Como as creches para cachorro viraram um negócio milionário

Creches oferecem alimentação, acessórios, cuidados veterinários, day care e hospedagem para os animais em finais de semana e feriados

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A venda de produtos e serviços para animais de estimação fatura pelo menos 19 bilhões de reais por ano no Brasil. O mercado não escapou do vendaval que sacudiu a economia nacional no ano passado: o crescimento de 5,7% no faturamento foi o menor desde 2010. Ainda assim, empreendedores têm apostado em novos modelos de negócio. Entre eles, estão as creches, conhecidas como Day Cares, uma nova fatia do segmento pet especializada no cuidado de cachorros de pequeno, médio e grande porte. Na Zona Sul de São Paulo, uma delas deve faturar 2,5 milhões em 2017. A Golden Pet Day Care, idealizada pelos sócios André Faim e Anderson Luz, recebe cerca de trinta animais por dia e abriu as portas em julho de 2016.

O crescimento do empreendimento de Faim e Luz faz parte de um fenômeno detectado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): o Brasil conta com cerca de 132,4 milhões de cachorros, gatos, aves, peixes e répteis domésticos – os cães estão em 44,3% dos domicílios, uma média de 1,8 por casa. Por isso, a dupla decidiu investir 400.000 reais para colocar a creche animal de pé no bairro do Campo Belo.

Na avaliação dos empresários, muitos donos de cachorro não têm tempo para dar atenção ao animal diariamente. Consequentemente, as Day Cares apareceram como uma solução, especialmente para aqueles que moram em apartamento. “Conseguimos receber até sessenta cachorros por dia. Na primeira vez pedimos que o pet faça um dia de adaptação para que possa conviver no novo ambiente”, conta Faim.

Tudo começou em 2010, quando Faim, então cliente da Golden Pet Store, na Vila Mariana, detectou uma oportunidade de expansão do negócio dirigido pela veterinária Marisa Bittante. Segundo ele, que na época trabalhava como analista de investimentos no banco Morgan Stanley, há uma enormidade de pet shops no Brasil, mas poucas conseguem manter as portas abertas ou expandir os negócios por falta de gestão e capacidade de investimento.

Desde então, com a parceria de Luz, sócio da Mont Capital, a Golden Pet Store opera ao lado da Golden Pet Day Care em uma rede de serviços que inclui suprimentos alimentares, acessórios, cuidados veterinários, day care e hospedagem para os animais em finais de semana e feriados. As diárias ficam em torno dos setenta reais na creche e 120 reais no pacote do hotel. “Temos um grande trunfo em nossa divulgação nas redes sociais. Nossa página tem mais de um milhão de seguidores, o que contribui muito para consolidar a marca Golden Pet”, comemoram os sócios.

A possibilidade de oferecer um serviço de creche e hospedagem para cachorros também inspirou Cristiano Catropa e Vania Telles. Criadores da raça Pastor de Shetland há mais de vinte anos, eles viram a oportunidade de oferecer o serviço de Day Care aos clientes do canil, em 2014. A primeira unidade do serviço foi inaugurada na Avenida Pacaembu. No ano passado, eles se mudaram para uma casa maior, na mesma rua. Em média, são cerca de 50 cachorros por dia.

“O movimento maior da Day Care é de segunda a sexta. Nos finais de semana, os donos querem aproveitar a companhia do cão”, explica Catropa. As diárias variam entre 30 e 80 reais de acordo com a frequência. O hotel, que atende principalmente nos finais de semana e feriados fica em um sítio de 3 mil metros quadrados no município de Mariporã. Os pacotes partem de 70 e podem chegar a 150 reais.

Sócios de empresas como Golden Pet Day Care e Holiday Pet colocam na conta o risco de investir neste mercado. No caso das pet shops, a taxa de insucesso é grande: pelo menos 80% delas fecham as portas antes de completar um ano, de acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet).

Segundo José Edson Galvão de França, presidente-executivo da entidade, o setor deve andar de lado em 2017. Conforme França, um dos principais prejudicados é o setor de serviços, que representam uma fatia de 16% do segmento. Ele explica que, ao cortar as despesas, as famílias devem gastar menos com acessórios e luxos como banho e tosa. Além disso, a parte de alimentação, que representa 67,5% do setor, também foi afetada. “Os donos de animais agora buscam rações mais simples e evitam as opções consideradas premium”, pontua França.

Os cortes, evidentemente, têm limite. De acordo com Catropa, os donos de animais de estimação se preocupam cada vez mais com a qualidade de vida dos bichinhos. Por isso, novos nichos de mercado, como o dos cuidados diário, continuam surgindo. Na Golden Pet, Faim e Luz planejam uma nova etapa de expansão da empresa, com uma linha de produtos de luxo que será vendida através de um pacote de assinatura mensal. “É um programa de fidelidade no qual o assinante receberá todo mês um kit com diversos itens para o cachorro”, comenta Luz. Com crise ou sem crise, o mercado pet vai continuar crescendo, e se sofisticando.