Os seis meses de turbulência de Donald Trump

Taxa de aprovação de Trump, que em janeiro era de 45% — o menor índice de um presidente no dia em que assumiu o cargo —, caiu para 36,8%

Foram seis meses duros para o mundo. O governo do presidente americano Donald Trump terminou seu primeiro semestre com algumas vitórias, muitas promessas no ar, relações internacionais estremecidas e um enxurrada inédita de polêmicas.

Durante o começo do governo, o capital político dos mandatários é maior e sua relação com o público e outras figuras do jogo político é mais amena. Se partirmos do pressuposto que esses foram os seis meses mais “tranquilos” do governo de Trump, é melhor apertar os cintos para os próximos três anos e meio.

A taxa de aprovação do presidente, que em janeiro era de 45% — o menor índice de um presidente no dia em que assumiu o cargo —, caiu para 36,8%, de acordo com o site de estatísticas FiveThirtyEight. É o menor índice de 8 dos últimos 9 presidentes — Trump está empatado com Gerald Ford, o presidente que substituiu Richard Nixon após a renúncia.

Com tanta cobertura focada diretamente no presidente (há matérias que teorizam até sobre seu peso e bem-estar físico), Paul Beck, professor de ciência política da Universidade do Estado de Ohio, afirma que é preciso distinguir o ruído do sinal.

“Com tamanha quantidade de coisas acontecendo, há que nos perguntarmos: o que realmente importa?”, diz. “No Brasil, está claro que o maior dos problemas é o escândalo de corrupção. Aqui, Trump está nas manchetes todos os dias por questões diferentes”.

Então, vamos ao que importa. O governo Trump aprovou, até aqui, 42 leis. Número que o presidente afirma ser “maior do que qualquer outro presidente” no período. É realmente mais leis que seus antecessores Barack Obama e George W. Bush, mas muito atrás de presidentes como Harry Truman, 55, ou Franklin D. Roosevelt, 76. Além disso, boa parte das leis aprovadas foram para reverter as políticas da administração anterior, especialmente em termos ligados a políticas ambientais. 

Talvez a maior vitória da gestão Trump tenha sido a aprovação do juiz Neil Gorsuch como membro da Suprema Corte dos Estados Unidos — uma grande conquista para republicanos conservadores. Trump também foi bem sucedido na retirada de seu país do Tratado Trans-Pacífico, um acordo comercial entre nações do Oceano Pacífico, e do Acordo Climático de Paris — o que não é necessariamente bom, mas estava no escopo de promessas a seus eleitores. Ele ainda clama que irá acabar com o acordo de livre-comércio da América do Norte (Nafta).

O governo Trump começou polêmico já na sua primeira semana. Ainda em janeiro, Trump promulgou a ordem executiva 13.769, mais conhecida por impedir a entrada de pessoas vindas de sete países de maioria muçulmana, Iran, Iraque, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iêmen. Em torno de 750 pessoas foram detidas até fevereiro e a lei levou a protestos ao redor do país, especialmente em aeroportos. Juízes de cortes estaduais baixaram diversas ordens para derrubar a decisão presidencial. Desde aquela época estava dado o tom da gestão.

Em águas internacionais, o tom mudou em relação à campanha. Trump teve um encontro em abril com o presidente chinês, Xi Jinping, o que aproximou os dois países e até traçou planos de uma cooperação econômica — presidente e sua equipe econômica “singular” acreditam que diminuir o déficit comercial com a China trará benesses para os Estados Unidos e irá reavivar a indústria americana. Um tom bem diferente da campanha, quando a China era o real inimigo lá fora.

Trump também se envolveu em batalhas no Oriente Médio, mesmo tendo prometido que focaria na “América primeiro”. O presidente bombardeou uma base militar síria e jogou a “mãe de todas as bombas” em uma base do grupo terrorista Estado Islâmico no Afeganistão e continua articulando sanções e ameaças à Coreia do Norte, como forma de retaliar o programa balístico e nuclear do país.

Em termos de defesa, a gestão do secretário James Mattis lembrou à Otan, o tratado militar do ocidente, e ao Japão que não irá cessar a ajuda americana, embora Trump ainda requeira que seus parceiros invistam mais em defesa.

Isso tudo sem falar da Rússia. O FBI já chegou à conclusão de que o Kremlin interferiu, sim, nas eleições do ano passado, faltando apenas investigar se os republicanos sabiam, ou, pior, se cooperaram. Até agora, não há ligação direta do presidente com os russos, mas seu filho, Donald Trump Jr., seu genro, Jared Kushner, seu diretor de campanha, Paul Manafort, seu ex-conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, e até o procurador-geral, Jeff Sessions, se encontraram com membros ou pessoas próximas do governo russo — alguns em mais de uma ocasião —, sempre em circunstâncias obscuras.

Depois de seis meses, o governo continua com apenas 49 cargos nomeados aprovados pelo senado. Segundo uma apuração feita pelo jornal The Washington Post, o número é um quarto do obtido por Obama, que havia aprovado no mesmo período, 203 cargos. Restam ainda 359 cargos sem qualquer nomeação, enquanto 145 aguardam a confirmação do Senado. Mesmo com os republicanos tendo 52 dos 100 assentos no Senado, Trump continua culpando os Democratas pelas derrotas, afirmando que eles estão obstruindo o processo.

Duas semanas de desastres

Embora o resumo dos últimos seis meses já seja desastroso o suficiente, as duas últimas semanas mostram que Trump pode estar caminhando rumo a um governo ainda mais turbulento. Esta semana, chegou a afirmar que não teria dado o cargo de procurador-geral a Jeff Sessions se soubesse que ele iria se eximir da investigação sobre a Rússia.

Durante as eleições, Sessions foi um senador republicano pelo estado do Alabama e um dos poucos membros do partido que sempre apoiou o então candidato Trump. Sessions, que se retirou do caso por conflito de interesses, disse que, apesar do comentário do presidente, não pretende deixar o cargo.

Seu secretário de Imprensa, Sean Spicer, oficialmente se demitiu na sexta-feira, depois de meses de brigas com repórteres na Sala de Imprensa — uma relação que culminou com Sessions deixando as últimas três semanas de aparição a cargo da vice-secretária, Sarah Sanders. A relação era tão ruim que vários anúncios à imprensa foram proibidos para as câmeras. Foi apenas a ponta do iceberg na pouca cordialidade que toda a gestão teve com a imprensa nos últimos seis meses.

presidente já vinha de um baque político após seu filho mais velho, Donald Trump Jr., ter divulgado e-mails em que mostrava que havia se encontrado com uma advogada ligada ao governo da Rússia, Natalia Veselnitskaya.

O escândalo apontava que Trump Jr. teria recebido um e-mail, em junho passado, de um publicitário chamado Rob Goldstone com informações que prejudicariam a candidatura da concorrente democrata, Hillary Clinton. Na resposta, Trump Jr. afirmou que “se é que o você diz, então eu amei” e enfatiza que a informação seria “ótima para o final do verão”, quando as eleições dos Estados Unidos estivessem em um momento derradeiro.

O caso foi tão bombástico que o próprio Trump teve que sair em defesa do filho. A reunião ainda incluía o genro do presidente, Jared Kushner, hoje um conselheiro importante na Casa Branca, e o presidente de campanha, Paul Manafort.

Mas e os apoiadores do presidente?

Segundo uma pesquisa do instituto Gallup, entre os republicanos a aprovação do presidente é de 86%, acima da média de aprovação de um governante dentro do próprio partido, que gira em torno de 82%.

O problema para a popularidade do presidente está entre democratas: apenas 8% considera boa a gestão de Trump. Barack Obama, no primeiro ano de governo, teve 28% de aprovação com os republicanos. Mesmo George W. Bush era bem avaliado por 30% dos democratas em 2001.

Entre os independentes, que são cerca de 20% dos eleitores, uma visão negativa do governo é crescente — apenas 36% são pró-governo, bem abaixo de 60% para Obama e de 52% para Bush. Somente duas vezes os independentes, em sua maioria, não aprovavam o governo nos seis primeiros meses: agora com Trump, e com Bill Clinton em 1993.

Mas se a aprovação de Trump é tão alta entre os republicanos, como pode que ele não consiga uni-los em torno de projetos como repelir e substituir o Obamacare, o programa de saúde de seu antecessor, uma pauta de sete anos do partido, que capengou pela Câmara e agora enfrenta forte objeção no Senado?

Para o professor Arthur Lupia, cientista político na Universidade de Michigan, o problema se dá porque há uma falsa ilusão de bipartidarismo nos Estados Unidos. “O problema de Trump está no fato de que há três partidos atualmente: os democratas, que representam uma ala mais progressista da política; os republicanos tradicionais, como a família Bush, por exemplo; e o Tea Party, que são conservadores favoráveis à redução do governo”.

Isso impossibilitou que o presidente desse prosseguimento a algumas de suas propostas mais extremas, como a própria substituição do Obamacare. E essa diferença de alas deve assombrar o governo em futuras batalhas, como a reforma tributária, a construção do muro no muro na fronteira com o México e mesmo o tão prometido investimento de 1 trilhão de dólares em infraestrutura.

Segundo o professor Beck, da Universidade do Estado de Ohio, os seis primeiros meses foram amistosos entre Trump e os republicanos, que evitaram criticá-lo e julgá-lo. Mas isso pode mudar. “Ele tem demonstrado um relacionamento tóxico com seus aliados, julgando-os em termos do que eles poderiam fazer por ele, como fez com Sessions”.

Caso a relação e as taxas de aprovação presidencial desmoronem, os republicanos podem fugir de Trump na eleição do ano que vem, que elegerá todos os membros da Câmara e um terço do Senado. Para Beck, isso seria nocivo ao presidente, já que a chave do impeachment está com o partido e muitos membros prefeririam o vice-presidente Mike Pence a Trump em si.

Para o professor Lupia, muitos republicanos fugiriam de Trump, mas sabem que não há para onde ir, já que não há outro plano traçado. Ele enfatiza que a aprovação do presidente, embora totalmente polarizada, é grande no núcleo republicano e para pessoas que carregam um determinado tipo de valor. “Conservadores e adeptos de pouca interferência estatal veem o governo com bons olhos”, disse.