O sufoco dos atores latinos

Lizette Alvarez
© 2016 New York Times News Service

MIAMI – Foi uma cena saída diretamente de uma telenovela suculenta, uma daquelas histórias de língua espanhola que mostram traições e romances nas telas de televisão do mundo todo.

No ano passado, Pablo Azar, astro mexicano de olhos verdes das novelas, saiu de uma limusine e caminhou pelo tapete vermelho em uma premiação em Miami, em meio ao caos habitual que cerca as celebridades. Os flashes das câmeras espocaram. Fãs gritaram. Azar, de 34 anos, abriu um largo sorriso e entrou.

Mas, após a premiação, ele fez algo que seu exército de admiradores jamais imaginaria: tirou o terno, subiu ao volante de seu carro e começou o seu turno como motorista do Uber, um emprego do qual depende quando está no intervalo dos trabalhos de atuação para pagar suas contas.

“No começo, tinha vergonha”, conta Azar, ator que mora em Miami e é muitas vezes reconhecido pelos amantes das telenovelas aqui e no exterior, em um estúdio de Wynwood onde também pinta e vende quadros. “Nossos fãs da América Latina que assistem às novelas pensam que somos milionários, que dirigimos Ferraris e vivemos em Beverly Hills.”

Apesar de seus seguidores devotados em todo o mundo, Azar e muitos outros atores que trabalham em novelas e gravam em Miami lutam para pagar as despesas entre um personagem e outro. Isto não acontece porque trabalham para uma empresa estrangeira: as novelas são produzidas pela Telemundo, uma rede de língua espanhola de propriedade da NBCUniversal, com sede em Miami (a Univision, sua rival, importa quase todas as suas novelas da Televisa, uma empresa mexicana).

E não é porque a Telemundo, que já foi uma empresa pequena, tem problemas financeiros: seus índices de audiência estão subindo tanto que, neste verão, ela está se vendendo como a quarta grande rede e agora bate a Univision rotineiramente entre o cobiçado público de 18 a 49 anos no horário nobre durante a semana. Além do mais, as telenovelas fazem um sucesso imenso na rede de televisão de língua espanhola.

A diferença é a seguinte: os programas de televisão da Telemundo são produzidos em espanhol, não em inglês, o que torna mais fácil para a rede argumentar que seus shows são diferentes dos outros feitos nos Estados Unidos. Como resultado, a Telemundo vem contornando com mais facilidade a pressão do sindicato da indústria da televisão, o SAG-AFTRA, que quer forçar a rede a chegar a um acordo.

Na verdade, a Telemundo é a única grande rede nos Estados Unidos que contrata atores profissionais, mas não produz seus programas com contratos do sindicato. Os astros da Telemundo garantem que seus salários geralmente não são tão altos quanto os dos atores de novelas americanas.

Agora, a empresa está enfrentando uma pressão por parte de muitos de seus atores que querem trabalhar sob a proteção do sindicato, em um momento em que a Telemundo está reinventando suas telenovelas – primas, por assim dizer, das novelas americanas, mas que usam esteroides. Ao contrário das histórias americanas, transmitidas ao longo de décadas, as telenovelas latinas muitas vezes ficam no ar por apenas um ano ou dois, ou, na Telemundo, um pouco mais se são bem sucedidas.

A Telemundo abalou o cenário das novelas, tornando-o muito mais descolado, ousado e diversificado. Ela grava em cidades como Chicago, Miami e Los Angeles – não apenas em lugares da América Latina – e explora temas como o mundo dos cartéis de drogas (as chamadas novelas narco), pessoas que atravessam a fronteira, famílias de imigrantes e impérios de empresas de transporte.

Esses assuntos têm atraído os homens e as audiências mais jovens nos Estados Unidos e em outros países, incluindo o narcotraficante mexicano recentemente capturado conhecido como El Chapo, Joaquín Guzmán Loera. Ele era tão apaixonado por “Reina del Sur” que se reuniu secretamente com a estrela da novela, Kate del Castillo, que interpretava uma traficante poderosa.

Mas, ao contrário das histórias americanas, cuja audiência despencou nos últimos anos, as novelas latinas permanecem imensamente populares. E, ao contrário de atores americanos de novela (ou a maioria dos atores de televisão) no país, os atores da Telemundo em Miami, a maioria residentes ou cidadãos legais dos Estados Unidos, não trabalham sob a proteção do sindicato.

Isso significa que não recebem seguro saúde, direitos por reprises e pelas vendas consideráveis para o mercado internacional ou cobertura para acidentes no set, que são bem comuns. Também não há salário mínimo garantido, embora isso não tenda a ser um problema tão grande.

Alguns deles já pertencem ao SAG-AFTRA porque trabalham em programas de língua inglesa. Mas uma vez que proferem “te quiero” em vez de “I love you”, sua proteção pelo sindicato – juntamente com os direitos e o seguro saúde – acaba.

“É um padrão duplo. Essa é fundamentalmente uma questão de justiça social para nós”, diz Steve Sidawi, diretor nacional de organização do sindicato.

Alguns atores da Telemundo que trabalham em Miami estão se comprometendo a assinar cartões sindicais e votar em uma eleição do sindicato, se tiverem a chance. Eles afirmam que a falta de proteção do sindicato para eles em Miami, onde a Telemundo está construindo uma sede de 250 milhões de dólares, desafia o senso comum em uma indústria onde o trabalho seguinte é sempre uma incógnita e os horários podem ser extenuantes.

Em um comunicado, a Telemundo disse que seus artistas eram livres para aderir ao sindicato e que o SAG-AFTRA poderia organizar uma votação secreta para que escolhessem se querem fazer isso, um processo estabelecido pelo Conselho Nacional de Relações do Trabalho.

“Estamos empenhados em fazer da Telemundo um ótimo lugar para os nossos funcionários trabalharem e continuamos a investir neles para garantir que seus salários e condições de trabalho sejam competitivos”, diz Alfredo Richard, vice-presidente da NBCUniversal Telemundo Enterprises, acrescentando que a rede criou centenas de postos de trabalho em Miami.

A Telemundo também oferece condições “exclusivas” para algumas de suas maiores estrelas, o que lhes dá benefícios mais generosos e contratos de longo prazo com a rede.

Mas Sidawi diz que uma maneira muito mais rápida para resolver a questão seria a empresa se reunir com os dirigentes sindicais e chegar a um acordo sobre a filiação ao sindicato. Mesmo uma eleição exigiria uma negociação sobre quem poderia votar, já que os atores da Telemundo vêm e vão, trabalham com contratos de curto prazo e estão espalhados pela América Latina e pelos Estados Unidos, explica.

Trabalhar com os sindicatos não é nada de novo para os atores de língua espanhola e da Telemundo. Quando a rede produz uma novela no México, país que a Telemundo às vezes escolhe como locação, os atores ficam cobertos pelo sindicato de lá. A mesma coisa acontece em vários outros países da América Latina.

“Em telenovelas, eles podem matar o seu personagem no meio das filmagens e você é pago por aquele dia e acabou. Não há quaisquer garantias”, conta Katie Barberi, de 44 anos, membro do SAG-AFTRA que já apareceu em 20 telenovelas, incluindo mais recentemente “Eva la Trailera”.

Atores de todos os lugares lutam para encontrar trabalho em um campo altamente competitivo. O incomum é que muitos dos astros das novelas latinas são famosos, com uma rede de fãs enorme e dedicada ao redor do mundo. Katie Barberi, por exemplo, tem uma linha de joias, a Mariposa Katie, que carrega o apelido de sua personagem, dona Bárbara.

No intervalo dos trabalhos, porém, alguns dos atores de Miami estão vendendo imóveis, desenhando camisetas, dirigindo para o Uber ou voltando para a América Latina, onde as condições profissionais são melhores. Azar disse que essa é uma parte de suas vidas pessoais que os intérpretes raramente divulgam; eles não querem que seus fãs saibam.

“Eles não querem que as pessoas vejam nossas vidas reais. isso acabaria com o sonho”, afirma Azar, que agora está trabalhando em uma nova novela chamada “La Fan”.