Venezuelanos famintos fogem de barco do país

Nicholas Casey © 2016 New York Times News Service

Willemstad, Curaçao – Os contornos escuros da terra mal tinham se tornado visíveis quando o contrabandista forçou todos para o mar.

Roymar Bello berrou. Ela era um dos 17 passageiros que subiram no barco pesqueiro superlotado com motores velhos, em julho, esperando fugir do desastre econômico da Venezuela e começar uma vida nova na ilha caribenha de Curaçao.

Com medo das autoridades, o contrabandista se recusou a aportar. Ele ordenou que Roymar e os outros pulassem na água, apontando para a praia distante. Em meio ao pânico, ela foi jogada ao mar, despencando na escuridão que precede o alvorecer.

Mas ela não sabia nadar.

Enquanto começava a afundar nas ondas, outro migrante a puxou pelo cabelo e a arrastou na direção da ilha. Terminaram em um paredão rochoso batido pelas ondas. Machucados e sangrando, ambos subiram, rezando por uma salvação: empregos, dinheiro, algo para comer.

“O risco valia a pena”, conta Roymar, de 30 anos, acrescentando que venezuelanos como ela, “vão atrás de uma coisa: comida”.

A Venezuela já foi um dos países mais ricos da América Latina, estimulada pela riqueza do petróleo que atraía imigrantes de lugares tão variados como a Europa e o Oriente Médio.

Mas logo depois que o presidente Hugo Chávez prometeu quebrar a elite econômica do país e redistribuir a riqueza para os pobres, os ricos e a classe média fugiram em bandos para países mais receptivos, criando o que os demógrafos descrevem como a primeira diáspora venezuelana.

Agora, está acontecendo uma segunda diáspora – bem menos rica e bem-vinda.

Mais de 150 mil pessoas fugiram do país somente no último ano, o número mais alto em uma década, segundo estudiosos do assunto.

À medida que a revolução inspirada no socialismo de Chávez se transforma em ruína econômica, enquanto alimentos e remédios ficam mais e mais distantes, os novos migrantes são formados pelos mesmos pobres que as políticas venezuelanas deveriam ajudar.

“Nós vimos uma grande aceleração”, diz Tomás Páez, professor que estuda imigração na Universidade Central da Venezuela. Segundo ele, 200 mil venezuelanos fugiram nos últimos 18 meses, estimulados pela maior dificuldade de conseguir comida, trabalho e remédios – sem falar nos crimes que esse tipo de escassez incentivou.

“Os pais dizem que preferem se despedir dos filhos no aeroporto do que no cemitério”, ele afirma.

Venezuelanos desesperados estão se espalhando pela Bacia Amazônica na ordem de dezenas de milhares para chegar ao Brasil. Eles planejam tramoias elaboradas para driblar os aeroportos no rumo de nações caribenhas que antes os aceitavam de braços abertos. Quando a Venezuela abriu a fronteira com a Colômbia por apenas dois dias em julho, 120 mil pessoas passaram, simplesmente para comprar comida, relatam autoridades. Um número incontável permaneceu.

Mas talvez o mais impressionante sejam os venezuelanos fugindo pelo mar, uma imagem tão simbólica das viagens perigosas para escapar de Cuba ou do Haiti, mas não da Venezuela rica em petróleo.

“Isso mudou completamente”, afirma Iván de la Vega, sociólogo da Universidade Simón Bolívar, em Caracas. De acordo com ele, um número 60 por cento maior de venezuelanos fugiu do país neste ano do que no ano anterior.

“Os rendimentos dessas pessoas são baixos. A única opção que lhes resta são os países vizinhos, aqueles aonde podem chegar a pé, em jangadas ou em barcos com motores pequenos”, conta Vega sobre os migrantes recentes.

Segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional, a inflação chegará aos 500 por cento neste ano e a desconcertantes 1.600 por cento no ano que vem, esmagando salários e criando uma nova classe de venezuelanos pobres que abandonaram as carreiras profissionais para viver de bicos no exterior.

“Estamos no começo de uma crise humanitária sem precedentes nesta parte da Amazônia. Já estamos vendo advogados venezuelanos trabalhando como caixas de supermercado, venezuelanas recorrendo à prostituição, indígenas venezuelanos mendigando nos faróis de trânsito”, afirma o coronel Edvaldo Amaral, chefe da defesa civil do estado brasileiro de Roraima.

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Maria Pinero em um supermercado vazio na cidade de La Vela; ela está deixando a Venezuela sem nada. "É isso ou morrer de fome". Foto de Meridith Kohut/ The New York Times
Maria Pinero em um supermercado vazio na cidade de La Vela; ela está deixando a Venezuela sem nada. “É isso ou morrer de fome”. Foto de Meridith Kohut/ The New York Times

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Alguns pagam a contrabandistas mais de US$ 1 mil por pessoa para chegar a cidades como Manaus e São Paulo, segundo as autoridades, enquanto outras simplesmente cruzam a fronteira com o Brasil. Em Pacaraima, uma pequena cidade brasileira de fronteira, centenas de crianças venezuelanas estão matriculadas nas escolas locais e famílias inteiras dormem nas ruas.

“É difícil ver uma solução desse problema porque a fome está envolvida. A Venezuela não tem comida suficiente para seu povo, então as pessoas estão vindo para cá”, diz o prefeito, Altemir Campos.

As pequenas ilhas caribenhas ao redor da Venezuela são muito menos hospitaleiras, dizendo que simplesmente não conseguem absorver essa invasão repentina. As mais próximas da costa, Aruba e Curaçao, fecharam as fronteiras para venezuelanos pobres desde o ano passado ao obrigar que apresentem US$ 1 mil em dinheiro antes de entrar – o equivalente a mais de cinco anos de salário-mínimo.

Os dois países aumentaram as patrulhas e as deportações, e Aruba chegou a reservar um estádio para conter até 500 migrantes venezuelanos que são pegos, relatam as autoridades.

Trata-se de uma reversão dramática da sorte dos venezuelanos, que antes iam a Curaçao para gastar dinheiro como turistas, não para implorar trabalho.

“Todos eles dizem: ‘Você é da Venezuela. É de um país rico que tem tudo’”, conta Roymar a respeito de seus encontros na ilha. “E eu digo que não é mais assim.”

Cruzando mares e fronteiras

A jornada para Curaçao os leva em uma travessia de 97 quilômetros cheia de vagalhões, bandos de barqueiros armados e navios da guarda costeira tentando capturar os migrantes e despachá-los para casa.

Então, depois de serem jogados ao mar e deixados para nadar até a praia, eles se escondem em meio aos arbustos para se encontrar com contatos que os apresentem à economia turística da ilha caribenha. Eles limpam o piso de restaurantes, vendem bugigangas nas ruas ou oferecem sexo aos turistas holandeses, forçados pelos contrabandistas a pagar a passagem trabalhando em bordeis, informam as autoridades curaçauenses.

Inúmeras famílias na Venezuela são como os Bellos agora. Incapazes de obter juntos mais do que uma refeição por dia, eles se espalharam por mares e fronteiras.

O irmão de Roymar, Rolando, trabalha na construção civil em Curaçao e sua esposa acabou de ir ao seu encontro, deixando a filha de sete anos com parentes na Venezuela. Um tio não teve tanta sorte: está preso em Curaçao, acusando de contrabandear migrantes como seus parentes.

E ainda temos Wilfredo Hidalgo, o primo de 27 anos de Roymar Bello, que se formou em administração de empresas na Venezuela, mas nunca achou emprego. Há dois anos, foi deportado de Curaçao depois de chegar de avião. Agora ele está tentando voltar de barco, após ter economizado metade dos US$ 350 necessários para pagar aos contrabandistas.

“O que posso fazer?”, ele indaga.

Também tem o caso do irmão de Roymar Bello, Roger, cuja namorada de 19 anos, Yaisbel, está grávida de seis meses. Ele também pretende ir a Curaçao para poder criar o filho. Yaisbel afirma que ficaria para trás, mas faria um empréstimo dos contrabandistas para bancar a viagem do namorado, usando a casa da mãe como garantia. Com sorte, sua mãe nunca ficaria sabendo, conta Yaisbel.

“Só estou olhando a barriga dela. Antes de a criança nascer, eu estarei em Curaçao”, diz Roger Bello.

E, finalmente, temos a mãe de Roymar Bello, Maria Piñero, que deu um salva-vidas à filha antes de ir embora, pois sabia que ela não nadava. Só que o contrabandista o arrancou das mãos da filha antes de ela ser jogada ao mar, dizendo que as ondas eram tão altas que a mulher se daria melhor nadando por baixo delas.

Agora, apesar do martírio de Roymar, sua mãe também prometeu fazer a viagem de barco.

“Estou nervosa. Estou indo embora sem nada, mas tenho de fazer isso. Senão, vamos simplesmente morrer de fome aqui”, declara ela.