Tragédia no Rio poderia ter sido evitada

Especialista da Coppe-UFRJ aponta os problemas crônicos da região serrana do Rio e diz que, com pequenas intervenções técnicas, teria sido possível minimizar a catástrofe

São Paulo – Desespero, dor, raiva, solidariedade. Cariocas e fluminenses estão cada vez mais íntimos dos sentimentos que acompanham as grandes tragédias. Um ano após os deslizamentos em Angra dos Reis e no morro do Bumba, o horror revisita o estado, dessa vez na região Serrana. Previsível por razões topográficas e históricas, os deslizamentos provocados pela chuva intensa nos últimos dias poderiam ter impacto minimizado caso as autoridades locais tivessem implantado um pacote de medidas de prevenção.

Em primeiro lugar, conter a expansão desordenada nas encostas e em regiões passíveis de inundações. “Toda ocupação de encosta gera problemas, a começar pela retirada de vegetação, que implica na erosão do solo”, diz Maurício Ehrlich, professor de geotecnia da Coppe-UFRJ. “Falta planejamento urbano e intervenção do Estado nas regiões de risco. Não pode haver complacência”.

Nem negligência. O caos que se instalou em Petrópolis, Nova Friburgo e Teresópolis não é novidade. “Enchentes em 1966 e 1988 mataram dezenas de moradores”, lembra o especialista. Problema antigo, mas detectável pela características geológicas da região. Segundo Ehrlich, a Serra do Mar, que compreende as cidades afetadas, tem uma superfície recoberta por uma camada fina de terra, fácil de se desprender em temporais. Mais agravante, as camadas de rochas são entrecortadas por pequenas fendas internas. “Quando chove, a água se acumula nas rochas diminuindo a resistência e aumentando o risco de deslizamento”, explica.

Quando fatores meteorológicos incomuns se combinam com condições de ocupação pouco favoráveis, a tragédia se instala, como aconteceu no Rio. Ao vir encosta abaixo, em função da forte chuva, a avalanche de terra e rocha trouxe consigo toda a água acumulada ao longo dos dias com as chuvas constantes. Destruiu casas, comunidades inteiras, ceifou vidas em poucas horas. O lado cruel é que toda essa tragédia poderia ter sido evitada, com um poder público mais atuante.

Falta planejamento e prevenção

Estratégias simples e de baixo custo teriam minimizado os impactos. Um exemplo é a instalação de um sistema de drenagem externo, para evitar o acúmulo de água nas rochas e canalizar e proteger os moradores de regiões baixas de uma possível enxurrada. Além de uma drenagem interna, por meio de perfuração, que seria capaz de retirar a água do interior das rochas. Muros de contenção e projetos de vegetação também ajudam.

Frear a expansão desordenada é crucial. “A ocupação tanto na parte alta quanto na mais baixa deve seguir um programa de engenharia”, alerta o geólogo. Todo projeto de construção perto de encostas ou em regiões inundáveis deve passar por um rigoroso processo de estudos geotécnico e validado pelas autoridades locais. “Mas poucas prefeituras dispõem de um quadro técnico especializado nesse assunto”, diz.

Segundo o geólogo da Coppe-UFRJ, há regiões de risco onde não deveria haver uma moradia sequer. “Tem áreas onde, com algum investimento, é possível realizar obras de contenção. Mas em outras, simplesmente não dá. E o governo local tem que agir com firmeza, retirar as famílias desses lugares a fim de evitar uma tragédia maior”.