Riquezas turísticas detonam batalha por lago glacial na Islândia

A batalha jurídica iniciada em torno da posse do lago glacial na Islândia é um teste fundamental das credenciais empresariais do novo governo

Reykjavik – Este é o mais recente capítulo da longa saga nórdica em que o lucro enfrenta a natureza.

Mas a batalha jurídica iniciada por uma empresa de investimento em torno da posse do Jökulsárlón, um lago glacial extraordinário que fica no litoral do sudoeste da Islândia, também é um teste fundamental das credenciais empresariais do novo governo.

Embora ainda estejam na etapa preliminar, os processos judiciais já estão gerando ambiguidades no modo em que o governo pretende administrar um de seus maiores ativos.

Este caso “gera incerteza” e “mostra que não existe uma política clara sobre como a iniciativa privada pode ser usada no desenvolvimento de pontos turísticos”, disse Frosti Ólafsson, diretor administrativo da Câmara de Comércio Islandesa, em entrevista, em Reykjavík.

O atual boom econômico da Islândia está sendo estimulado pelo número recorde de visitantes ávidos para ver a Aurora Boreal, fazer tratamentos de desintoxicação ou simplesmente explorar cenários do seriado “Game of Thrones”.

Islandsbanki, o segundo maior banco da ilha, estima que as receitas do turismo em 2016 equivalerão a 34 por cento do total de exportações.

Jökulsárlón, cenário de uma improvável perseguição de carro com James Bond sobre um lago congelado cercado por espetaculares icebergs azuis, agora é um dos principais pontos turísticos do país e atrai cerca de meio milhão de visitantes por ano.

Ele fica perto do Parque Nacional Vatnajökull, um lugar candidato ao título de Patrimônio da Humanidade da Unesco.

“Não existem muitos lugares onde uma geleira avança para o mar”, disse Guðmundur Ingi Guðbrandsson, diretor administrativo da Associação Ambiental Islandesa.

Esta é uma “joia natural” que ainda exige muita investigação, “então é simplesmente natural que deva pertencer a todos os islandeses”, disse ele.

A história

O lago foi à leilão após anos de desentendimentos entre seus 40 proprietários e foi comprado no dia 11 de novembro por 1,52 bilhão de coroas islandesas (US$ 13 milhões) pela Thule Investments, uma firma islandesa de capital de risco cuja eclética carteira inclui uma empresa americana de biotecnologia e uma companhia de teatro local.

O CEO da Thule, Gísli Hjálmtýsson, foi acusado em 2012 de defraudar investidores — uma acusação de que acabou sendo exonerado, de acordo com Ólafur Hauksson, promotor especial na época.

Depois, o Ministério das Finanças decidiu exercer seu direito de primeira recusa, concedido pela lei de Conservação Natural, equiparar a oferta da Thule e assumir a aquisição.

A decisão foi anunciada publicamente no dia 9 de janeiro pelo então ministro das Finanças Bjarni Benediktsson, que dois dias depois foi nomeado oficialmente o primeiro-ministro no comando de um novo governo de centro-direita.

A Thule Investments agora apelou ao tribunal distrital local, alegando que o anúncio do governo foi emitido depois do prazo de 60 dias posteriores à data da venda. A briga gira em torno da data exata em que a venda original foi realizada.

Hróbjartur Jónatansson, um advogado que representa a Thule, questiona se o governo tem algum plano para desenvolver o lugar. Ele também argumenta que a posse estatal não é a melhor solução.

Para um governo pressionado por conservacionistas — uma voz poderosa em um país famoso por sua natureza acidentada, repleta de vulcões e gêiseres –, aumentar a quantidade de turistas no lago não é uma prioridade.

A ministra do Meio-Ambiente, Björt Ólafsdóttir, admitiu em uma entrevista que atualmente não há planos “para aumentar o número de turistas que visita Jökulsárlón”.

Em vez disso, o lago seria incorporado a um parque nacional próximo, com ênfase na segurança e na preservação. Ela diz que a compra estatal contou com o apoio de distintos partidos.