Montevidéu- O Uruguai rompeu nesta quinta-feira um tabu e começou a debater formal e legalmente a possibilidade do Estado legalizar o controlar a venda e produção de maconha no país, o que tem como objetivo combater o tráfico de drogas.

Com a discussão, o Uruguai se torna o primeiro país do mundo onde um governo debate a questão. O projeto, que foi anunciado há semanas, chegou na quarta-feira à noite ao Parlamento e tem somente um artigo de três parágrafos. Segundo a lei, ''o Estado assumirá o controle e a regulação das atividades de importação, produção, aquisição, armazenamento, comercialização e distribuição de maconha e seus derivados''.

Além disso, o projeto de lei especifica que ''o Estado exercerá toda a atividade material que resulte necessária, prévia concomitante ou posterior, para as atividades'' mencionadas, e esclarece que estas medidas serão exercidas ''no marco de uma política de redução de danos'' que alerte sobre ''os efeitos prejudiciais do consumo de maconha''.

Agora, a lei será debatida em ambas as câmaras do Parlamento, onde a governista coalizão Frente Ampla tem maioria, e provavelmente sofrerá modificações e acréscimos num processo que de acordo com os próprios congressistas se estenderá até 2013.

Julio Calzada, secretário-geral da Junta Nacional de Drogas (JND) do Uruguai, disse hoje à Agência Efe que a iniciativa ''não é a primeira'' que procura legalizar a circulação de maconha, mas sim a que reivindica ''o controle do Estado em toda a cadeia de produção''.

Para Calzada, esta intervenção estatal na produção e venda do produto tem o objetivo de tirar o controle do mercado dos traficantes.

''O projeto é um artigo único com cinco parágrafos, mas sua explicação de motivos tem dez páginas. Ali dizemos que pedimos uma regulação por parte do Estado de toda a cadeia, um projeto de saúde para reduzir riscos e danos causados pelas drogas. Isso é objetivo central'', acrescentou.

O responsável pelo combate às drogas no Uruguai destacou no entanto que uma das consequências mais importantes da iniciativa é abrir o debate sobre o assunto como nunca tinha sido feito antes, rompendo um tabu que há alguns seria impossível de quebrar.

Na oposição, o senador Luis Alberto Heber, líder do Partido Nacional, reconheceu este aspecto do projeto do governo mas lamentou que o governo desejasse transformar o Estado em ''produtor e vendedor de maconha''.

''Não entendemos e ainda esperamos que nos digam como pensam em controlar isso. De quem se compra a semente? Será importada? Aonde vai ser produzida? Serão funcionários públicos os vendedores? Como vai ser a rede de venda? Há muitas perguntas sobre uma decisão que para mim não é boa, mas um disparate'', criticou.

No entanto, Heber concordou que é preciso encontrar uma solução para os consumidores e plantadores domésticos de maconha, que vivem no meio da ''incongruência'' das leis, que autorizam o consumo mas penalizam o cultivo e o tráfico.

Outros legisladores, como o governista Sebastián Sabini, que apresentou há meses na câmara baixa um projeto para descriminalizar o cultivo para uso próprio, mostraram-se satisfeitos com a iniciativa do governo, mas sobretudo com a possibilidade de falar abertamente do assunto.

''Compartilho cem por cento com a tentativa de terminar com o narcotráfico pela via da regulação do mercado. É uma medida audaciosa e que não tenho dúvida que vai mudar a maneira como se discute a questão'', disse o deputado.

Sabini destacou que agora será possível debater o assunto no Parlamento e se chegar a um consenso tendo em vista que ''os esforços feitos até agora para deter o narcotráfico e o consumo fracassaram''.

Tópicos: Legislação, Maconha, Uruguai, América Latina