Lisboa - O novo gabinete português decidiu "suspender" a construção do trem de alta velocidade entre Lisboa e Madri, inicialmente previsto para 2013, segundo o programa de governo entregue nesta terça-feira ao Parlamento.

A medida é considerada uma das principais novidades da nova administração portuguesa, que promete aplicar "escrupulosamente" o plano de ajuda financeira concluído em maio com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional, anunciando que pretende "mais ambição", em matéria de ajuste fiscal.

Unir Madri a Lisboa em menos de três horas com o trem de alta velocidade (AVE) foi considerado pelo novo governo um projeto ambicioso, que tinha sido adiado, antes, de 2010 para 2013, e que acabou de ser comprometido, após a vitória, nas eleições portuguesas, da centro-direita, que tem como principal objetivo economizar.

Pedro Passos Coelho, do Partido Social Democrata (PSD), vencedor da eleição, centrou a campanha nas medidas de ajuste que devem ser aplicadas no país, indo além do exigido pelo rigoroso programa do acordo com a União Europeia (UE) e com o Fundo Monetário Internacional (FMI), em troca de um empréstimo de 78 bilhões de Euros.

Da parte portuguesa, o projeto, com orçamento de 3,3 bilhões de euros, tinha avançado pouco: o trajeto Lisboa-Poceirão foi motivo de uma abertura de licitação, depois cancelada e adiada; no trajeto Poceirão-Caia, próximo da fronteira, as obras, previstas para o início de 2011, nunca começaram.

No lado espanhol, no entanto, onde o orçamento chega aos 3,8 bilhões de euros, a ferrovia avança desde que começaram as obras em 2007, e está prevista para ser entregue em 2013. Segundo o gestor da rede ferroviária espanhola (Adif), aproximadamente a metade do trajeto já está em obras.

A Espanha, que fez cortes em projetos de obras públicas por problemas econômicos, continua apostando no transporte de trens de alta velocidade, e desde dezembro é o país europeu com a maior malha ferroviária.

"Decidir suspender o projeto seria um erro estratégico que é claro, nos prejudicaria, mas também a Portugal. Seria um erro histórico deixar Portugal isolado da conexão com Madri, do restante da Espanha e da Europa", afirma Dolores Pallero, vice-presidente do governo regional de Estremadura, a oeste de Madri, que tem tudo a ganhar com a linha férrea.

"É necessário reforçar o compromisso para impulsionar e concluir as infraestruturas acordadas entre os dois governos", porque esta linha é de "vital importância" para a região, afirmou a Confederação de Empresários em comunicado, defendendo, em caso de uma desistência de Portugal, manter pelo menos uma linha Madri-Estremadura.

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