São Paulo – A destituição do presidente Viktor Yanulovich, aliado da Rússia, foi uma vitória dos manifestantes que tomaram conta das ruas de Kiev desde novembro de 2013.

Contudo, essa possível troca de poder – de um governo submisso a Vladimir Putin para um governo pró-Europa – pode se complicar por conta de uma única região: a Crimeia.

A Ucrânia está, virtualmente, separada em duas: o lado ocidental foi palco das manifestações e queria a queda do presidente, assim como a integração com a União Europeia. É onde fica a capital Kiev.

Já o lado oriental – cidades como Sepastopol, Donetsk e Kharkov – gosta da influência dos russos e não compactuou com os protestos.

Na região, a maioria fala russo e é de etnia russa. Antes de toda a Ucrânia ser anexada pela União Soviética, as zonas do leste já pertenciam aos soviéticos.

A Crimeia também é uma dessas “zonas russas” na Ucrânia. Localizada no extremo sudeste, é uma região autônoma do país com quase dois milhões de habitantes.

A península pertenceu aos russos até 1954, quando foi transferida para a administração de Kiev por Nikita Khrushchev – ele mesmo de etnia ucraniana.

Até hoje a Crimeia tem maioria da população de origem russa - 90% falam a língua. Assim, sua população preferiria continuar sobre a forte influência de Putin.

Segundo a Time, já se fala na região que eles podem não reconhecer o novo governo ucraniano – as eleições estão previstas para maio. 

O porta-voz do parlamento da Crimeia, Volodymyr Konstantynov, disse não descartar a possibilidade da região se separar de vez de Kiev.

Tal conflito poderia gerar uma guerra civil no país, com fins separatistas. E a Rússia iria lutar para que a Crimeia ficasse sob a sua influência após a partilha.

Segundo o Financial Times, um oficial russo disse que o país poderá entrar na briga: “Se a Ucrânia se separar, isso irá encadear uma guerra”. 

O presidente deposto teria, inclusive, viajado até a Crimeia, para dali, com a ajuda da base naval russa, fugir de navio até a Rússia. 

Importância

A Rússia tem uma ligação histórica com a Crimeia. Desde o século 18 ela já pertencia aos russos – tomada dos otomanos após séculos.

Antes da União Soviética, a região era chamada de “playground dos czares”, por ser uma região de clima ameno, perfeita para as viagens de férias.

No século 19, a Guerra da Crimeia travada entre o czar Nicolau I e as potências europeias terminou com o fim das ambições expansionistas dos russos, que tinham tomado regiões do Império Otomano.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Stálin deportou a população de origem crimeia-tártara da região, deixando somente os russos no local. A maioria dos deportados acabou morrendo de fome.

Putin se importa com a região por concentrar portos e bases navais cruciais para seu governo.

Na cidade de Sebastopol, ele mantém a Frota do Mar Negro. Recentemente, estendeu o prazo para usar livremente a região. Em troca, deu um desconto de 30% no gás aos ucranianos.

Dificuldades

A escolha da população da Crimeia pela Rússia poderá não ser tão fácil ou unânime assim.

Sim, a grande maioria é de etnia russa: 58.5%. Mas ainda há 24,4% de ucranianos e 12,1% de habitantes de origem tártara. Estes não esqueceram o massacre de seu povo por Stálin.

Sua economia também está muito ligada à Ucrânia. Muitos empresários multimilionários locais teriam dificuldades se esses laços se rompessem.