Aguarde...

Europa | 03/03/2014 15:17

Nota oficial russa sobre a Ucrânia: reveladora e preocupante

Texto do governo russo deixa claro que Vladimir Putin não reconhece o governo interno ucraniano – e isso é um mau sinal

Thomas Peter/Reuters

Homens armados montam guarda na cidade portuária de Feodosiya, na região da Crimeia, na Ucrânia

Homens armados montam guarda na cidade portuária de Feodosiya, na região da Crimeia, na Ucrânia

São Paulo – Mesmo com a queda do presidente Viktor Yanukovych, a situação na Ucrânia só piora.

Com tropas russas fixadas na região da Crimeia, o governo russo já deu um ultimato às tropas ucranianas. 

Um conflito na região é iminente, deixando claro o tom de desafio de Vladimir Putin – e que ele não teme o Ocidente.

A nota oficial do governo russo sobre a Ucrânia mostra como Putin realmente enxerga o país vizinho – e como pretende agir no futuro próximo.

O texto, na íntegra, pode ser lido aqui, em inglês.

A seguir, os cinco principais trechos traduzidos por EXAME.com e o que eles realmente significam:

1.

“A situação na Ucrânia se deteriorou rapidamente. O acordo entre o presidente Yanukovych e a oposição, em 21 de fevereiro, foi destruído por líderes da oposição: o legítimo Chefe de Estado, que deveria permanecer em seu cargo, foi expulso do país. (...) O modo como os líderes dos protestos tratam suas palavras e acordos não é surpresa para nós. Mas é assustador como os mediadores internacionais que selaram esse acordo se declararam a favor da nova situação posteriormente [a queda de Yanukovych]”.

O que isso significa: que o Kremlin não reconhece o atual governo da Ucrânia. Putin também deu abrigo a Yanukovych, que disse à imprensa que se ainda se considera o legítimo líder do país.

2.

“O poder político em Kiev se concentrou nas mãos de extremistas de direita que não escondem as suas credenciais xenófobas, antissemitas e neofascistas. Sem surpresa, uma das primeiras novas regras aprovadas foi sobre abolir a lei das línguas regionais, o que preocupa os ucranianos que falam russo e também aqueles da Bulgária, da Romênia e da Grécia. Isso coincide com uma campanha de intimidação da população de etnia russa e a destruição de monumentos que celebram as realizações históricas em comum de Rússia e Ucrânia”.

O que isso significa: Putin está tentando justificar uma ação no país a como “legítima defesa”: os russos na Ucrânia estariam sendo ameaçados pelo nacionalismo dos opositores.

Realmente, 58,5% a população da Crimeia é de etnia russa e os dois países têm uma longa história em comum. Mas é justamente contra a influência abusiva de Moscou na Ucrânia – o que afasta o país da União Europeia – que os manifestantes lutam desde novembro de 2013.

3.

“A situação da comunidade russa na Crimeia é particularmente preocupante. Conforme os protestos se intensificaram, o povo da Crimeia foi acusado de separatismo e tratado com força bruta. Na noite do dia 1º de março, homens armados foram enviados de Kiev até a Crimeia e tentaram tomar o prédio do Ministério do Interior. Somente ações de grupos de autodefesa foram capazes de impedir essa ação, que deixou muitas pessoas feridas”.

O que isso significa: novamente, Putin usa o pretexto do povo russo ameaçado dentro da Ucrânia para justificar uma possível intervenção. A região da Crimeia, pode-se dizer, é “separatista”: durante as manifestações nas cidades do oeste, contra o governo, manifestações pró-Rússia tomavam as cidades do leste – e as ruas da Crimeia.

4.

“Diante dessa situação, o primeiro-ministro da Crimeia, Sergey Aksenov, pediu às autoridades russas assistência para manter a paz na península”.

O que isso significa: o governo russo está dizendo que tudo o que fez – e fará – foi a pedido da própria Crimeia e dos ucranianos.

5.

“Dada essa situação extraordinária na Ucrânia e a ameaça do povo russo na Ucrânia, o Presidente Vladimir Putin foi compelido a usar seus poderes constitucionais e pedir, no Parlamento, o uso das Forças Armadas Russas em território ucraniano, visando a normalização da ordem pública e política no país. O pedido foi acatado. Entretanto, não significa que o Presidente usará seus poderes imediatamente”.

O que isso significa: o governo deixa clara que o envio de tropas à Ucrânia está totalmente dentro da lei; e que Putin não vai usar, necessariamente, a força – não imediatamente.

 

Comentários (0)  

Editora Abril

Copyright © Editora Abril - Todos os direitos reservados