Minorias sofrem com políticas antirrefugiados da Hungria

A grande maioria dos mais de 300 mil refugiados que passou pela Hungria neste ano veio de países em conflito como Síria, Afeganistão e Paquistão

Budapeste – Os muçulmanos e os ciganos da Hungria vivem um momento difícil e denunciam que a campanha antirrefugiados promovida pelo governo conservador, que criminaliza os estrangeiros e adverte que sua chegada acabará com as essências do país, provocou um aumento da rejeição social a eles.

“A batalha contra a imigração e contra o islã teve efeito. Recebemos dezenas de cartas e mensagens cheias de ódio”, contou à Agência Efe o presidente da Comunidade Islâmica da Hungria, Zoltan Bolek.

A grande maioria dos mais de 300 mil refugiados que passou pela Hungria a caminho da Alemanha neste ano veio de países em conflito como Síria, Afeganistão e Paquistão, onde a população é majoritariamente muçulmana.

O governo do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, enviou há alguns meses a milhares de famílias um questionário, intitulado “Consulta Nacional sobre a Imigração e o Terrorismo”, para conhecer a opinião dos cidadãos sobre a imigração.

“Alguns acreditam que a imigração está relacionada à expansão do terrorismo. Você concorda com isso?”, era uma das perguntas da pesquisa.

Orban também insiste que a imigração de muçulmanos põe em risco as culturas húngara e europeia e suas raízes cristãs.

“Muitas vezes querem nos mandar de volta para ‘casa’ e nos fazem ameaças. Também houve um aumento das ameaças e agressões a mulheres jovens com véu nas ruas ou no transporte público. Em alguns casos, elas são empurradas e os agressores tentam tirar o véu delas”, relatou o presidente de uma comunidade que tem, aproximadamente, 50 mil membros, entre eles 10 mil com nacionalidade húngara, em um país de 10 milhões de habitantes.

Essa pressão, segundo Bolek, diminuiu um pouco desde que Orban se pronunciou contra a islamofobia em discurso na Assembleia Geral da ONU.

O primeiro-ministro disse que “o responsável pela imigração não é o Islã” e acrescentou que “é preciso fazer de tudo para que a islamofobia não se propague”. Para ele, o governo deveria ter dialogado com a comunidade muçulmana sobre o tema.

“Quereríamos um diálogo sério com os membros do governo, mas há mais de seis meses que esperamos em vão”, disse Orban, ressaltando que espera que as palavras do chefe de governo cheguem a todos os membros do Executivo.

De acordo com uma recente pesquisa feita pelo Eurobarômetro (EB) da União Europeia (UE), apenas 57% dos húngaros aceitaria trabalhar com um muçulmano.

O ativista pró-direitos dos ciganos Jeno Setet também tem críticas à forma como o governo tem conduzido a situação. Em entrevista à Agência Efe, ele disse que nos últimos tempos o governo húngaro vinculou a imigração com esta etnia ao assegurar que, devido a sua integração mal sucedida, a Hungria não pode agora aceitar os refugiados.

Em setembro, o primeiro-ministro chegou a dizer que seu país não pede a ninguém que o ajude com o fato de “ter de viver” com milhares de ciganos, e por isso rejeita que a Europa peça à Hungria para que colabore na recepção de refugiados.

“Isto não pode ser questionado por ninguém. Nós temos que viver com isto. Não pedimos a ninguém, exceto o Ocidente, que conviva com uma numerosa comunidade cigana”, afirmou.

Em suas críticas à proposta de cotas de Bruxelas para repartir os refugiados entre os países comunitários, Orban declarou que a “Hungria não pede que os ciganos sejam distribuídos pela Europa”.

“Nenhum primeiro-ministro húngaro falou assim sobre os ciganos”, ressaltou Setet, que qualificou as palavras de “demagogas e populistas”.

Calcula-se que de 5% a 8% dos 10 milhões de cidadãos húngaros sejam de etnia cigana.

“Os ciganos são parte da nação húngara. Ele fala como se os ciganos tivessem chegado agora à Hungria, quando estamos há mais de 600 anos no país. Agora são os refugiados que estão na mira e se transformaram no alvo dos discursos xenófobos no país”, acrescentou o ativista.

Seja como for, as políticas anti-imigrantes parecem cumprir o objetivo de recuperar para o partido do governo, o Fidesz, o voto que tinha ido para o ultradireitista e xenófobo Jobbik.

Ao todo, 32% dos entrevistados daria agora seu voto ao partido de Orban, contra 28% que fariam isso há um mês. Simultaneamente, o apoio ao Jobbik caiu de 16% a 13%.