Empresas contratam mais autistas – e não é para cotas

Parte das pessoas com autismo tem ótima capacidade de concentração e boa memória visual e de longo prazo – e as companhias têm interesse nessas habilidades

São Paulo – Grandes empresas, especialmente da área de tecnologia, estão se empenhando para contratar pessoas com autismo.

Mas, engana-se quem pensa que elas precisam preencher cotas ou querem somente realizar projetos sociais. O objetivo, na verdade, é ganhar vantagens competitivas.

O autismo, ou o transtorno do espectro autista (TEA), consiste em uma série de “aspectos que indicam déficits na comunicação e na interação social, além de comportamentos repetitivos e áreas restritas de interesse”, na definição da Associação de Amigos do Autista (AMA).

Essas características variam de acordo com o desenvolvimento cognitivo.

“Assim, em um extremo temos os quadros de autismo associados à deficiência intelectual grave e déficit importante na interação social e, no extremo oposto, casos de autismo, chamados de Síndrome de Asperger, sem deficiência intelectual, sem atraso significativo na linguagem e com interação social peculiar”, descreve a organização.

É comum entre as pessoas com autismo a hipersensibilidade à claridade, a sons, cheiros e ao toque, por exemplo.

Por outro lado, parte delas tem facilidade para lidar com conhecimentos matemáticos, tecnologia, música e artes. Também tem ótima habilidade de concentração, boa memória visual e de longo prazo, interesse por tarefas metódicas e grande capacidade de reconhecer padrões e seguir regras.

E é exatamente este último conjunto de aptidões que as companhias querem aproveitar e amadurecer.

Caso SAP

Uma das multinacionais que segue por esse caminho é a SAP. A desenvolvedora de software iniciou em 2013 o programa “Autism at Work” (Autismo no trabalho) e estipulou uma meta de ter 1% de sua força de trabalho formada por profissionais com o transtorno até 2020.

Ela tem 77.000 funcionários no mundo e atingiu recentemente a marca de 100 autistas no time.

No ano passado, o projeto chegou ao Brasil e, em novembro, foi feita a primeira contratação. Em março deste ano,o segundo colaborador com TEA foi admitido.

“Essas pessoas têm formas diferentes de pensar e de enfrentar desafios e isso agrega valor para nós, é uma vantagem competitiva”, afirma Thais Catarino, líder do programa no país.

Para encontrar tal mão de obra, a SAP conta com a parceria da Specialist People Foundation, organização dinamarquesa que atua na inserção de autistas no mercado de trabalho.

Quando uma vaga é identificada na empresa, a fundação consulta seu banco de talentos, realiza uma pré-seleção e encaminha os profissionais compatíveis.

Lá, passam por um processo seletivo diferente dos tradicionais. Primeiro, participam de quatro semanas de treinamento. Nessa etapa, entre outras atividades, constroem um robô com um tipo especial de Lego que pode ser programado. Depois, apresentam um projeto para avaliação dos gestores.

“Sabemos que eles não se sentem confortáveis no ambiente comum de entrevistas”, explica Catarino.

Depois de aprovado, o funcionário ganha um “buddy”, colega que fica responsável por auxiliá-lo na adaptação ao ambiente, além de um mentor, que o ajuda com questões de sociabilidade e compreensão de regras não faladas, por exemplo.

Recepção

Os dois contratados no Brasil atuam como desenvolvedores de software na SAP Labs em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul.

Para recebê-los, a equipe da unidade – especialmente os chefes – foi capacitada e sensibilizada.

Márcia Machado, a primeira a ser admitida pelo projeto, reconhece os esforços.

“É diferente trabalhar em uma empresa onde todo mundo já entende alguma coisa sobre o autismo. O pessoal já sabe o que esperar e eu posso ficar mais à vontade. Uso óculos escuros no trabalho porque a luz me incomoda, e ninguém estranha” comenta.

Ela recebeu o diagnóstico do transtorno já depois de adulta, há cerca de um ano.

“Tenho quase 40 anos. Sabia que tinha minhas particularidades, mas nunca achei que isso pudesse estar relacionado com autismo”, diz.

Bruno Vigna, o segundo contratado, também se diz contente com a acolhida na companhia. Assim como a colega, ele foi diagnosticado recentemente. Com 30 anos, é formado em engenharia elétrica e diz que seu sonho sempre foi ser professor.

“Em outras empresas eu tinha que esconder isso. Se eu contasse, não me contratariam porque eu poderia deixar o cargo. Aqui na SAP o pessoal gostou de saber da minha habilidade de ajudar os outros a aprender”, conta.

Milhões de brasileiros

Não há um estudo que mensure a quantidade de autistas no Brasil. No mundo, porém, uma em cada 68 crianças é diagnosticada com autismo, segundo cálculos do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), agência do departamento de saúde do governo norte-americano.

Seguindo essa conta, o número de brasileiros com o transtorno chegaria próximo de 2,9 milhões.

Mercado

Antes de entrarem para o programa da SAP, Márcia Machado e Bruno Vigna já tinham conseguido se inserir no mercado de trabalho, mas essa não é a realidade da maioria das pessoas com autismo.

Estimativas feitas pela ONU no ano passado davam conta de que 80% dos adultos com autismo estavam desempregados.

Com a missão de contribuir para a reversão desse quadro, a Specialist People Foundation criou a Specialisterne, uma “empresa social” (cujos lucros são investidos na própria iniciativa) que atrai profissionais com TEA, os capacita na área de TI e os contrata para prestarem serviço a outras firmas.

“A pessoa com autismo tem dificuldades em entrevistas de emprego e, quando é aprovada, acaba enfrentando um ambiente hostil, que não entende. Ela demanda uma comunicação clara, direta, sem piadas, e não é isso que normalmente se encontra no mundo corporativo”, explica Fernanda Lima, psicóloga e diretora de formação da Specialisterne no Brasil.

Globalmente, a companhia já integrou mais de 1.000 pessoas com autismo ao mercado. Além da parceria com a SAP, a ela fornece 37 consultores para a HPE (antiga HP), 11 para a Microsoft e 14 para a Everis, por exemplo.

A organização desembarcou no Brasil junto com o programa da SAP, no ano passado. Além dos dois funcionários que selecionou para empresa, ela já qualificou outros 18 autistas por aqui.

Dois deles já estão com contratos assinados e devem começar a atuar na próxima semana. Um trabalhará na Everis e o outro irá para uma companhia que preferiu não ter o nome divulgado até que o projeto esteja consolidado.

“Vamos fechar acordo para a maioria dos consultores formados. Já estamos em contato com um dos maiores bancos do país, uma multinacional mexicana de software e uma das maiores empresas de bens de consumo do mundo”, conta Pablo Mas diretor de operações da Specialisterne no Brasil, sem dar detalhes.

Não é para todos

A organização exige alguns critérios para ministrar a sua capacitação. Os interessados precisam apresentar um diagnóstico formal e devem ter autismo de alto funcionamento, ou Síndrome de Asperger – quadro mais leve do transtorno, não associado a deficiência intelectual. Também é essencial ter interesse pela área de tecnologia.

“Infelizmente, não conseguimos ajudar a todos que gostaríamos com o projeto”, diz Fernanda Lima, a diretora de formação.

O treinamento dura cinco meses e abrange formação técnica (como a especialização em teste de software e introdução à linguagem de programação) e sociolaboral.

Esta última trabalha assuntos práticos como o cumprimento de horários, código de vestimentas e também regras de comunicação e interação social.

A Specialisterne também prepara as empresas que vão receber os profissionais com TEA.

“Os gestores são orientados a ser muito claros nas instruções, evitar ambiguidades, antecipar mudanças e trocas de projetos, por exemplo. E só pelo fato de fazer esse pequeno esforço, eles se tornam líderes melhores, porque aprendem a lidar com situações diferentes”, afirma Pablo Mas, diretor de operações.

Um estudo publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders em 2014 concluiu que 87,5% dos jovens autistas que recebem suporte conseguem se colocar no mercado de trabalho, contra apenas 6,2% dos que não têm ajuda.