Amazon: mais um passo no mundo físico

Thiago Lavado

O empresário Jeff Bezos, dono da maior varejista digital do mundo, a Amazon.com, deu um novo passo na expansão de seu império. Nesta sexta-feira a empresa anunciou que irá comprar a rede de supermercados Whole Foods por 13,7 bilhões de dólares. O Whole Foods é um gigante no mercado de alimentos americano, sendo o maior varejista de produtos naturais e orgânicos do país, com mais de 450 lojas nos Estados Unidos, além de outros unidades no Canadá e no Reino Unido. A rede faturou no ano passado cerca de 16 bilhões de dólares.

A Amazon deverá pagar 42 dólares por cada papel da rede de supermercados, uma valorização de 27% em relação ao patamar que as ações haviam fechado na quinta-feira — o que imediatamente elevou os preços dos papéis na bolsa de Nova York. É a maior aquisição na história da Amazon e o negócio deve ser concluído na segunda metade deste ano. Segundo comunicado conjunto divulgado pelas empresas, a operação será feita inteiramente em dinheiro e inclui as dívidas do Whole Foods, ficando pendente somente a aprovação de acionistas e de autoridades regulatórias.

O grupo Whole Foods ainda irá operar sob a mesma marca, além de manter o presidente John Mackey e a sede da companhia em Austin, no Texas. “Esta parceria se apresenta como uma oportunidade de maximizar o valor do Whole Foods para seus acionistas, ao mesmo tempo em que estende nossa missão e trás conveniência e inovação para nossos consumidores”, disse Mackey no comunicado.

Até o anúncio da compra pela Amazon, o Whole Foods vivia uma briga entre seus acionistas principais. O fundo Jana Partners, segundo maior acionista da rede com quase 7% das ações, e o fundo Neuberger Berman, que detém 2,7%, estavam pressionando a empresa nos últimos tempos a aceitar uma venda ou adicionar diretores com experiência no mercado de varejo, tecnologia, finanças e ramo imobiliário. As ações da rede haviam perdido metade do valor desde que atingiram o pico em 2013 e os acionistas estavam descontentes com os resultados, principalmente com a categoria “vendas na mesma loja”, que lutava para se consolidar desde 2015.

A compra da Whole Foods pela Amazon tem um significado importante no universo do varejo nos Estados Unidos. Diante dessa aquisição, fica claro o desejo de Bezos de expandir sua marca para o varejo físico, especialmente para o mercado de alimentos — um setor que movimenta entre 700 e 800 bilhões de dólares todos os anos nos Estados Unidos e que atualmente a Amazon detém uma parcela ínfima. Nos últimos anos a companhia havia investido no negócio de entregas de comida fresca, com duas lojas em Seattle, e está testando um mercado sem caixas, conhecido como AmazonGo, onde o consumidor pode só pegar os produtos, escanear em um smartphone e ir embora. A companhia também tem investido nas livrarias físicas, abrindo diversas lojas ao redor dos Estados Unidos.

Mas esses esforços são muito pequenos se comparados à aquisição da Whole Foods, uma rede física que está presente em mais de 40 estados americanos. Num primeiro momento, as duas marcas podem até não parecer fazer sentido, na medida que a Amazon se consolidou como uma varejista digital por vender, principalmente livros, a um preço muito menor do que a concorrência com entregas em tempo recorde. Enquanto isso, a Whole Foods se consolidou como um mercado especializado em alimentação natural, público altamente fidelizado e produtos premium.

Especula-se que a Amazon possa trazer um pouco da expertise que detém em varejo digital para a Whole Foods e ampliar os negócios no seu seu ainda incipiente mercado de entrega de alimentos. O mercado de vendas digitais de alimentos nos Estados Unidos ainda luta contra a falta de demanda, com consumidores que preferem fazer suas próprias escolhas de alimentos. Outro problema é o pouco tempo disponível para a entrega de alimentos perecíveis, frescos ou congelados. Analistas acreditam que a Amazon possa solucionar essas questões com inovações tecnológicas e conhecimento logístico. É esperado que a Amazon utilize a capilarização da rede de supermercados para ampliar ainda mais seu negócio de entrega de alimentos.

Segundo pessoas com informação sobre as negociações, a venda havia sido concretizada no mês passado, quando a Whole Foods trocou cinco membros do conselho de administração da companhia. Logo após assumirem seus cargos, os novos membros do conselho descobriram a oferta da Amazon sobre a mesa e planos da varejista digital de expansão em um ramo que eventualmente competiria diretamente com a Whole Foods. As fontes próximas da negociação informaram que a Whole Foods havia ficado receosa de concorrer com a Amazon e acabou realizando a venda.

Amazon x Walmart

A entrada da Amazon nesse mercado perturbou os grandes nomes do varejo nos Estados Unidos, preocupados de que a companhia possa fazer com eles a mesma coisa que fez com as livrarias. Concorrentes como Target, Walmart e Kroger despencaram na bolsa de Nova York, 6,3%, 4,8% e 9,9%, respectivamente. As ações da Amazon, por outro lado, subiram 2,43% na Nasdaq.

No caso da gigante varejista Walmart, a queda na bolsa é significativamente pior. A empresa também consolidou uma compra nesta sexta-feira ao adquirir por 310 milhões de dólares a loja de roupas digital Bonobos. 

Nos últimos anos, enquanto a Amazon saiu do virtual e expandiu para o físico, o Walmart tem investido pesado em tecnologia. Mas os investidores ainda têm dúvidas se o Walmart será capaz de ampliar suas margens no mundo digital — um mercado de consumo que teve 6,8% no número de compras nos Estados Unidos no último ano, enquanto que o crescimento das vendas do varejo físico foi de apenas 0,5%, segundo dados da consultoria Nielsen — ao mesmo tempo em que compete com a Amazon. A única certeza por enquanto é a rota de colisão entre as duas empresas.