São Paulo – Mesmo com a queda do presidente Viktor Yanukovych, a situação na Ucrânia só piora.

Com tropas russas fixadas na região da Crimeia, o governo russo já deu um ultimato às tropas ucranianas. 

Um conflito na região é iminente, deixando claro o tom de desafio de Vladimir Putin – e que ele não teme o Ocidente.

A nota oficial do governo russo sobre a Ucrânia mostra como Putin realmente enxerga o país vizinho – e como pretende agir no futuro próximo.

O texto, na íntegra, pode ser lido aqui, em inglês.

A seguir, os cinco principais trechos traduzidos por EXAME.com e o que eles realmente significam:

1.

“A situação na Ucrânia se deteriorou rapidamente. O acordo entre o presidente Yanukovych e a oposição, em 21 de fevereiro, foi destruído por líderes da oposição: o legítimo Chefe de Estado, que deveria permanecer em seu cargo, foi expulso do país. (...) O modo como os líderes dos protestos tratam suas palavras e acordos não é surpresa para nós. Mas é assustador como os mediadores internacionais que selaram esse acordo se declararam a favor da nova situação posteriormente [a queda de Yanukovych]”.

O que isso significa: que o Kremlin não reconhece o atual governo da Ucrânia. Putin também deu abrigo a Yanukovych, que disse à imprensa que se ainda se considera o legítimo líder do país.

2.

“O poder político em Kiev se concentrou nas mãos de extremistas de direita que não escondem as suas credenciais xenófobas, antissemitas e neofascistas. Sem surpresa, uma das primeiras novas regras aprovadas foi sobre abolir a lei das línguas regionais, o que preocupa os ucranianos que falam russo e também aqueles da Bulgária, da Romênia e da Grécia. Isso coincide com uma campanha de intimidação da população de etnia russa e a destruição de monumentos que celebram as realizações históricas em comum de Rússia e Ucrânia”.

O que isso significa: Putin está tentando justificar uma ação no país a como “legítima defesa”: os russos na Ucrânia estariam sendo ameaçados pelo nacionalismo dos opositores.

Realmente, 58,5% a população da Crimeia é de etnia russa e os dois países têm uma longa história em comum. Mas é justamente contra a influência abusiva de Moscou na Ucrânia – o que afasta o país da União Europeia – que os manifestantes lutam desde novembro de 2013.

3.

“A situação da comunidade russa na Crimeia é particularmente preocupante. Conforme os protestos se intensificaram, o povo da Crimeia foi acusado de separatismo e tratado com força bruta. Na noite do dia 1º de março, homens armados foram enviados de Kiev até a Crimeia e tentaram tomar o prédio do Ministério do Interior. Somente ações de grupos de autodefesa foram capazes de impedir essa ação, que deixou muitas pessoas feridas”.

O que isso significa: novamente, Putin usa o pretexto do povo russo ameaçado dentro da Ucrânia para justificar uma possível intervenção. A região da Crimeia, pode-se dizer, é “separatista”: durante as manifestações nas cidades do oeste, contra o governo, manifestações pró-Rússia tomavam as cidades do leste – e as ruas da Crimeia.

4.

“Diante dessa situação, o primeiro-ministro da Crimeia, Sergey Aksenov, pediu às autoridades russas assistência para manter a paz na península”.

O que isso significa: o governo russo está dizendo que tudo o que fez – e fará – foi a pedido da própria Crimeia e dos ucranianos.

5.

“Dada essa situação extraordinária na Ucrânia e a ameaça do povo russo na Ucrânia, o Presidente Vladimir Putin foi compelido a usar seus poderes constitucionais e pedir, no Parlamento, o uso das Forças Armadas Russas em território ucraniano, visando a normalização da ordem pública e política no país. O pedido foi acatado. Entretanto, não significa que o Presidente usará seus poderes imediatamente”.

O que isso significa: o governo deixa clara que o envio de tropas à Ucrânia está totalmente dentro da lei; e que Putin não vai usar, necessariamente, a força – não imediatamente.