PQP: o maior empresário português e a crise do Brasil

Aos 66 anos, Pedro Queiroz Pereira, o PQP, é um dos homens mais conhecidos de Portugal por duas frentes de atuação. Na juventude, foi piloto de competição e amigo de pilotos brasileiros como Ayrton Senna e Emerson Fittipaldi. Hoje, ele ainda gosta de pisar a mais de 250 por hora nas estradas que cortam o país. Mas, acima de tudo, PQP é o poderoso empresário à frente do grupo Semapa, um dos maiores conglomerados empresariais portugueses. Fatura mais de 2 bilhões de euros por ano em áreas como cimento, celulose, imóveis. Nos últimos cinco anos, se envolveu em uma ferrenha disputa societária com Ricardo Salgado, controlador do banco Espírito Santo que foi manchete nos jornais portugueses e acabou por provocar um racha em sua família. A EXAME Hoje, PQP falou das lições que aprendeu com a disputa, e diz que o Brasil continua a ser um ótimo destino para investimentos – no fim de 2015, ele inaugurou uma fábrica de cimentos da Secil, no Paraná, que recebeu 900 milhões de reais de investimento.

Não vemos muitos estrangeiros investindo pesado no país. Por que para o senhor foi diferente?
Entre 76 e 88 eu vivi no Brasil. Fiquei muito impressionado com a diferença de dimensão entre Brasil e Portugal. Não podemos ficar restritos a Portugal, e o Brasil é um destino óbvio. O Brasil vai ser muito parecido com os Estados Unidos. Mas vai levar seu tempo. Meu pai era um empresário da área de distribuição de petróleo e gasolina. Nos anos 40, quando eu não era nem nascido, ele veio a Curitiba tentar comprar a Ipiranga. Por qualquer razão o negócio não se fechou. Hoje a Ipiranga fatura muito mais que minha holding. É um sinal do potencial do país. Já vi muitas crises no Brasil. Sempre se fala que está quase batendo no fundo, aí passa dois anos e o país está bombando outra vez

Essa crise dos últimos anos não é pior do que as outras?
Em termos de números, pode ser que sim. Mas nos anos 80 vocês chegaram a ter 200 bi de dólares de dívida externa. Era absurdo na época, e se achava que o Brasil ia acabar. O Brasil é uma economia muito industrializada, e muito jovem. Tem uma enorme capacidade de se recuperar das crises. É por isso que invisto aqui. Uma fábrica de cimento se faz para 20, 30 anos. O Brasil é um dos investimentos mais seguros que tenho.

O que o faz pensar assim?
Para um português, escala e demografia são muito importantes. Portugal vive uma crise de falta capacidade de criar riqueza, de se tornar competitivo. No Brasil, a questão é outra. Quando vivi aqui, 55% da população tinha menos de 18 anos. Foi uma época em que o Brasil ganhava campeonato de vôlei com o Bernard, de futebol com o Zico. Fiquei com essa imagem na cabeça. Juventude é fundamental. Eu já passei dos 60, e é impossível ter a energia que tinha aos 40. Oxigenar é importante também para as empresas. Quando os jovens olham para cima e veem pessoas de 70, 80 anos, eles escolhem outras empresas até para começar a carreira. Tento, em meus negócios, replicar aquele clima de juventude que vi no Brasil dos anos 80.

O que falta para o Brasil atrair mais investimentos?
Todos os países lutam para receber investimento estrangeiro numa guerra sem quartel. É preciso estar muito disponível para atrair esse capital. Há uns quatro, cinco anos, deixei de fazer um investimento em uma fábrica de celulose no Mato Grosso do Sul, porque a AGU interpretou que os estrangeiros não podiam comprar mais de 5.000 hectares de terra. Era um investimento de 2,5 bilhões de dólares, e desisti. Quem está substituindo isso hoje é com o grupo Eldorado, com aporte do BNDES. Os brasileiros ocuparam lugar dos estrangeiros. Acho que isso não é bom. Meu projeto, de 370.000 hectares, foi para Moçambique, onde tenho direito de explorar a terra por 50 mais 50 anos.

O senhor não é criticado por investir no exterior?
Por um lado, todo mundo entende que as empresas portuguesas precisam se internacionalizar. Eu pago impostos e ajudo a enriquecer o país. Nos últimos dez anos, investi 2 bilhão de euros em Portugal no aumento da capacidade das fábricas de celulose, em compra de empresas. Compramos a Portocel, por exemplo. Investi 600 milhões de euros na fábrica de celulose mais moderna do mundo, em Setúbal. Ninguém pode falar que eu não investi em Portugal. Mas vivemos num mundo global, com países competindo para atrair o financiamento externo.

Que lições o senhor tirou em sua disputa societária com o grupo Espírito Santo?
É basicamente a seguinte. Para crescer, precisamos de capital. E não podemos subverter essa ordem para impressionar quem encontramos pela frente. Em Portugal, havia dois bancos privatizados – o Espírito Santo e o BCP. Os dois queriam ser líderes do mercado em Portugal. O BCP, sem controlador definido, emitia dinheiro e saía comprando. Dizia-se que acabaria comprando o país. O Espírito Santo não podia fazer isso, para não perder o controle. O Espírito Santo, liderado por Ricardo Salgado, não podia fazer isso sob risco de ser diluído e perder o controle. Então foi fazendo uma ginástica de emissão de dívida e multiplicando as holdings acima. Até que fez uma tentativa de compra das ações de minhas irmãs para ficar com minha holding. Quando percebi, tratei de defender minha posição e tive que reagir. Hoje eu e minha mãe temos 85% da holding. Tive que ir à Assembleia nacional dar explicações, inclusive. Foi uma questão triste. Mas que passou.

(Lucas Amorim)