Trump e o otimismo do mercado

David Cohen

Antes das eleições americanas, toda vez que a probabilidade de Donald Trump vencer diminuía, as ações subiam. Foi assim após o primeiro debate, em que as pesquisas apontavam vitória de Hillary Clinton, foi assim quando surgiu o vídeo em que Trump fazia comentários sexistas e foi assim quando o FBI desistiu de processar Hillary por ter enviado emails por rede insegura quando era secretária de estado. Estava claro que os investidores tinham receio de uma presidência Trump.

Desde então, porém, o que era temor parece ter se convertido em otimismo para boa parte dos empresários e investidores.

Na última semana, a firma de investimentos Goldman Sachs divulgou uma pesquisa com empresários de diferentes setores da economia, e a maioria acredita que a presidência de Trump será benéfica para os negócios. “Apesar das incertezas, as expectativas de impostos menores e estímulo econômico estão entre as principais razões para a visão favorável”, disse Avisha Thakkar, chefe da equipe de pesquisa.

Dois analistas da JP Morgan Chase também escreveram que a política de Trump seria “pró-crescimento”, ainda que ninguém saiba direito como. E isso poderia levar a uma valorização extra de até 20 dólares nos lucros por ação entre as 500 maiores empresas nos próximos anos.

Nem todos os setores têm o mesmo sentimento. As indústrias de automóveis, aerospacial, energia limpa e agronegócio temem as restrições no comércio anunciadas por Trump e pressões inflacionárias derivadas da política de crescimento. Mas, de forma geral, o otimismo prevalece – e aumentou nos últimos dias, com as nomeações de sua equipe e o cumprimento de uma promessa de campanha, de brecar a transferência de empregos para o México planejada pela fábrica de ar-condicionado Carrier.

“Até agora, temos mais um sujeito da Goldman no Tesouro, o bilionário Wilbur Ross no Comércio, especialistas de alto quilate em regulação de mercado nos departamentos de Justiça e Comunicações, e a elaboração de cortes de impostos para as empresas. É o tipo de populismo que eu gosto”, disse Chris DeMuth Jr., fundador da firma de investimentos Rangeley Capital.

Uma equipe bilionária

Para quem fez uma campanha desancando Wall Street, os primeiros movimentos de Trump de fato parecem um pouco contraditórios.

Ele nomeou Steven Mnuchin, um ex-executivo da Goldman Sachs, para a secretaria do Tesouro (é o terceiro ex-executivo da Goldman a ocupar esse posto, depois de Robert Rubin e Hank Paulson), e o bilionário investidor Wilbur Ross para o Departamento de Comércio. Não são indícios de que ele vá defender os interesses da classe média baixa, o maior contingente de seus eleitores.

“Acho que ele os enganou”, disse Whitney Tilson, diretor da Kase Capital Management, à revista Business Week. “Eu temia que ele fosse fazer loucuras que iriam fazer o sistema explodir. Então o fato de ele ter indicado gente de dentro do sistema é uma boa coisa.”

Trump fez mais do que indicar gente “de dentro do sistema”. Em 2001, quando George W. Bush montou seu primeiro gabinete, foi criticado por escolher milionários que tinham pouco contato com os reais problemas do povo. A riqueza daquele grupo, ajustada para valores de hoje, era de 250 milhões de dólares – mais ou menos um décimo da fortuna de um único membro da equipe de Trump, o bilionário Ross.

Os demais não ficam muito atrás: há Todd Ricketts, o vice de Ross no Comércio, filho de um bilionário e um dos donos do time de beisebol Chicago Cubs; a bilionária Betsy DeVos, na secretaria de Educação, nora de um dos fundadores da Amway; Elaine Chao, a escolhida para o Transporte, filha de um magnata da navegação. Também estão cotados Harold Hamm, um dos 30 americanos mais ricos, para a Energia, e Andrew Puzder, um executivo da indústria de restaurantes, para o Trabalho.

Talvez Trump queira se sentir alguém da classe média, quando reunir seu gabinete… Mas o grupo atende a uma promessa que ele fez na campanha: trazer pessoas de fora do mundo da política que saibam navegar e explorar um sistema “viciado”, porque elas é que saberão consertá-lo em prol da classe trabalhadora.

A reação dos democratas foi rápida. Mnuchin, especialmente, foi apontado como alguém que se aproveitou da desgraça de americanos em dificuldades para pagar suas hipotecas. Isso porque em 2008, ele comprou, junto com George Soros e John Paulson, o IndyMac, uma subsidiária do Banco da Califórnia que tinha muitos créditos em hipotecas que não estavam sendo pagas. Sete anos depois, o banco que havia custado 1,6 bilhão de dólares foi vendido por 3,4 bilhões. Nesse período, mais de 36.000 famílias tiveram suas casas arrestadas.

Segundo o senator Sherrod Brown, “isso não é limpar o pântano; é enchê-lo de crocodilos”. Mnuchin diz que nenhum dos arrestos foi originado por ele, e que seu trabalho foi de saneamento da instituição.

Além das esperadas críticas do Partido Democrata, há argumentos como de Nicholas Carnes, um cientista político na universidade Duke. “É importante reconhecer que a perspectiva, a política e o governo de qualquer um é moldado pelo tipo de vida que ele teve. As pesquisas indicam que, se você colocar um punhado de milionários no comando, pode esperar uma política pública que beneficie os milionários à custa de todos os outros.”

O lado bom da hipocrisia

Uma boa parcela do otimismo dos empresários vem dos sinais de que Trump vai adotar uma doutrina semelhante à da era Reagan – a trickle down economics, uma espécie de efeito cascata. A ideia básica é que, favorecendo as empresas e os ricos, a economia cresce e isso acaba beneficiando todas as camadas da população.

“Não foi isso que os eleitores de Trump apoiaram, mas parece ser isso o que eles vão ter”, afirmou o comentarista Eugene Robinson, do The Washington Post.

Outra parcela do otimismo vem, curiosamente, da percepção de que Trump não pretende cumprir suas promessas. Pelo menos não integralmente.

Claro, isso não é um elogio. Como frisou Rick Wilson, um estrategista do Partido Republicano que não gosta de Trump: “Ninguém deveria confundir Trump com um homem de princípios rígidos ou alguém que tenha qualquer coerência intelectual além de seu próprio engrandecimento e suas explosões. É óbvio que Trump tem muito pouco, se é que tem alguma consistência ideológica, apesar de suas promessas.”

Em outras palavras, a percepção é que Trump tenha sido um hipócrita durante toda a campanha. Porém, dado o teor de suas diatribes, essa hipocrisia está sendo vista como uma qualidade. “É bom que Trump não cumpra suas promessas”, diz Michael Gerson, outro comentarista do Washington Post. “O Obamacare (o plano de saúde implementado pelo presidente Barack Obama) não vai ser totalmente rejeitado; não, não vamos rasgar o acordo com o Irã para conter seu programa nuclear; a deportação não é para todos os imigrantes; não vamos tentar mandar Hillary para a prisão…”

Passado o período das promessas, os empresários e investidores estão mais atentos aos atos de Trump. A AT&T, por exemplo, ficou mais aliviada ao saber que sua aquisição do grupo Time Warner será avaliada sem preconceito.
Embora o presidente eleito tenha falado em bloquear o acordo porque ele “concentra poder demais na mão de poucos”, indicou para seu time de transição dois funcionários da área de concorrência que têm um histórico de não interferência no mercado.

Quanto a uma possível guerra comercial com a China, embora Mnuchin não tenha negado a promessa de Trump de rotular o país como manipulador de sua moeda, o futuro secretário do Tesouro deixou claro que vai primeiro investigar o assunto.

E Ross, o futuro secretário do Comércio, disse que a ameaça de Trump de impor tarifas para se defender das importações chinesas e mexicanas não seria uma medida a ser tomada logo de cara, e sim um último recurso. “Todo o mundo fala de tarifas como a primeira coisa a fazer. Elas são a última. Tarifas são parte de uma negociação”, disse à TV CNBC. “O mais importante é aumentar as exportações americanas.”

O cortador de impostos

A parte das promessas que Trump parece realmente querer cumprir também agradou o mercado.
Na entrevista à CNBC, Mnuchin disse que o governo Trump vai criar um “enorme crescimento econômico”, levando a cabo o plano de reduzir os impostos corporativos de 35% para 15%.

Este é um nível de impostos compatível com o da Irlanda, país onde várias empresas montaram operações justamente para perseguir o que chamam de “eficiência fiscal”, um eufemismo para “driblar a mordida do Leão”.

Com 35% de taxa, os Estados Unidos são o país desenvolvido com o maior imposto para empresas. Conforme outros países baixaram suas taxas nos últimos anos para atrair negócios, várias corporações americanas trataram de comprar empresas fora e fazer transferências entre filiais, ou até mudar a sede para o exterior, para pagar menos impostos.
Embora faça sentido reduzir as taxas para acabar com o incentivo às manobras das empresas, isso precisa ser negociado com o Congresso.

A intenção de Mnuchin foi prontamente criticada pelos democratas como uma demonstração de que Trump vai beneficiar os ricos. Mnuchin disse que “não haverá corte absoluto nos impostos para a classe alta”, porque o governo vai ser mais duro nos valores máximos que podem ser deduzidos no cálculo do imposto.

Mnuchin também afirmou que os cortes de imposto para a classe média serão significativos. “Vamos ter o maior corte de taxas para a classe média desde o governo Reagan”, disse. Essa parte do plano, no entanto, não será tão simples. O Partido Republicano, maioria no Congresso, apoia o corte de impostos para as empresas (acreditando no efeito cascata para toda a economia), mas seu plano para os americanos de renda média ou baixa é bem menos ambicioso que o de Trump.
Mnuchin garantiu que o próximo governo trará um crescimento econômico de 3% a 4% ao ano, elevando os salários e criando mais “empregos bons”. De certa forma, essa tendência já está em curso. Na sexta-feira (dia 2), o governo anunciou que a taxa de desemprego caiu para 4,6% (estava em 4,9% em outubro).

Essa redução não é toda devida à criação de empregos, no entanto. Parte dela acontece porque as pessoas desistem de procurar trabalho e saem da estatística. Mesmo assim, é uma reversão considerável em relação ao início do governo Obama, quando o país perdia cerca de 800.000 empregos por mês e a taxa de desemprego estava em 10% da população economicamente ativa.

Como os Estados Unidos agora estão perto do nível do pleno emprego, analistas temem que a política de incentivar empregos e salários de Trump se revele inflacionária.

E parte do estímulo à economia será feito, de acordo com os planos de Trump, pela facilidade de empréstimos. Trump prometeu desmantelar – agora sua equipe fala em “amenizar” – as reformas Dodd-Frank, impostas a Wall Street na esteira da crise financeira, pela avaliação de que a falta de regulação incentivou os bancos a atrair clientes com pouca capacidade de honrar suas dívidas. Essa política pode ser perigosa no médio prazo, mas pode ser uma das razões para o bom ânimo do mercado financeiro, pelo menos em sua parcela imediatista.

O salvador de empregos

Uma promessa de campanha que Trump já cumpriu foi defender os empregos de funcionários da empresa de ar-condicionado Carrier.

A empresa reverteu seus planos de fechar uma fábrica em Indianápolis e mudá-la para o México, o que vai preservar cerca de 1.100 empregos na cidade. Cerca de 800 deles são de operários. Outros 300 a 600 postos na fábrica, porém, assim como 700 empregos em outra planta, ainda vão ser cortados.

O acordo ainda não foi finalizado, mas envolve um incentivo de 7 milhões de dólares do estado de Indiana para que a Carrier faça investimentos de 16 milhões de dólares na fábrica.

Durante a campanha, Trump criticou a Ford por abrir fábricas no México, atacou empresas que mudaram sua sede para fora dos Estados Unidos e disse que não comeria mais biscoitos Oreo porque a Nabisco mudou parte de sua produção para o México. E, quando soube da decisão da Carrier de transferir parte de sua produção para lá, disse que não permitiria.

O assunto estava praticamente esquecido, mas Trump viu uma reportagem de TV sobre o fechamento da fábrica e, segundo disse, ligou imediatamente para Gregory Hayes, o CEO do grupo que controla a Carrier, United Technologies.
O acordo foi facilitado porque o governador de Indiana, Mike Pence, que vai bancar os subsídios, é o vice-presidente na chapa de Trump.

Entusiasmado com o sucesso de sua intervenção, Trump afirmou na sexta-feira que mais companhias vão decidir ficar nos Estados Unidos porque sua administração vai baixar impostos e reduzir as regulações. Também alertou que quem decidir ir para o exterior “vai pagar um preço” com tarifas impostas a bens importados.

Até a Apple já teria começado a estudar a produção do iPhone nos Estados Unidos, segundo fontes ligadas à empresa.
A atitude de Trump foi amplamente criticada. Especialistas dizem que nenhum presidente moderno interveio em favor de uma companhia individual. Medidas casuísticas como essa, dizem analistas, poderiam criar um sistema em que o governo acaba escolhendo vencedores.

O acordo vai contra a posição de uma ala importante do Partido Republicano, que defende o livre mercado. Muitos críticos apontaram que ele abre a possibilidade de outras empresas usarem os empregos como forma de pressão para também obter favores do governo.

Como era de se esperar, alguns cidadãos têm uma visão bem diferente. “Nós sabíamos que Trump estava atento a isso”, disse uma garçonete de um bar perto da fábrica que seria fechada. “Ele ainda nem assumiu e já está salvando empregos.”

Trump reagiu às críticas. “Eles dizem que ligar para as empresas para negociar não é uma atitude de presidente. Eu acho que é, sim, e muito. E se não for, tudo bem, porque eu na verdade gosto de fazer isso.”
Um traço do futuro governo Trump parece já ter ficado claro. Ele poderá implementar políticas pró-mercado, políticas contraproducentes, e funcionará como uma montanha-russa de emoções. O mercado reagirá ora com entusiasmo, ora com temor. Mas pelo menos uma pessoa vai estar sempre se divertindo.