Yaoundé - O exército de Camarões luta há mais de um ano contra o grupo terrorista nigeriano Boko Haram na região da fronteira entre os dois países, onde, além dos islamitas radicais, lhe aguarda um inimigo inesperado e invisível: o estresse pós-traumático dos horrores vividos.

Serge é um suboficial do exército camaronês que está há vários meses na região do Extremo Norte, a mais afetada pelos ataques do Boko Haram. Após outro dia de batalha, ele retorna do front cansado e, desta vez, também desanimado pelos poucos progressos da luta.

"Não estamos preparados para uma guerra tão longa, e alguns de nós sequer tínhamos atirado em alguém antes", contou ele à Agência Efe.

Já na barraca, as noites são longas e estressantes: há gritos, prantos e delírios de soldados que não sabem como assimilar o que viram.

Os métodos do Boko Haram são brutais, e sua estratégia, simples. Seja em um atentado suicida ou em um ataque a uma cidade, seus militantes são implacáveis e usam todas as táticas que têm a seu alcance para aterrorizar a população local.

"Os corpos mutilados dos moradores, crianças sequestradas, torturadas e até mesmo estripadas, os corpos decapitados de nossos companheiros... é difícil viver com isso", contou Francis, outro suboficial que está em Mora, uma pequena cidade que fica a poucos quilômetros da fronteira com a Nigéria.

Desde o final de 2014, o grupo jihadista realizou mais de 30 ataques em solo camaronês, com um saldo de mais de 300 mortes, a última delas na segunda-feira, quando um homem detonou um colete de explosivos em uma mesquita no norte do país e matou quatro pessoas.

Ninguém fala disso, mas a imprensa camaronesa começa a informar sobre aparentes casos de suicídio entre os soldados que passam muito tempo no front. Nem Serge nem Francis querem confirmar esses dados, mas os rumores crescem com força.

"Alguns encontram consolo no álcool, e outros o buscam em seus camaradas. Não levamos em conta o que possam fazer porque sabemos que, antes de virem pra cá, não eram assim", acrescentou Serge, reconhecendo que os combatentes não recebem nenhum tipo de apoio psicológico.

Há dois meses, a Brigada de Intervenção Rápida (BIR), força de elite do exército camaronês, decidiu aumentar o número de soldados em atuação no Extremo Norte de 1.600 para 2.400 para que houvesse mais rotação entre as tropas, que precisam de descanso após meses cheios de tensão e combates.

O governo camaronês, através do porta-voz do Ministério da Defesa, o coronel Didier Badjeck, evitou comentar à Efe a situação psicológica dos soldados na frente de batalha, alegando que é um tema estritamente militar.

Médico do hospital militar de Yaoundé, para onde são enviados os soldados feridos no front, doutor Mbozo também se recusa a fazer qualquer comentário alegando que "as operações no terreno seguem em andamento, e tudo o que acontece lá é confidencial".

Psicopatologista com amplos conhecimentos do estresse pós-traumático, doutor Baliaba lembrou que a guerra "é uma situação conflituosa que requer enormes recursos estratégicos.

"Em uma situação de urgência, cerca de 20% da população sofre de transtornos de comportamento", declarou.

O aspecto psicológico é tratado com menos frequência do que deveria, segundo Baliaba. "A guerra obriga a passar por um luto que se manifesta através da insônia, da irritabilidade e da psicose generalizada", o que transforma qualquer soldado "em um perigo para si mesmo e para seu companheiros no front", explicou.

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