O chumbo na água em Flint, Michigan, é um lembrete devastador de como a saúde humana está fortemente entrelaçada com o meio ambiente.

Embora a crise em Flint possa ser um exemplo notório de crueldade e negligência, as consequências nefastas de um ambiente poluído estão à nossa volta, mostra um novo relatório da Organização Mundial da Saúde.

Quase um quarto de todas as mortes no mundo são causadas por riscos ambientais, como ar poluído, água suja, locais de trabalho arriscados e estradas perigosas, de acordo com o relatório da OMS.

A autoridade mundial de saúde estima que 12,6 milhões de mortes em 2012, ou cerca de 23 por cento do total, são atribuíveis a esses fatores.

O fardo é maior para as pessoas mais pobres do mundo e para os mais jovens. A mortalidade por riscos ambientais é maior na África subsaariana e países asiáticos de baixa e média renda.

Os riscos afetam desproporcionalmente as crianças “por causa de sua vulnerabilidade inata”, disse Frederica Perera, diretora do Centro para a Saúde Ambiental de Crianças de Columbia e professora da Faculdade de Saúde Pública Mailman da universidade. E esses riscos não são teóricos.

“Esses impactos são sentidos hoje, em todo o mundo, mais severamente nos países em desenvolvimento, mas também aqui neste país”, disse Perera. “Verificamos impactos da poluição aqui mesmo na cidade de Nova York”.

O relatório da OMS – que não conta os riscos que dependem do comportamento individual, como tabagismo e dieta – analisa o ambiente de forma ampla, incluindo “fatores físicos, químicos e biológicos externos a uma pessoa” que podem ser modificados.

Ele se concentra nos riscos ambientais que são produto das decisões sociais que moldam o mundo em que vivemos. “Alguns desses fatores ambientais são muito conhecidos, tais como água não potável e saneamento, poluição do ar e aquecimento interno; outros, nem tanto, como as alterações climáticas ou o ambiente construído”, diz o relatório da OMS.

Há uma grande dose de adivinhação na tentativa de estimar o número mundial de ambientes insalubres. A quantidade real de mortes que podem ser atribuídas ao meio ambiente provavelmente se encontra no intervalo entre 13 por cento e 34 por cento, de acordo com o relatório.

Para chegar a esses números, a OMS analisou estudos sobre riscos em mais de 100 tipos de doenças e lesões: como a poluição do ar afeta as doenças cardiovasculares, por exemplo, ou como o estresse do ambiente de trabalho afeta a saúde mental. O grupo também entrevistou mais de cem especialistas.

Os tipos de doenças envolvidas mudaram durante os dez anos desde que a OMS publicou um relatório similar. Mais pessoas em todo o mundo obtiveram acesso à água limpa, ao saneamento e a combustíveis menos nocivos para cozinhar.

Essa transição levou a uma queda em doenças infecciosas. Ao mesmo tempo, as doenças não transmissíveis, como doenças cardíacas e câncer, respondem por uma parcela crescente das mortes e doenças em todo o mundo.

O relatório da OMS poderia subestimar o custo total dos riscos ambientais para a saúde, de acordo com especialistas, como Perera e Joseph Allen, professor assistente na Faculdade de Saúde Pública T. H. Chan, de Harvard.

Isso acontece em parte porque os efeitos das alterações climáticas são difíceis de prever, como o relatório admite. “A mudança climática está agravando quase todas as questões de saúde ambiental que temos”, disse Allen.

A boa notícia é que os riscos identificados no relatório são, por definição, modificáveis. Medidas simples, como um maior acesso à água potável e à higiene, poderiam gerar um impacto imediato.

Mas, como tanta poluição e outros danos ambientais são consequências do comércio, corrigir o problema exigiria mudanças no modo em que fazemos negócios.

“Ações de setores como energia, transporte, agricultura e indústria são vitais, em cooperação com o setor da saúde, para abordar as principais causas ambientais dos problemas de saúde”, diz o relatório.

O mundo já fez isso antes, em pequena e em grande escala. Quando Pequim fechou temporariamente fábricas para limpar o ar durante os Jogos Olímpicos de 2008, os bebês nascidos logo depois tinham maior peso, descobriram os pesquisadores.

E, nos Estados Unidos, depois da remoção do chumbo da gasolina – algo que contou com a oposição da indústria de petróleo durante anos – houve quedas significativas no nível de chumbo no sangue das crianças.

Tópicos: Meio ambiente, OMS, Poluição, Saúde