Regime sírio recupera Cidade Antiga de Aleppo

Os combatentes rebeldes se retiraram das partes da área antiga depois que as tropas do regime reconquistaram os bairros vizinhos

As forças do governo sírio assumiram o controle de toda a Cidade Antiga de Aleppo, seu coração histórico, após a retirada dos rebeldes, cada vez mais asfixiados em seu antigo reduto.

Este avanço acelera o êxodo da população: 80.000 pessoas fugiram da zona leste de Aleppo desde o início, em 15 de novembro, da ofensiva do regime, informou nesta quarta-feira a ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

Os deslocados buscaram refúgio nos bairros controlados pelo governo na zona oeste da cidade e em áreas controladas pelas forças curdas, explicou o diretor do OSDH, Rami Abdel Rahmane.

Os combatentes rebeldes se retiraram das partes da área antiga que ainda controlavam depois que as tropas do regime de Bashar al-Assad reconquistaram os bairros vizinhos de Bab al-Hadid e Aqyul.

“Recuaram pelo temor de um cerco na área antiga”, explicou a ONG.

O exército sírio e seus aliados avançam rapidamente na parte leste de Aleppo e já controlam mais de 75% da área, incluindo toda a parte ao leste da cidadela histórica.

Centro turístico de Aleppo, a Cidade Antiga de Aleppo abrigava hotéis e restaurantes, totalmente desertos desde o início da guerra.

Durante a noite, o exército executou intensos bombardeios em áreas ainda controladas pelos rebeldes, como o bairro de Al-Zabdiya, segundo o OSDH.

Coronel russo morto

Ao menos 15 pessoas, incluindo uma criança, morreram na terça-feira na zona leste de Aleppo.

Ao todo, ao menos 369 civis, entre eles 45 crianças, morreram nesta área desde o início da ofensiva.

Do outro lado, a zona oeste da cidade, controlada pelo regime, é alvo diário de tiros rebeldes, que provocaram a morte de 92 civis, incluindo 34 crianças, desde o dia 15.

Além disso, um coronel russo, Ruslan Galitsky, assessor militar na Síria, morreu em Aleppo após um bombardeio dos rebeldes, anunciou nesta quarta-feira o exército russo.

O oficial, de um dos mais altos escalões já mortos na Síria desde o início da intervenção russa, ficou ferido há alguns dias durante um ataque rebelde com artilharia a oeste de Aleppo, uma zona sob controle governamental.

Mais de 20 militares russos morreram na Síria desde 30 de setembro de 2015, quando a Rússia começou a intervir no conflito em apoio ao regime de Bashar al-Assad.

Neste contexto, os rebeldes sírios em Aleppo pediram um cessar-fogo imediato de cinco dias e a evacuação dos civis dos bairros do leste para outra região em mãos dos insurgentes, segundo um comunicado de vários grupos rebeldes.

A declaração, consecutiva à reconquista de 75% dos bairros rebeldes do leste de Aleppo pelas tropas governamentais, pede também negociações sobre o “futuro da cidade”, uma vez que seja superada a crise humanitária.

“Não dormimos”

“Nós não dormimos, a situação é muito difícil”, disse à AFP Um Abdu, uma mulher de 30 anos que deixou o bairro de Bab al-Hadid com seu marido, seus cinco filhos e sua mãe. “Os últimos quatro dias foram muito estressantes”, acrescentou.

Hassan Atleh, que deixou seu bairro de Bayada, relata as dificuldades que teve para comprar bens de primeira necessidade desde o início do cerco de Aleppo em julho.

“Os aumentos de preços foram surpreendentes. Foi muito difícil conseguir leite ou fraldas para o meu filho de 8 meses. Felizmente as pessoas ajudam umas as outras”, declarou.

Principal aliado de Assad, a Rússia anunciou negociações esta semana em Genebra (Suíça) com os Estados Unidos para discutir a evacuação de milhares de rebeldes da zona leste de Aleppo.

Mas a reunião foi cancelada. O chanceler russo, Sergei Lavrov, culpou Washington, que negou responsabilidades do fracasso das discussões.

Lavrov e seu colega americana John Kerry devem se encontrar nesta quarta ou quinta-feira em Hamburgo (Alemanha), à margem da reunião anual da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

Kerry apelou nesta quarta-feira para a retomada das negociações entre regime e oposição. “A Rússia diz que Assad está pronto” para negociar, “e eu sou a favor de colocar isso à prova, mesmo se Aleppo cair”, disse Kerry.

Mas, com os seus sucessos militares, Damasco descartou qualquer cessar-fogo em Aleppo.