Teerã - Os esforços do novo governo iraniano em se reconciliar com a comunidade internacional e a inesperada conversa telefônica entre o presidente do país, Hassan Rohani, com o americano, Barack Obama, abriram um debate no Irã sobre a conveniência de manter o slogan "Morte à América".

O violento lema ("Marg bar Amrika " em persa) é escutado todas as sextas-feiras durante a oração muçulmana do meio-dia nas mesquitas e serve para animar os líderes nos atos oficiais, além de ser entoado nas manifestações públicas.

As crianças começam diariamente a sua jornada nas escolas públicas cantando o hino nacional e em alguns centros ou em datas específicas repetem também o "Morte à América". Em protestos e manifestações esta retórica às vezes é combinada com a queima da bandeira israelense com outro grito: "Morte a Israel".

Mas isso não gera uma boa imagem para um Irã que, desde a eleição de Rohani em junho, tenta se conciliar com o mundo e aliviar as duras sanções que nos últimos anos deixou em pedaços sua economia e o condenaram a uma inflação galopante.

No começo deste mês, o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani foi um dos primeiros a falar sobre o tema, ao assegurar em seu site que não era partidário do uso do lema e que o já falecido aiatolá Khomeini, fundador da República Islâmica, também não era.

"Pessoalmente, me oponho a essa retórica forte e ofensiva. Ela não é construtiva", declarou mais tarde à imprensa ele que é considerado um grande nome da política iraniana.

Diversos clérigos islâmicos lembraram que no passado se gritava também "Morte aos soviéticos", expressão que foi abandonada após a melhora das relações com Moscou.

Evidentemente, a repercussão dessas novas ideias não demoraram a aparecer.

Mohammad Reza Naqdí, chefe das milícias dos voluntários islâmicos Basij, declarou ao site "Jam News" que "um grupo de extremistas e centristas (em referência ao ex-presidente Rafsanjani) levaram a obscenidade a um ponto no qual faltam com respeito com o povo do Irã e com mentiras e enganos pedem às pessoas que deixem seu slogan de "Morte à Arrogância"" (outra forma de fazer referência aos EUA).

O comandante do Exército dos Guardiões da Revolução Islâmica, Mohammad Ali Jafari, também declarou que os iranianos não vão acreditar que o aiatolá Khomeini não aprovaria o slogan contra os EUA e afirmou que "há pessoas que querem manipular as declarações do falecido".

Outro conservador, o aiatolá Ahmad Khatami, um dos clérigos mais influentes do regime teocrático iraniano, acredita que "alguns querem acabar com o sentimento de ódio aos EUA", um sentimento que considera totalmente justificado, e advertiu sobre o perigo de "parecerem fracos" perante a Casa Branca, de acordo com a agência oficial de notícias iranianas "Irna".

Este é um debate que, até bem pouco tempo, era inimaginável na esfera pública iraniana, e que agora se transferiu também para as ruas.

"É preciso abandonar esta prática, porque a maioria das pessoas quer melhorar as relações com os EUA. Só uma minoria se opõe", declarou à Agência Efe Akbar, um taxista do oeste de Teerã.

Segundo ele, aqueles que repetem o lema "não o sentem de coração" porque sabem que "dos EUA vêm remédios e produtos que eles gostam".

Diferentemente do pensamento do taxista, um grupo que não revelou o nome convocou recentemente na internet o "Grande Prêmio Internacional de Abaixo América". Trata-se de um concurso em que poderão concorrer fotografias, caricaturas, cartazes, vídeos, documentários, blogs e hinos com essa temática. Os ganhadores receberão prêmios que variam entre 20 milhões e 100 milhões de rials (cerca de R$ 524 e R$ 7.491).

O assunto tende a ser ainda motivo de muitas discussões. Os setores mais conservadores do Irã criticaram a aproximação do atual presidente com a Casa Branca e os 15 minutos de conversa telefônica com Obama, a primeira direta entre um chefe de estado iraniano e um americano em mais de três décadas.

Durante sua chegada ao aeroporto na volta da Assembleia geral da ONU Nova York, Hassan Rohani foi recebido por alguns radicais que o insultaram e lançaram ovos. Além disso, uma organização encheu Teerã de cartazes antiamericanos advertido contra a aproximação de Washington, o Grande Satã na retórica oficial iraniana. Nesta semana a prefeitura retirou todos eles da cidade.

O debate acontecerá no próximo dia 4, data em que o Irã lembra o aniversário da tomada da Embaixada americana em 1979, com a captura de 52 americanos que foram mantidos reféns durante 444 dias.

Como em todo ano, esse dia é celebrado com grandes manifestações na frente do edifício que abrigava a representação americana. Acredita-se que os mais radicais repetirão os gritos muitas vezes com o claro objetivo de deixar clara a intenção de mantê-lo vivo. 

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