Yanukovytch, colosso ucraniano 2 vezes contestado pelas ruas

"Não estou certo de que você passaria as suas férias com Yanukovytch. É um homem habituado ao poder, que não o divide", disse o chefe da diplomacia francesa

Viktor Yanukovytch é o homem que provoca revoluções na Ucrânia. Em 2004, sua vitória fraudulenta na eleição presidencial desencadeou a Revolução Laranja e, dez anos depois, esse homem de estatura imponente foi mais uma vez desafiado por uma contestação que se transformou em banho de sangue.

“Não estou certo de que você passaria as suas férias com Yanukovytch. É um homem habituado ao poder, que não o divide”, disse a respeito do presidente ucraniano nesta sexta-feira o chefe da diplomacia francesa, Laurent Fabius, que havia participado das longas negociações com Yanukovytch para tentar alcançar um acordo para acabar com as cenas de guerra civil na capital ucraniana.

Depois da morte de pelo menos 80 pessoas – a maioria a tiros – em pleno centro de Kiev, qualquer que seja o futuro deste homem de 63 anos depois do entendimento anunciado para uma eleição presidencial antecipada, ele será associado à violência.

Sangue nas mãos

“Ele tem sangue nas mãos”, escreveu em sua conta no Twitter Carl Bild, ministro sueco das Relações Exteriores, depois das primeiras mortes em Kiev.

No comando de um país europeu de 46 milhões de habitantes, ele entrou para o grupo restrito de dirigentes responsáveis por “atos de violência massiva” contra seus cidadãos, ressaltou Matthew Rojansky, diretor do Kennan Institute, com sede nos Estados Unidos.

Há três meses apenas, Viktor Yanukovytch, nascido na região de Donbass – ligada à Rússia -, era visto como um inesperado agente que conduziria seu país para um futuro europeu.

Depois de ter preparado por três anos a opinião pública para a assinatura de um acordo de associação com a União Europeia, ele desistiu no dia 21 de novembro sob pressão da Rússia.


Milhares de pessoas foram à Maidan – ou Praça da Independência -, no centro de Kiev, em um ato que se transformou em uma ocupação.

Ao contrário da época da Revolução Laranja, desta vez houve violência. A auge foi nesta semana, quando policiais atiraram em manifestantes.

“Yanukovytch vai entrar para a história como um presidente derrubado duas vezes pelas ruas. Ele não chegará mais ao poder”, ressaltou o analista político ucraniano Vadim Karassev.

“Nenhum político ucraniano causou tanta raiva no país e foi tão pouco respeitado no exterior”, ressaltou o escritor Andrei Kurkov, consultado pela AFP em dezembro.

Formado na escola da vida

Ao longo de sua trajetória, Yanukovytch teve que se reinventar, ajudado por assessores de comunicação americanos, melhorando seu domínio do ucraniano, a língua oficial do país ofuscada pelo russo da era soviética. Ele venceu a eleição presidencial de 2010, superando a sua carismática adversária Yulia Timochenko, que depois foi presa.

“Ele é inteligente e versátil, formado na escola da vida. Sabe ser firme e impiedoso”, ressaltou Matthew Rojanski.

Desde a sua chegada à Presidência, Viktor Yanukovytch se esforçou para polir sua imagem, apresentando-se como um defensor dos valores democráticos.

Mas logo vieram as restrições à liberdade de imprensa e de reunião. Em 2011, Yulia Timochenko foi condenada a sete anos de prisão por abuso de poder, em um caso denunciado pela oposição como um ato de vingança de Yanukovytch, que provocou uma grave crise entre Kiev e a UE.


A “Família”

A Presidência de Yanukovytch também levou ao aumento de poder da “Família”, um clã político-financeiro reunindo vários de seus parentes e aliados, suspeitos de enriquecer graças a sua influência e pela corrupção.

Fazem parte do grupo o filho de Yanukovytch, Olexandre, dentista que se tornou empresário, e o atual primeiro-ministro interino Serguei Arbuzov, de 37 anos.

A oposição e a imprensa ucranianas logo atraíram as atenções para a vida de luxo do presidente, enquanto o país vivia uma grave crise. O maior símbolo da ostentação de Yanukovytch é sua suntuosa mansão em Mejiguiria, perto de Kiev.

Órfão desde os dois anos, foi criado por sua avó em um ambiente de extrema pobreza. Ele passou três anos na prisão durante a juventude por roubo e agressões.

O homem mais contestado da atualidade começou trabalhando como mecânico, e depois se tornou dono de uma empresa de transporte. Foi nomeado governador de Donetsk em 1997 – em uma época em que as lutas entre clãs, resolvidas em ajustes de contas, eram frequentes pelo controle de usinas metalúrgicas da região. Ele ganhou notoriedade ao ser nomeado primeiro-ministro (2002-2004) do ex-presidente Leonid Kutchma.