São Paulo – Na semana em que a guerra civil na Síria completa 5 anos, começam em Genebra (Suíça) as negociações de um possível acordo de paz envolvendo representantes do governo de Bashar al-Assad e das forças de oposição e com a mediação da ONU.

Com o anúncio de que a Rússia irá retirar parcialmente o seu exército da Síria, manobra essa que foi vista por diplomatas como um sinal para que Assad leve as negociações à sério, restam dúvidas sobre os próximos capítulos desse conflito que assola o país e que gerou a maior crise de refugiados já vista desde a Segunda Guerra Mundial.

Não será fácil, ainda mais quando se considera o caráter complexo que esse conflito aos poucos adquiriu a ponto de ter sido chamado de “miniguerra mundial” pelo jornal americano The Washington Post.

Pudera: além de ser palco de confrontos entre tropas de Assad e insurgentes, o país teve o seu território retaliado e população dizimada pela ação de grupos terroristas como o Estado Islâmico (EI) e a Frente Al-Nusra (Frente).

Para entender o que acontece no país e as perspectivas para o fim dessa guerra, EXAME.com conversou com dois especialistas no assunto, os analistas Kathleen Reedy, cientista política da RAND Corporation, e Ghadi Sary, analista do Programa de Estudos em Oriente Médio e Norte da África da Chatham House.

EXAME.com - O que esperar das negociações em Genebra?

Kathleen Reedy- “Sou otimista, mas cética quanto às negociações de paz. Apesar de existirem relatos de violações do acordo de cessar-fogo (em vigor desde o final de fevereiro), a violência reduziu drasticamente, o que mostra a boa vontade de todos os atores (com exceção do EI e da Frente) em participar dos esforços por uma resolução pacífica. Eu não acho que essa negociação será mais ou menos bem-sucedida que as outras, mas pode ser a primeira de uma série a resultar em alguma solução.

Precisamos ficar de olho na Turquia e quem eles estão apoiando. O país é uma das partes mais selvagens em todo esse processo, pois suas ações têm sido imprevisíveis e mais provocativas do que se imaginava. A preocupação do governo turco em relação à questão curda na Síria, no Iraque e na Turquia parece ser o seu foco de atenção. ”

Ghadi Sary - “Há uma série de relatos de violações de cessar-fogo, mas de alguma maneira ele conseguiu se consolidar. A construção da confiança entre as partes leva tempo, mas esse cessar-fogo deu espaço para conversas mais construtivas nos bastidores sobre o futuro da transição da Síria e em público e em público sobre os grupos que participariam das negociações de paz.

Eu acredito que esses dois pontos serão essenciais para as discussões de Genebra e esse esclarecimento é muito importante para levar a discussão do cessar-fogo até uma resolução definitiva. ”

EXAME.com - É possível alcançar a paz por meio de negociações que não incluam atores extremistas como Frente al-Nusra e o Estado Islâmico?

Kathleen Reedy - “Na minha visão, não há como conseguirmos a paz com o envolvimento do EI e da Frente. E isso por conta da razão de luta desses grupos: o fim de um sistema de Estado e a sua substituição por um califado.

Já os grupos opositores, e o governo sírio, claro, lutam por uma visão de como deveria ser a Síria, mas com base na crença de que o Estado deveria ser independente, com suas fronteiras atuais e se relacionando com a comunidade internacional.

Esses grupos pertencem à mesa de negociações, pois dividem um fim comum, com algumas diferenças de perspectiva que estão nos detalhes. O EI e a Frente, contudo, estão advogando por um califado, algo que apagaria as fronteiras e implementaria uma ordem política que não se vê há séculos. Não há interesse comum, então envolve-los, teoricamente, seria inútil.

Além disso, os níveis e o tipo de violência indiscriminada que eles promovem, particularmente contra civis, reduzem drasticamente qualquer apoio genuíno entre a população.

O fato de eles dependerem de combatentes estrangeiros nos diz que eles não têm o apoio popular que grupos opositores e até mesmo o governo têm. Enquanto EI e a Frente estiverem operando na Síria ou países vizinhos, não haverá uma paz verdadeira. ”

Ghadi Sary - “Acho que seria impossível atingir a paz com esses dois grupos por conta das suas manifestações políticas, uma vez que ambos estão envolvidos no movimento jihadistas global, com a Frente publicamente afiliada à rede Al Qaeda.

Contudo, isso não é igualmente aplicável para todos os grupos islâmicos em atividade no país. A questão hoje é em relação à ambiguidade entre os diferentes atores da classificação do grupo Ahrar Al Sham, que seria a maior organização jihadistas no país, mas uma que os líderes sunitas estão pressionando para ter presente nas negociações. ”

EXAME.com - No longo prazo, qual seria uma solução sustentável para os conflitos na Síria?

Kathleen Reedy – “É preciso uma negociação séria com as partes interessadas em manter a Síria como a Síria. O primeiro passo é um cessar-fogo permanente, possivelmente com a presença de tropas de paz. O segundo é a formação de um novo governo e todos os envolvidos precisam acreditar que isso acontecerá para permanecerem vinculadas ao cessar-fogo.

A questão do papel de Assad terá de ser discutida (o que pode ser um ponto de discórdia) e será preciso lidar com o EI e a Frente. Mas uma vez que um novo governo esteja em atividade, será possível começar a destruí-los.

As potências globais terão de estar envolvidas para conseguir levar seus aliados à mesa e para agir como garantidores. Elas também serão importantes para manter o EI e a Frente longe de estragarem o cessar-fogo e prejudicarem o novo governo. Mas é difícil dizer se teremos esse nível de engajamento. “

Ghadi Sary - “Governança é a chave para qualquer resolução de conflito na Síria, com foco na descentralização para permitir que as diferentes comunidades consigam se reconstruir economicamente e socialmente, com mais representação e recursos alocados nas estruturas regionais. Essas negociações de paz seriam as melhores oportunidades para se discutir essas questões, assim como o cessar-fogo se tornou possível. ”

EXAME.com - Como você enxerga os desdobramentos desse conflito nos próximos 5 a 10 anos?

Kathleen Reedy – “Geralmente é preciso de até 17 anos depois de o fim de um conflito para que os refugiados voltem para casa. Considerando que a situação dos refugiados já é de crise, eu diria que as implicações humanitárias se estenderão para além de dez anos.

Essa onda de refugiados é uma das questões que está ajudando os partidos de extrema-direita a ganharem apoio na União Europeia, e isso poderá ter consequências para o tipo e quantidade de ajuda humanitária que estará disponível nos próximos anos.

Na Síria, a destruição de cidades, monumentos históricos, negócios e instituições econômicas devastou o país e mesmo que se chegue a uma solução amanhã, levará anos para trazer o país ao estado pré-guerra. A reconstrução econômica precisará de um investimento financeiro tão massivo e extenso, que eu francamente não acredito que a comunidade internacional estará disposta a apoiar considerando os problemas globais.

Milhões de deslocados não poderão retornar para casa, pois não haverá nada para eles. E com a presença contínua do EI e da Frente, novos grupos extremistas poderão aparecer. Mas se tem uma coisa que os protestos pacíficos em Aleppo têm nos mostrado que os sírios são resilientes. “

Ghadi Sary - “Esse conflito expôs a falência da ordem internacional em restaurar a paz. A Síria foi um importante ator nessa região e as repercussões de ter se desintegrado nessa guerra civil foram sentidas em todo o mundo, especialmente no que diz respeito à habilidade das leis internacionais para proteger os civis durante a guerra e na crise de refugiados.

Contudo, acredito que há chances de o espírito humanitário ressurja depois de um acordo que possa reconstruir o país e que faça com que os refugiados retornem, trazendo alguma estabilidade para a região. ”

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