Vodca: o remédio para a crise no campo

Emily J. Weitz
© 2016 New York Times News Service

“A terra é ouro para a agricultura”, diz Dean Foster, que, antes de entrar no jardim de infância, aprendeu a dirigir o trator na plantação de batata de sua família em Sagaponack, no estado de Nova York. Quando criança, ele nunca questionou entrar no negócio da família, que planta batata na porção leste de Long Island há gerações. “Mas agora temos pessoas chegando que acham que a terra é ouro para a construção.”

Em 2015, Sagaponack, um vilarejo nos Hamptons, foi listado como o segundo código postal mais caro do país. Não é uma boa notícia para o humilde plantador de batatas.

Caso estivessem interessados em vender, os Fosters estariam com a vida feita; corretores imobiliários estimaram o valor de seus 60,7 hectares em mais de US$ 100 milhões em meados do ano. O valor pode parecer um veio de ouro, mas teria sido preciso que abrissem mão do legado da família.

“O valor de nossas terras explodiu. Vivemos preocupados com isso durante a maior parte de nossas vidas adultas”, afirma a irmã de Dean Foster, Marilee Foster.

A resposta a seus problemas, inesperadamente, se revelou ser a vodca.

“A lei de produtos artesanais de Nova York foi um puxão de orelhas”, afirma Foster, referindo-se à lei promulgada em 2014 pelo governador Andrew M. Cuomo, afrouxando as regras para produtores de bebidas artesanais em pequenas quantidades. Foi uma convocação para os moderninhos que vinham produzindo gim na banheira, mas também para os fazendeiros que procuravam uma nova maneira de ganhar a vida.

“A lei abriu as portas para um dos produtos de maior valor agregado que se poderia mencionar, e nos permitiu entrar no jogo”, conta Foster. Ele está apostando a fazenda na Sagaponacka, a vodca produzida em sua nova Sagaponack Farm Distillery.

Trinta anos atrás, o maior negócio da família era exportar batatas para Porto Rico, e eles despachavam cinco cargas de mais de 22 mil quilos por dia, cinco dias por semana. Neste ano, os Fosters enviaram somente três cargas desde o começo da colheita em meados de setembro.

“Esse mercado desapareceu com o Nafta”, afirma Foster, referindo-se ao Tratado Norte-Americano de Livre Comércio, que entrou em vigor em 1994 nos Estados Unidos, Canadá e México. “Esse foi o começo do fim das exportações.”

E o mercado local não tem sido mais gentil. No ano passo, a família ganhava US$ 0,25, no máximo, por quilo de batata, contra uma média de US$ 0,44 por quilo em 2009.

Agora, leve em consideração o aumento do salário mínimo, o custo do maquinário e o iminente imposto sobre o herdeiro, e os produtores rurais se sentiram condenados.

“O imposto sobre a herança se reflete em nosso patrimônio líquido apesar desta terra tão cara onde moramos. Depois de tudo quitado, vamos dar 60 por cento do patrimônio líquido ao governo”, declara Foster.

Embora a lei nova-iorquina para os distritos agrícolas, promulgada em 1971, tenha aliviado o fardo do imposto territorial sobre os produtores, a família não terá dinheiro para o imposto sobre o herdeiro quando a propriedade mudar de mãos. A receita de um plantador de batatas não está à altura dos preços de Sagaponack; se eles não acharem um jeito de tornar a terra mais rentável, terão de vendê-la.

“Se a terra não valesse tanto, não passaríamos a noite em claro tentando descobrir um jeito de salvá-la”, diz Foster.

Assim, ele decidiu mudar o foco do prato para o copo ao criar um pequeno lote de vodca de primeira linha feita com as batatas que plantam. Ele colaborou com Matt Beamer, um dos líderes do movimento da cerveja artesanal em Utah, produzindo para empresas como Uinta Brewing e Wasatch Brewery. Em 1997, Beamer fundou a Park City Brewery, posteriormente comprada pela Moab Brewery, e continuou a crescer.

“As cervejarias artesanais mudaram o mundo da cerveja nos últimos 30 anos, e muita gente como eu está passando agora aos destilados”, afirma Beamer.

Para ele, a atração do projeto é a história por trás da vodca, que costuma ser feita com cereal e geralmente não tem ingredientes que diferenciem um lote do outro.

“Os ingredientes são singulares aqui, e têm seu próprio ‘terroir’. Estamos tentando capturar Sagaponack.”

Para uma propriedade rural ter uma destilaria em Nova York, 75 por cento dos ingredientes usados devem vir do próprio estado. O Brooklyn se tornou a fronteira para novas destilarias, onde nove das 13 existentes na cidade de Nova York surgiram desde 2010.

A Kings County Distillery, fundada naquele ano, tem a distinção de ser a primeira destilaria na cidade desde a lei seca. Agora o movimento está em expansão.

Na verdade, os Fosters e suas batatas de Sagaponack chegaram um pouco atrasados para a festa. “Existe uma fadiga com as marcas novas”, diz Colin Spoelman, um dos fundadores da Kings County Distillery e seu mestre destilador. “É mais difícil colocar no mercado se não for algo muito atraente, algo muito diferente do que todos estão fazendo.”

E a Sagaponack Farm Distillery tem algo que os outros não têm.

Ao contrário da grande maioria das destilarias de Nova York, que compram ingredientes de fazendas do estado inteiro, Foster e Beamer estão tentando obter todos eles na propriedade da família, onde a destilaria está localiza. Nela, eles têm controle total sobre o processo – plantio, colheita, lavagem, descasque e depois moagem das batatas para a destilação – na propriedade.

Eles abriram a destilaria para pesquisa e desenvolvimento em maio de 2015. O grande alambique, uma torre de cobre reluzente, ficou pronto em meados deste ano. A destilaria recebeu recentemente aprovação federal para produzir vodca com a colheita de batata deste ano, que está em andamento. Logo, ela começará a fabricar 265 mil litros de destilados para venda por ano. Dean Foster e Beamer esperam ter a sala de degustação aberta até o meio do ano que vem.

Enquanto isso, vários restaurantes e lojas de bebida na cidade esperam ansiosamente a chegada da vodca do “terroir” de Sagaponack.

David Loewenberg, dono de três restaurantes chiques nos Hamptons, já está pensando quais coquetéis vão se adequar mais à vodca mais nova do mercado.

“Garanto que dará um Bloody Mary maravilhoso”, ele diz.

Quer seja o vinho das vinícolas locais ou o uísque Pine Barrens, de Long Island, Loewenberg apoia a bebida local.

“Em determinado momento, tudo aqui era terra agrícola. E os Fosters encontraram um jeito de manter a fazenda sendo criativos com o produto. Fabricar vodca continua a ser viver da terra, e eu apoio isso.”

Beamer considera a distribuição de seus produtos a restaurantes e bares da cidade como fundamental para a empresa.

“Em função do tamanho do nosso equipamento”, afirma ele, apontando para os imponentes alambiques de cobre feitos à mão, “uma grande parte do nosso plano é distribuir na cidade”.

No ano passado, os Fosters produziram 73 hectares de batata; neste ano, foram apenas 30. Em 2017, o número vai encolher para oito hectares, agora que se concentram na produção da destilaria e alguns restaurantes, eliminando por completo a venda no mercado aberto. O resto de sua terra será dedicado a cereais, que serão utilizados para produzir outros tipos de destilados refinados. Trigo, centeio, cevada, aveia e milho terão espaço em sua propriedade. A esperança é um dia produzir cereais suficientes para vender a outras destilarias rurais de Nova York.

E Marilee Foster diz: “É uma tentativa de continuar fazendo algo em que vemos valor e propósito. Não conseguimos pensar em parar com a agricultura”.