Ucrânia anuncia eleição, mas não há acordo com oposição

Viktor Yanukovich prometeu um governo de unidade nacional e uma reforma constitucional para reduzir seus poderes

Kiev – O presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, anunciou concessões a seus opositores pró-Europa, incluindo um plano para organizar eleições antecipadas, mas não ficou claro se a oposição aceitaria um acordo mediado pela União Europeia para dar fim à violência.

Yanukovich, que é apoiado pela Rússia e enfrenta a pressão de grandes manifestações em prol de sua renúncia, prometeu um governo de unidade nacional e uma reforma constitucional para reduzir seus poderes, assim como a realização de eleições presidenciais.

Ele fez o anúncio em um comunicao publicado no site da Presidência sem esperar pela assinatura de um acordo com líderes da oposição após pelo menos 77 pessoas morrerem no pior surto de violência desde a independência da Ucrânia, há 22 anos.

“Não há medidas que não devam ser tomadas para restaurar a paz na Ucrânia”, disse ele. “Eu anuncio que dou início a eleições antecipadas.”.

Yanukovich disse que a Ucrânia, recém emergida da derrocada da União Soviética em 1991, voltaria a um Constituição anterior, sob a qual o presidente tem menos autoridade.

“Também dou início ao processo de retorno à Contituição de 2004 com um rebalanceamento entre o poderes, na direção de um república parlamentarista”, disse ele. “Eu convoco o início dos procedimentos para a formação de um governo de unidade nacional.” O primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, cujo chanceler integra a equipe da UE para tentar mediar um compromisso, disse que não poderia ter certeza de que o “pior dos cenários” poderia ser evitado. “As ameaças permanecem lá”, disse a uma coletiva de imprensa em Varsóvia.


Os mediadores da UE disseram que a oposição buscava mudanças de último minuto, mas que ainda tinha esperança de assinar um acordo nesta sexta. Socos foram trocados no Parlamento enquanto a tensão política cresce.

Impasse

Os ministros de Relações Exteriores da Alemanha e da Polônia estão em Kiev para tentar mediar uma solução para a mais violenta crise no país desde o fim do domínio soviético, mas permanece o impasse entre a tropa de choque da polícia e os manifestantes antigoverno que há três meses ocupam uma praça central da cidade, conhecida como Maidan.

A crise começou depois que Yanukovich rejeitou um tratado comercial com a União Europeia, preferindo em vez disso aceitar uma ajuda financeira de 15 bilhões de dólares da Rússia. Os manifestantes exigem uma maior aproximação com a Europa e a renúncia de Yanukovich, aliado de Moscou.

O chanceler polonês, Radoslaw Sikorski, disse que ele e seu homólogo alemão, Walter Steinmeier, iriam se encontrar com representantes dos manifestantes nas ruas para discutir o projeto de acordo.

Uma mesa foi montada para a cerimônia de assinatura na sede da Presidência, com placas com os nomes de três dos líderes da oposição.

Mas não está claro se essa transição gradual seria aceitável para os ativistas que estão nas ruas.

“Isso é só mais um pedaço de papel. Não deixaremos as barricadas até que Yanukovich renuncie. É isso que todo o povo deseja”, disse o especialista em TI Anton Solovyov, de 28 anos, que protestava na Maidan.


Mas um diplomata graduado da UE disse que o presidente e os líderes da oposição devem assinar o acordo na sexta-feira, apesar de a oposição ainda solicitar algumas mudanças.

Antes, a polícia disse em nota que os militantes antigoverno atiraram nas forças de segurança perto da praça. Não houve confirmação independente desse incidente, nem relatos sobre vítimas.

A praça, oficialmente chamada de praça da Independência (Maidan Nezalezhnosti), mas apelidada pelos manifestantes de “Euromaidan”, parecia pacífica na manhã de sexta-feira, com milhares de manifestantes entoando canções patrióticas e slogans contra o governo.

Embates no parlamento

O líder oposicionista Arseny Yatsenyuk disse que policiais armados entraram no prédio do Parlamento durante uma sessão de emergência, mas foram rapidamente expulsos.

A sessão foi exaltada, e deputados chegaram a trocar socos quando o presidente da Casa, Volodymyr Rybak, tentou suspender os trabalhos, adiando a votação de uma resolução em favor de mudanças constitucionais que restrinjam os poderes presidenciais. Rybak deixou o plenário, e o debate prosseguiu.

Se for assinado e implantado, o acordo entre o governo e a oposição representará um revés para o presidente russo, Vladimir Putin, que tenta atrelar a Ucrânia a uma União Eurasiática, liderada por Moscou – uma forma de recriar, na medida do possível, a antiga União Soviética.