Processo de paz da Colômbia deve se fortalecer com Nobel

Há uma semana, o acordo de paz com as Farc foi rejeitado pela maior parte dos colombianos que foram às urnas.

O processo de paz na Colômbia está em “uma situação difícil” após o referendo que rejeitou o pacto com a guerrilha das Farc, mas “se fortalece” com o Nobel da Paz concedido ao presidente Juan Manuel Santos, opinou um especialista internacional.

“É um reconhecimento ético, moral e político, e encoraja os mais céticos a buscar um acordo” com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), disse Mariano Aguirre, diretor do Centro Norueguês para a Resolução de Conflitos (NOREF), em visita a Bogotá.

A seguir, um resumo da entrevista concedida no sábado à AFP:

P: Como fica o processo de paz com o Nobel?

R: Ele se fortalece, embora esteja em uma situação difícil e até perigosa. As pessoas contrárias ao acordo tentarão frear qualquer reforma e modernização. O Nobel é um reconhecimento ético, moral e político, e encoraja os mais céticos a buscar um acordo para seguir adiante.

P: Foi uma surpresa?

R: A Colômbia estava na lista dos possíveis vencedores. Desde que o “Não” venceu o referendo, começou a cair posições, mas era uma candidata forte. Foi uma decisão acertada, o Nobel a Santos é merecido.

P: As Farc também deveriam ter sido premiadas?

P: Era complicado aplicar o mesmo modelo de décadas atrás, quando foram premiados o presidente falecido de Israel Shimon Peres e o também falecido líder da OLP Yasser Arafat. Nestes 30 anos ocorreu o 11 de setembro, a guerra contra o terrorismo, a proliferação de grupos armados como Boko Haram ou Estado Islâmico, que gozam de uma deslegitimação muito alta. Não se pode esquecer que as Farc figuram em algumas listas internacionais como um grupo terrorista.

P: Por que Santos é tão reconhecido fora da Colômbia e tem uma popularidade tão baixa dentro?

R: Em um mundo de conflitos armados, atentados terroristas, há um presidente que se empenhou em impulsionar um processo de paz, que soube resistir a momentos complicados, que manteve uma estratégia dura de negociar a paz enquanto a guerra prosseguia. Santos ganhou um espaço internacional muito forte num momento em que faltam boas notícias. Ao mesmo tempo, os cidadãos sempre tendem a olhar mais para fora e desvalorizar o que têm dentro. E Santos dedicou tanto tempo ao processo de paz que talvez isso não tenha permitido que ele se dedicasse a outras questões internas.

– A paz “já começou” –

P: Como o papel da ONU afeta o resultado do referendo?

R: As Nações Unidas ganharam peso em seu mandato de verificação do fim do conflito. Sua vontade é servir ao processo em tudo o que seja possível. É interessante que seja uma missão neutra, pacífica, que respeite a soberania da Colômbia. Os países fiadores (Noruega e Cuba) e acompanhantes (Venezuela e Chile) também ajudaram no diálogo entre as partes e deram coesão ao processo.

P: Santos se equivocou com o referendo?

R: Para Santos era um problema convocá-lo e não convocá-lo. Foi problemático perder, mas perdeu por 54.000 votos, e se vencesse por esta margem tão leve também teria tido uma pressão fortíssima para renegociar. O referendo era irremediável, e, caso contrário, também teria que buscar um diálogo com a oposição. E agora também precisa incluir no debate os mais de 60% que não votaram. Mas o ponto de partida deve ser o acordo alcançado. Não é preciso começar do zero.

P: É um bom acordo?

R: É possivelmente um dos acordos de paz mais importantes já assinados. É como um relógio suíço, como uma Constituição da Paz. Para além das circunstâncias atuais da Colômbia, será visto como um modelo. Não se pode rejeitar o resultado do referendo, mas tampouco um acordo assinado entre um governo legitimamente eleito e uma força armada não estatal que, goste ou não, estiveram brigando por 50 anos.

P: Qual é o desafio agora?

R: Preservar o máximo possível do acordo e que as Farc não se retirem.

P: Este processo pode fracassar, como já ocorreu três vezes com as Farc?

R: A Colômbia já começou a implementar a paz em dezenas de iniciativas da sociedade civil e com instrumentos do Estado em restituição de terras, reparação às vítimas. Normalmente isso é feito após a assinatura. E nisso ninguém pode voltar atrás. O presidente Santos e as Farc estão prestando atenção nisso e o ex-presidente (e líder da oposição Álvaro) Uribe não tem outra saída a não ser observar também, a menos que queira carregar a responsabilidade de ter fraturado uma sociedade que já havia começado a fazer a paz.