano passado, um número considerado baixo pelo mercado. Para Feinberg, a ida para a Microsoft é a chance de fazer com que novos ares acelerem novamente a rede social. “A integração com os produtos da Microsoft vai ser um recomeço para o crescimento do LinkedIn”.

Engenharia financeira

Mesmo com dinheiro no bolso — tem pouco mais de 100 bilhões em caixa — a Microsoft vai pegar emprestado o valor da transação. Isso porque a maior parte do dinheiro guardado está no exterior, de onde incide um imposto de 35% para a repatriação. Assim, a companhia aproveita o período em que os juros americanos ainda estão baixos e também deduz o pagamento de parte deles no imposto. Com isso, deve pagar 9 bilhões de dólares a menos ao fisco americano só neste ano, além do que pode reduzir nos próximos.

Por outro lado, a agência de risco Moody’s afirmou que pode reduzir a classificação da Microsoft de “Aaa”, a mais alta da agência, para “Aa1” porque, com a operação, a alavancagem ficaria grande demais. Junto com a Johnson & Johnson, a Microsoft é a única empresa americana a ter esse índice de confiança de dívida. Na teoria, o risco de perder o almejado Triple A parece ter sentido. Na prática, a Microsoft terá que provar que sabe o que está fazendo.

(Gian Kojikovski)