Como o banco BVA cresceu – e se enroscou

Instituição concentrou atuação no middle market e multiplicou seus ativos sem ver o patrimônio crescer na mesma medida

São Paulo – A história do banco BVA combina altos e baixos: uma fulgurante ascensão em ativos bancários, o suposto envolvimento em fraudes, o fortalecimento do negócio de empréstimos a empresas e, finalmente, a dificuldade de cobrir um rombo avaliado em cerca de 1 bilhão de reais.

Fundada por José Augusto dos Santos, a instituição começou suas atividades como banco comercial em janeiro de 1994, no Rio de Janeiro. Até meados de 2003, o BVA tinha os repasses do BNDES como principal atividade – em 2002, o banco chegou a operar 550 milhões de reais do BNDES e foi, por três anos seguidos, líder em repasses do banco público no Rio de Janeiro. Mas depois da quebra do banco Santos, em 2004, o BNDES apertou o cerco contra os bancos credenciados a operar com suas linhas de financiamento. A avaliação é que estava excessivamente exposto ao risco das pequenas instituições.

O BVA passou então a focar suas atividades em crédito consignado e no middle market. Com o tempo, a concessão de empréstimos para pequenas e médias empresas tornou-se seu principal negócio. Mas o BVA encontrou solavancos pelo caminho.

Em 2005, a Polícia Federal chegou a indiciar dois funcionários da instituição pelo envolvimento em um esquema montado pelo argentino César de la Cruz Mendoza Arrieta para fraudar a Previdência. Na época, a PF investigava a utilização de créditos podres da Vale Couros – cuja massa falida foi comprada pelo ex-dono do banco Santos, Edemar Cid Ferreira – na compensação de impostos devidos ao governo pelo BVA.

Novo presidente

Como parte de um plano de reestruturação, o BVA contratou Ivo Lodo como seu presidente um ano depois. De lá para cá, o executivo foi aumentando sua participação acionária na instituição. Hoje, ele detém 20,1% do capital com direito a voto (José Augusto Ferreira dos Santos tem outros 79,7%).  

No mesmo período, o BVA multiplicou visivelmente seus ativos, que pularam de 360,8 milhões de reais em dezembro de 2006 para 6,7 bilhões de reais no fim do ano passado, um crescimento de 1.768%.

Mas atualmente a instituição tinha em caixa menos que o estabelecido por lei para poder emprestar dinheiro. No começo de setembro, um levantamento do Banco Central apontava que o BVA era o único banco do mercado com índice de Basileia abaixo de 11%, limite mínimo estabelecido pelo governo. Quanto menor o indicador, mais baixa é a capacidade de uma instituição financeira emprestar dinheiro sem comprometer sua solidez financeira. Na época, o percentual do BVA estava em 9,5%.

Ao longo desta semana, o banco teria tentado negociar com o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) uma linha de financiamento para aumentar seu patrimônio e elevar seu índice. Sem apresentar garantias suficientes, as negociações teriam fracassado. Até junho, o passivo a descoberto do BVA estava em 557,8 milhões. Considerados todos os ajustes necessários, a necessidade de capital do banco gira em torno de 1 bilhão de reais.

Caso a instituição seja liquidada, possibilidade reforçada pelo próprio FGC, 30% do dinheiro aplicado no BVA por depositantes deverá ser coberto. Criado pelos bancos que fazem parte do sistema financeiro e a partir de recursos guardados por essas mesmas instituições, o FGC garante, por lei, até 70.000 reais de aplicações simples e até 20 milhões de reais para Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGE).

Até o fim do ano passado, o BVA contava com 403 funcionários, distribuídos em sete agências no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. 

* Matéria atualizada às 18h14 com a participação acionária dos maiores sócios do BVA