6 atitudes que Don Drapper, de Mad Men, deveria ter hoje

Não há nada de errado em gostar do autoritário protagonista de Mad Men – desde que seu estilo não o influencie

São Paulo – O cotidiano de uma grande agência publicitária cravada na Madison Avenue, coração de Nova York, em plenos anos 60 é o ponto de partida da série americana Mad Men para mostrar os desafios, aspirações e todo ambiente que envolvia os executivos da época. Em sua quinta temporada no Brasil, transmitido por aqui pela HBO, o seriado traz personagens densos, de arquétipos distintos, às voltas de modificações constantes.

Protagonista da história e diretor de criação da agência, Don Draper, interpretado pelo ator Jon Hamm, vive um mundo de mentiras, sustentado por suas crises pessoais e de identidade que o deixam ao léu de uma sociedade mutante, onde ele tem de lidar com esposa, filhos, amante e um passado pesado, sem deixar de ser um dos mais brilhantes publicitários de seu tempo. O lampejo de ambição das mulheres em busca de espaço em um mercado de trabalho dominado por homens minados pela insegurança de terem de galgar espaços de sucesso são outros perfis retratados.

Apesar das décadas de distância entre os gestores retratados em Mad Men com os gestores atuais das empresas, alguns resquícios dos personagens da série parecem bem contemporâneos. “Ainda assim é inegável o quanto os líderes evoluíram de lá para cá”, diz Fátima Motta, professora doutora do Núcleo de Negócios em Desenvolvimento de Pessoas da ESPM.

Abaixo, ela lista seis atitudes exigidas dos bons líderes de hoje, em contraste com o perfil dos executivos da década de 60.

Menos autoritarismo

Na década de 60, imperava a gestão autoritária, onde os chefes ditavam o lado a ser seguido por todos, sem que os funcionários pudessem acatar ou questionar nenhuma ordem. Esse líder aos poucos evoluiu para um gestor baseado em metas e resultados. “Influenciadas pelos métodos de gestão competitiva dos americanos, na década de 80 as empresas passaram a instaurar um clima de concorrência, onde só havia espaço para os melhores e todos queriam sê-lo a qualquer custo”, diz Gilberto Cavicchioli, especialista em gestão de pessoas.

De lá para cá, tudo mudou. Líderes autoritários perderam o lugar para gestores mais participativos e preocupados em desenvolver as habilidades de seus pares, focados em apostar e estimular o melhor do potencial de seus colaboradores. “O líder hoje tem de ser admirado, ninguém fica em uma empresa apenas pelo salário como antes”, diz Fátima.

Mais questionamentos

Uma das principais funções dos líderes de hoje é reter talentos. Se em algumas cenas de Mad Men fica claro que os funcionários tem medo de perder seus empregos, nos ambientes corporativos de hoje o desafio é manter os melhores talentos na empresa.

“Criatividade e confiança são a base da relação das empresas inovadoras com bons profissionais e isso só pode ser desenvolvido por gestores que propiciem espaço para pessoas questionarem a maneira como os resultados são entregues”, diz Fátima.


Recusa de elogios gratuitos

Na série, os altos executivos vivem cercados de puxa-sacos prontos para elogiá-los ou segui-los por onde forem, mesmo que sem nenhum fundamento. Essa relação define a proximidade deles com seus subordinados e é até mal vista quando não exercida. A tal habilidade de gostar de manter um ego inflado por elogios gratuitos está fora de moda.

“Hoje, os bons líderes e profissionais sabem que é preciso fazer um bom trabalho para galgar espaço na carreira e saber trabalhar em equipe”, afirma Fátima. Concordar com o chefe o tempo todo também pode ser prejudicial. “Para o gestor é importante ter ao seu lado pessoas que o mostrem coisas diferentes, que tenham coragem de discordar e de pensar fora da caixa, coisas que um funcionário puxa-saco não trará”, diz ela.

Menos barreira

Hoje, a vida pessoal e profissional dos executivos se mistura pelos novos caminhos de relação e interatividade trazidas com o avanço da tecnologia. Um cenário impensável no ambiente vivido pelos executivos da década de 60. “Seria impossível viver dessa maneira naquela época em que as máximas eram ter de deixar os problemas fora da empresa, já que ali era lugar para se trabalhar e não de ter amigos e expressar opiniões”, afirma a professora.

Essa conexão de pessoas e ideias dá aos profissionais a chance de ser realmente quem se é o tempo todo, no trabalho ou fora dele. Por outro lado, também exige dos profissionais o cuidado de discernir suas opiniões e saber o que vale ou não divulgar nas mídias sociais. “Para o gestor fica mais fácil conhecer bem seus pares e, ao mesmo tempo, saber quanto o subordinado está alinhado com as propostas da empresa”, diz Cavicchioli.

Avaliação igualitária

Não importa se o funcionário tem anos de casa ou se ele acabou de chegar. Se é homem ou mulher, sua preferência sexual ou classe econômica. O bom gestor contemporâneo avalia todos iguais, da mesma maneira. Sem esquecer de deixar claro que isso faz parte das regras do jogo. “Isso é um fator determinante até mesmo para os profissionais se manterem na empresa e se esforçarem para entregar os resultados”, afirma Fátima.

Além de avaliar todos iguais, é preciso que o gestor também saiba dividir os louros de uma conquista da equipe ou de algum funcionário. “O medo de ter pares mais competentes por perto é outra característica que ficou para trás”, diz o especialista.

Mutação constante

Para a professora, a frase ouvida na década de 60, “a mulher esquenta a barriga no fogão e esfria no tanque” está definitivamente fora de contexto. “São por elas e para elas que muitas empresas existem. Entender o universo feminino passou a ser uma exigência para os gestores dos nossos tempos”, diz Fátima.

A conquista das mulheres nos postos de liderança é uma das transformações da sociedade que exige maior sensibilidade dos gestores para com seus pares, suas relações pessoais e para com o público que ele pretende atingir com seu negócio. Nessa mutação constante do cenário em que vivemos hoje, com alterações mais rápidas dos ambientes do que as sofridas em décadas atrás, alguns gestores e empresas estão atrasados, concorda a professora.

“Será preciso que a gestão dessas empresas ainda atrasadas evoluam e atendam as novas necessidades do mercado mais cedo ou mais tarde”, afirma Fátima.