Como a Animale quer ser a nova gigante da moda brasileira

Depois da associação com a Farm, o grupo vai investir neste ano R$ 19 mi de reais para ganhar força no mercado interno e evitar o avanço dos concorrentes internacionais

São Paulo – Para ser relevante no pulverizado mercado de moda brasileiro é preciso unir forças. Quem vem chamando a atenção por aplicar essa receita na prática é o Grupo Animale, comandado pelo empresário carioca Roberto Jatahy, que criou a grife com sua irmã Claudia. A associação mais importante aconteceu em janeiro de 2010, quando o grupo negociou a compra de 30% da carioca Farm, originando o grupo Animale-Farm.

O investimento estimado para 2011 é de 19 milhões de reais, sendo 16 milhões em expansão e reformas de pontos de venda, e 3 milhões de reais em back-office, centro de distribuição e logística. O portfólio atual do grupo conta com Animale, A.Brand, Auslander, Priscilla Darolt, Farm e Fábula (linha infantil da Farm).

“Nesse mercado há a necessidade de nos fortalecermos para a possibilidade, cada dia mais real, da entrada das grandes redes internacionais no país”, disse a EXAME.com Roberto Jatahy. “Já conhecia o Marcello Bastos da Farm há alguns anos e, além de trocar muitas informações com ele, sempre tivemos uma forma parecida de olhar o negócio de moda.” 

A operação é mais um exemplo da consolidação que o setor de moda vem passando nos últimos cinco anos. “Esse movimento reflete o crescimento do consumo doméstico e de que o varejo mundial se descola para o Brasil. Assim, as empresas evitam uma concorrência dos grupos internacionais”, diz Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). “Há interesses para expandir negócios e levar marcas para além do país. Com as associações, os grupos ganham musculatura, recursos, gestão e escala.”

A movimentação acontece a exemplo do mercado europeu, que conta com grupos como LVMH (que controla marcas badaladíssimas como Louis Vitton e Marc Jacobs) e PPR (dona da Gucci e Yves Sanit-Laurent). Segundo a Abit, o mercado de varejo no Brasil deve chegar a 55 bilhões de dólares neste ano – 28% a mais do que o registrado há cinco anos, antes do boom das fusões e aquisições do setor.

A associação entre Animale e Farm traz benefícios para ambas as empresas.“Costumo dizer que tudo o que o cliente não enxerga deve ser consolidado, ou seja, toda a infraestrutura de back-office, e aquilo que o cliente enxerga que é a alma e essência de cada marca não muda nada”, diz Jatahy. No primeiro caso, estariam as áreas financeira, contábil, fiscal, TI, jurídica, logística e compras. No segundo, o estilo, branding, marketing, comunicação, arquitetura, área comercial.


No caso da Animale, a estrutura de back-office vai dar suporte às outras cinco marcas do grupo. A economia com essa operação deve chegar a 25%, basicamente pela consolidação de todas as compras das redes, renegociação de contratos pautada em volumes muito maiores e diminuição substancial de custos de pessoal em nível de diretoria e gerência.

Planos de expansão – Pouco mais de um ano após a associação, o grupo já investe numa forte expansão para suas marcas. Para Ausländer, serão mais sete lojas e a ampliação das três atuais nos próximos dois anos. Além de uma forte atuação no mercado de atacado, passando de 50 pontos de venda para 400.

A Animale, que hoje está presente em mais de 500 lojas multimarcas no Brasil, abrirá mais oito novas lojas e ampliará mais quatro já existentes, devendo encerrar 2011 com 60 pontos de venda próprios. A A. Brand abrirá mais dez lojas no país entre 2011 e 2012. A Farm terá mais nove lojas em 2011, devendo terminar este ano com 45 pontos de venda. O comércio eletrônico também faz parte da estratégia do grupo. A Animale terá a Farm como ponto de partida. Em março, entra no ar a primeira loja virtual da marca. “O planejamento é que a loja seja a sétima colocada no ranking de vendas já no seu lançamento e que, em três anos, seja a primeira da marca Farm”, afirma Jatahy.

Para a marca Priscilla Darolt, está programada a abertura de cinco lojas nos próximos dois anos, começando por São Paulo no início de 2012. A Fábula, única infantil do grupo, terá mais cinco pontos de venda até o final deste ano. As marcas Animale, A. Brand e Priscilla Darolt também ganharão mais um espaço físico: um centro de distribuição de 5.000 metros quadrados, que ficará pronto em maio.

Todo esse crescimento se concentra no Brasil. A internacionalização está fora dos planos da Animale-Farm, pelo menos por enquanto. “Com o real muito valorizado frente ao dólar, somado à expectativa de um crescimento sustentável no Brasil para os próximos anos e ainda com as economias da Europa e dos Estados Unidos muito debilitadas, torna a internacionalização das nossas marcas pouco interessante no momento”, diz Jatahy.

Concorrência – A formação do grupo Animale-Farm tem, pela frente, um gigante do setor: a InBrands, holding que controla tradicionais marcas do mercado de moda como Isabela Capeto, Alexandre Hercovitch e Salinas. No início da fevereiro, a empresa comprou as marcas VR Menswear e VR Kids e sua associação ao Grupo BR Labels incluindo a Mandi e todos os novos negócios.


Com a chegada das novas marcas, que tiveram o faturamento em 2010 de 140 milhões de reais, a InBrands estima faturar 800 milhões de reais em 2011. A empresa se prepara também para a abertura de capital. No ano passado, o faturamento do grupo foi de 530 milhões de reais. Já a Mandi teve faturamento de 50 milhões de reais em 2010 e tem alcançado a cada ano crescimento de 40% a 50%.

“Não temos como objetivo fazer frente a InBrands ou qualquer outra plataforma de varejo existente ou que venha a surgir”, diz Jatahy. “Não queremos ser o maior grupo de moda do Brasil, e sim, o melhor, não só em gestão, mas principalmente em estilo, inovação e designer.”

Porém, a concorrência já está formada e promete se acirrar ainda mais. “Já conversamos por diversas vezes com fundos de investimentos e continuamos a conversar”, diz Jatahy. A InBrands é um grupo de moda do Pactual Capital Partners. Com a entrada de um fundo na Animale-Farm, a atual gigante do setor de moda brasileira vai ter muito com o que se preocupar.