Esteves perde confiança de detentores de títulos da Pharma

O BTG ajudou a injetar R$ 400 milhões na empresa em maio, mas ela violou contratos e registrou perdas pelo segundo trimestre consecutivo

São Paulo – Os detentores de títulos da rede brasileira de farmácias Brasil Pharma SA desistiram do bilionário André Esteves.

No dia 25 de junho, eles obtiveram a amortização completa de R$ 560 milhões (US$ 253,7 milhões) de títulos da Brasil Pharma, controlada pelo Banco BTG Pactual SA de Esteves, após exigirem seu dinheiro depois do rompimento de contratos pela companhia em dois trimestres consecutivos.

Em quatro meses de negociações, a empresa com sede em São Paulo não conseguiu chegar a um acordo com os detentores de títulos, como a BRAM Bradesco Asset Management SA e a Votorantim Asset Management DTVM, sobre os limites de alavancagem da rede de farmácias.

Esteves, que aumentou em quase seis vezes o valor de mercado do banco que adquiriu em 2009, não tem conseguido recuperar a Brasil Pharma, mesmo depois que o BTG ajudou a injetar R$ 400 milhões na empresa em maio, quando esta violou contratos e registrou perdas pelo segundo trimestre consecutivo.

A Brasil Pharma, com problemas para integrar as oito redes de farmácias que comprou desde 2009, observou um crescimento da razão entre a dívida líquida e os lucros para 3,3 vezes no quarto trimestre, ultrapassando o limite de 3 vezes nos seus contratos de títulos.

“A empresa está passando por um momento muito difícil, com muita pressão no seu fluxo de caixa”, disse Pedro Zabeu, analista financeiro do setor de saúde na divisão de corretagem do Banco Fator SA em São Paulo.

“Para os detentores de títulos, é melhor receber o pagamento agora do que esperar que ele amadureça. As perspectivas para a Brasil Pharma no curto prazo não são boas”.

Títulos da OGX

A Brasil Pharma é pelo menos o segundo caso em que a reputação de Esteves como recuperador de empresas não conseguiu influenciar os detentores de títulos.

No ano passado, como parte de um esforço para aumentar a confiança na OGX Petróleo e Gás Participações SA, de Eike Batista, o BTG forneceu uma linha de crédito de US$ 1 bilhão para a matriz da produtora de petróleo e disse que gerenciaria as finanças de seis empresas de capital aberto de Batista.

A medida não conseguiu conter os declínios nas notas da OGX nem evitar depois o maior default de títulos corporativos na América Latina.

Esteves obteve reconhecimento após se unir a ex-parceiros em 2009 para comprar o banco brasileiro de investimentos da UBS AG, o UBS Pactual, com um desconto de 19 por cento sobre os US$ 3,1 bilhões que obtiveram ao vende-lo ao banco suíço em 2006.

O valor do banco de investimentos cresceu para US$ 14,5 bilhões depois que Esteves, que aos 44 anos é o bilionário mais jovem no Brasil a construir sua própria fortuna, utilizou aquisições para ajudar a triplicar os ativos sob gestão.

O BTG, que se tornou o maior acionista da Brasil Pharma em 2009, participou da venda de ações por R$ 400 milhões em maio, segundo documentos da companhia.

Em seu relatório de lucros, publicado em 14 de maio, a Brasil Pharma disse que perdeu R$ 185,3 milhões no primeiro trimestre, pois enfrentou desafios no intuito de integrar as redes adquiridas nos últimos anos.

Neste ano, as ações caíram 44 por cento, para R$ 3,79, frente a um ganho de 3,9 por cento no índice acionário de referência do Brasil, o Ibovespa.

Apoio do BTG

Erick Rodrigues, analista do Moody’s Investors Service, diz que espera um apoio permanente do BTG, que ajudará a Brasil Pharma no longo prazo.

Os detentores de títulos não foram tão otimistas. Ao fugir da rede de farmácias neste mês, eles deixaram a empresa sem dívida restante por títulos.

As obrigações pendentes de R$ 1,2 bilhão da Brasil Pharma são em sua grande maioria com bancos, incluindo o HSBC Bank Brasil SA, o Banco do Brasil SA e o Banco Santander Brasil SA.

Os desafios associados com a integração das redes de farmácias recentemente adquiridas significam que a Brasil Pharma terá problemas para reduzir perdas, segundo André Fontoura, analista da BES Securities Brazil.

“A situação deles não é boa, e eles ainda vão ter problemas no curto prazo para ajustar seus inventários”, disse Fontoura, em entrevista por telefone de São Paulo. “Eles tentaram fazer demasiadas coisas ao mesmo tempo”.