Briga entre sócios da Usiminas rende (mais) troca de farpas

De um lado da disputa, está o grupo japonês Nippon Steel. Do outro, a Ternium, do conglomerado ítalo-argentino Techint

São Paulo – A troca de farpas pública entre acionistas é o novo capítulo de uma das mais longas brigas empresariais já vistas: a disputa por quem manda mais em uma das maiores siderúrgicas do país, a Usiminas.

De um lado, está o grupo japonês Nippon Steel, sócio da companhia desde a sua fundação, há 60 anos. Do outro, a Ternium, do conglomerado ítalo-argentino Techint, no bloco de controle desde 2011.

Ambas têm poder de voto semelhante, mas visões distintas em relação ao futuro da empresa.

Em carta veiculada em jornais nesta terça-feira (5), a Nippon acusa o novo presidente da companhia, Sergio Leite, de comandá-la sob interesses da Ternium.

Também diz que a rival teria espalhado junto a instituições financeiras “o boato de que a Usiminas estaria à beira da falência”, além de não apoiar o aumento de capital na siderúrgica.

A japonesa, inclusive, contesta na Justiça a escolha de Leite para comandar a empresa e quer a volta de Rômel de Souza ao posto. Ela alega que a falta de consenso na eleição, ocorrida em maio, contraria o acordo de acionistas, vigente até 2031.

No processo, os três conselheiros indicados pela Nippon votaram contra o nome do executivo. Os demais membros – os três conselheiros indicados pela Ternium, o representante da Previdência Usiminas e o dos funcionários – aprovaram.

O curioso é que um movimento semelhante, mas do lado oposto, aconteceu em setembro de 2014, quando as discordâncias entre as duas sócias vieram à tona.

Naquela época, a Nippon conseguiu eleger Rômel de Souza e derrubar o então presidente Julián Eguren, desligado junto com outros dois diretores, contra a vontade da Ternium, que os havia indicado.

Segundo a japonesa, os executivos teriam recebido (e não devolvido) pagamentos irregulares da Usiminas. A Ternium negava e clamava para que o acordo de acionistas fosse obedecido.

A Nippon, porém, defende que as situações são completamente diferentes.

“Em 2014, houve uma irregularidade legal. Somente nessa excepcionalidade desrespeitamos o acordo”, disse o diretor da companhia, Yoichi Furuta, que também é conselheiro da Usiminas, em coletiva com jornalistas.

Ele completou que, em maio, não haveria razão para destituir Souza. “Foi um procedimento muito ilegal. O Rômel estava conduzindo fortes iniciativas para reconstruir a Usiminas, incluindo a renegociação com bancos. Não faz sentido”.

Mais lenha na fogueira

Em abril, um novo episódio complicou a disputa entre as companhias pelo controle da siderúrgica, mas, ao mesmo tempo, fez com que elas se unissem pela primeira vez em quase dois anos.

O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) deu permissão para a CSN, maior acionista minoritária da Usiminas, indicar dois membros para o conselho de administração.

Ela estava proibida de exercer direitos políticos sobre a competidora desde 2012. Nippon, Ternium e Usiminas se uniram para tentar reverter a situação na Justiça.

“A CSN é a principal concorrente da Usiminas e tem tudo para querer atrapalhar os negócios dela. Por isso achamos absurda a decisão do Cade”, afirmou Furuta, da Nippon.

Ao jornal O Estado de S. Paulo, o procurador-chefe da organização antitruste Victor Santos Rufino justificou que a briga entre os sócios, aliada à crise financeira grave que a produtora de aço enfrenta, foi o motivo para permitir a entrada de um terceiro no conselho.

Como quem coloca lenha na fogueira, a CSN acusa a Nippon de ter vendido o controle da Usiminas à rival Ternium, recebendo em troca mais contratos entre partes relacionadas com a siderúrgica, que totalizariam 20 bilhões de reais.

“É um erro. Os negócios giram em torno de 2 bilhões de reais. Não temos nem 1% dos contratos entre partes relacionadas (da Usiminas). Não sei onde eles basearam essas informações absurdas”, defendeu o presidente da Nippon.

Divórcio

Um acordo amigável entre Nippon e Ternium já está em descrédito pelo mercado.

Embora não confirmem negociações oficiais, as empresas já falam em uma outra solução para o conflito: a separação e venda de ativos.

No “divórcio”, a Nippon ficaria com a fábrica de Ipatinga, em Minas Gerais, e a Ternium com a de Cubatão, em São Paulo.

“A Ternium tem falado por aí que ela tem sinergias em Cubatão e que quer a divisão. Por outro lado, Ipatinga tem relação com a Nippon, a planta produz aços de melhor qualidade, aços especiais”, disse Furuta.

O diretor da Nippon mencionou ainda uma terceira forma de reverter os problemas: a união da Usiminas com outra siderúrgica em uma ação macro para resgatar o setor como um todo.

Entretanto, ele não deu detalhes de como essa associação poderia acontecer.

“Quando há excesso de capacidade, empresas podem se unir para ajustar a oferta. Esse tipo de reestruturação tem a ver com o país, o governo coordenaria. Mas, na atual situação do Brasil, acho difícil que isso ocorra”, disse.

Furuta defende que, mesmo com todas as brigas, a Usiminas tem conseguido tomar “decisões estratégicas” para sair da crise em que está mergulhada.

“Aprovamos o aumento de capital (de 1 bilhão de reais, em abril). E também a parada das atividades primárias de Cubatão”, afirmou.

Ele reiterou que acredita que ainda há espaço para um acordo de recuperação, mas reforçou as disparidades com a parceira.

“Para nós, a Usiminas é independente, uma empresa de primeira linha, e vamos fazer de tudo para que siga assim. Para a Ternium, ela é só mais um ativo de sinergia na América Latina”, disse.

Números

A Usiminas teve um prejuízo de 151 milhões de reais no primeiro trimestre, uma perda 35,7% menor do que a contabilizada no mesmo intervalo do ano passado.

O número também foi 10 vezes menor que o visto nos três meses anteriores, quando ajustes contábeis foram feitos.

O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) foi positivo: de 52 milhões de reais, mas 7,3 vezes menor que o registrado em igual período de 2015.

Com esse resultado, a empresa quebrou uma sequência de dois trimestres de queima de caixa, cenário que a obrigou a aumentar o capital, numa tentativa de acertar as contas.

Procurada, a Ternium disse a EXAME.com que não vai comentar as acusações da Nippon.